Visão Catarinense: a pandemia e as saídas para questões geradas pela crise

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O Grupo ND iniciou a série de entrevistas "Visão Catarinense", com personagens da vida pública do Estado. A intenção é avaliar a gestão e ações do governo e do governador Carlos Moisés (PSL) em entrevistas sob o comando do consagrado jornalista Paulo Alceu.  Em pauta, o enfrentamento da pandemia de coronavírus e as saídas para os problemas sociais e econômicos gerados pela crise.

Abrimos a série de entrevistas desvendando os entraves políticos, institucionais e econômicos de Santa Catarina para seguir como um Estado de excelência.

Confira a entrevista com Gelson Merísio:

Gelson Merísio defende que a saúde deve ser priorizada e pensar em economia depois – Foto: Marco Santiago/ND

Estamos em uma situação delicada de incerteza e fragilidades. O que o senhor faria no momento que estivesse enfrentando uma pandemia da saúde e com a possibilidade de um colapso econômico? Qual modelo o senhor adotaria? 

Primeiro, dizer que nós começamos bem o enfrentamento com o isolamento precoce. Depois, no desenrolar, na minha visão, com alguns equívocos, especialmente em locais que tem uma grande demanda de probabilidade de contaminação que vem do Oeste, grande cidades e que deveriam ser tratados diferentes. A forma que iniciou-se foi correta, mas na sequência cometemos alguns equívocos que precisam ser corrigidos, precisamos proteger a vida e depois pensar nas questões econômicas. Passando a economia em três ou quatro meses, temos totais condições de recuperar os prejuízos pontuais. Onde não há a necessidade de isolamento, em pequenas cidades, que não tem atividades potencialmente complexas, não há porque haver isolamento. Mas a visão geral, é que precisamos especialmente nos pontos do frigoríficos do Oeste, por exemplo, grandes cidades e temos que ter o cuidado muito grande porque temos a iminência de transformar santa Catarina como um polo de maior grau de contágio.

No seu entendimento, não há como conciliar a saúde com a economia?

Não se trata de conciliar, se trata de ter uma prioridade absoluta que é a vida. A economia se recupera e a vida não. Agora, também não há necessidade de ter o isolamento e fechamento do comércio em cidades de pequeno porte que não tem nenhum caso. Você ter um Estado como o nosso, que é descentralizado, a visão muito presente do governo junto com os prefeitos, uma integração absoluta para que seja feito o certo. Nem mais, nem menos, o certo no momento certo.

Há uma dicotomia entre a atuação do governo e as prefeituras. Aí deve haver uma integração melhor, e uma resposta melhor. Existe tempo de corrigir, nós não temos que criticar, temos que somar porque estamos no mesmo barco.

Não se trata de conciliar [saúde e economia], se trata de ter uma prioridade absoluta que é a vida. A economia se recupera e a vida não.

Então não há critica pontual com aquele, esse ou aquele porque participou de uma eleição e perdeu, porque o prefeito é de outro partido. Nós temos que ter um processo em Santa Catarina diferente do nacional, onde tem uma guerra entre os governadores, prefeitos e presidente. Aqui nós temos que afinar o discurso e vai resultar em muitas vidas salvas.

Gelson Merisio – Foto: Divulgação/ND

O senhor falou em alguns equívocos, poderia pontuar alguns deles?

Primeiro, relaxamos a questão do isolamento em lugares que não era necessário. Segundo, fizemos isolamento em regiões que não precisavam ser feitas. Isso gera, por parte da sociedade, uma reação que contamina todos os processos, porque parece que abre tudo ou fecha tudo, e não é. Nós temos que ter uma postura do governo do Estado e das prefeituras que sejam integradas e muito claras na comunicação.

Nós precisamos saber cidade por cidade quantos leitos temos, quantas UTIs (Unidades de Tratamento Intensivo) nós temos, quantas estão ocupadas e qual o número de contaminados. Além disso, informar a população e precisamos tê-los como aliados. Nós estamos falhando muito na comunicação porque não se sabe o estágio de risco em cada cidades e a resposta da população é muito ruim em relação as atitudes tomadas pelos órgãos públicos.

Nós temos que ter uma postura do governo do Estado e das prefeituras que sejam integradas e muito claras na comunicação.

Então, corrigir a comunicação é o primeiro passo e ter muita clareza nas informações repassadas como, por exemplo, Concórdia tem 16 leitos de UTI e 15 estão ocupados, isso é quase uma tragédia anunciada. Daqui a algumas semanas, entra em colapso. E a cidade está sabendo? A população está informada? Eu acredito que não. Como está Chapecó, Criciúma, Xanxerê e Joinville? Em cada cidade deve ser transmitido para que a população seja aliada do gestor público nas tomadas de decisões. Não é porque o prefeito ou o governador quer, ou porque precisa ou não. Agora, quando não há comunicação, é o equivoco que se comete.

Em relação aos hospitais de campanha, surgiu a situação de um, em que houve denúncias de superfaturamento e que voltaram atrás, e em seguida lançaram hospitais de campanha com 1.000 leitos. O primeiro passo seria um hospital de campanha?

Olha, com todo respeito, aqui em Santa Catarina, isso foi uma estupidez, para não dizer outra coisa. Em Chapecó, temos uma ala inteira no Hospital Regional, pronta para ser utilizada, nova e todos os leitos que só precisam de respiradores para transformar em UTI. No município de Lages, temos uma ala nova no hospital de Lages para ser utilizada. Em Itajaí, 100 metros de onde seria o Hospital de Campanha. Uma ala inteira para ser inaugurada, em Biguaçu, tem um hospital novo, inteiro, que poderia ser todo requisitado, para referência em Covid-19.

Nós falamos em hospital de campanha, é uma bobagem e um tempo perdido. O que de fato me preocupa, é que perdemos um tempo absolutamente precioso de onde a curva estava baixa e não fazemos aquilo que deveria ser feito. Precisamos de mais leitos em Itajaí, Chapecó, Biguaçu, Lages e Criciúma. Nós precisamos utilizar o modelo descentralizado de hospitais filantrópicos que podem dar uma resposta muito mais rápida e efetiva.

Além disso, uma vantagem é que daqui a seis meses, com o hospital de campanha removido, os equipamentos poderão ficar atendendo os catarinenses por mais cinco ou 10 anos. Então, não há uma justificativa plausível. Nem vou entrar no quesito se houve corrupção, má fé, desvio, para isso a investigação deve ser feita. Mas a decisão de partir para hospital de campanha em Santa Catarina, na minha visão, é completamente equivocada. Só deveria ser feito se tivéssemos ocupado todo o potencial que temos dos hospitais da rede filantrópica e daqui três ou quatro meses que tivesse saturado, aí sim, poderíamos conversar sobre os hospitais de campanha. Nessa fase, ainda não há justificativa.

Gelson Merísio – Foto: Marco Santiago/ND

Nós precisamos utilizar o modelo descentralizado de hospitais filantrópicos que podem dar uma resposta muito mais rápida e efetiva.

Mesmo sem o senhor querer entrar na conversa se houve corrupção, estamos vivendo um dos episódios de maior escândalo no governo de SC, que é a compra dos respiradores de R$ 33 milhões, pagos adiantados, e que foram trocados no meio da negociação. A forma como foi conduzida a negociação e o governador sendo ordenador primário e o homem que está controlando todo esse gabinete de crise, o governador não tem conhecimento disso?

Olha, temos que entender que o momento é de extrema gravidade na questão pública e eminente colapso do sistema de saúde do Estado, mas temos que separar as estações. o MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) e a Polícia Civil estão investigando e a Alesc (Assembleia Legislativa de Santa Catarina) está montando uma CPI.

A investigação tem que correr à parte e não pode tirar o foco da questão de saúde pública. Eu não vou dar conselho ao governador, mas se fosse eu, me mudaria para dentro da secretaria de Saúde. Até mesmo porque ele vai trocar de secretário a cada uma semana com essa balburdia que está. O único que tem legitimidade é ele para assumir e liderar. No entanto, não estou aqui para plantar o caos e nem ficar de críticas porque não é hora.

Mas eu gostaria que o governador assumisse essa liderança porque é preciso porque nos próximos 120 dias ele será o governador absoluto, depois não sei. Mas ele tem uma responsabilidade de conduzir o Estado, liderar os prefeitos para que possamos juntos passar por essa pandemia. Nós estamos no mesmo barco e mesmo avião. Não dá para torcer para o avião cair, porque estamos dentro dele e quem está pilotando o avião é o atual governador.

Eu não vou dar conselho ao governador, mas se fosse eu, me mudaria para dentro da secretaria de Saúde. […] Nós estamos no mesmo barco e mesmo avião. Não dá para torcer para o avião cair, porque estamos dentro dele e quem está pilotando o avião é o atual governador.

Então, não quero e não vou fazer nenhuma crítica pontual a ele, porque não soma neste momento. Depois das investigações, resta a responsabilidade pessoal, existem as ferramentas democráticas e institucionais para resolver. Mas o momento atual é de responsabilidade de todos e nem pode pensar na próxima. Todos nós temos que ser solidários para diminuir a pressão para que os resultados sejam melhores.

Agora, o trabalho e dedicação trabalhando 20 horas, se necessário, dentro da secretaria de saúde, não só para tratar de mal feitos, como aconteceram, mas para não acontecer decisões equivocadas, como veio acontecendo até aqui.

“E se não chegarem?”

Vamos lá, dizem que vai chegar os respiradores, mas se não chegarem? Então, o catarinense vai ficar na mão de picaretas que não sabem de onde é e como que faz? De quem é a culpa? Não importa quem é o culpado, importa que os respiradores cheguem em Chapecó, Joinville, Blumenau e Florianópolis. Seja dessas empresas que estão trazendo ou das catarinenses.

Gelson Merisio – Foto: Fábio Queiroz/Agência AL/ND

O erro que foi cometido, foi deixar de comprar da empresa aqui de Jaraguá do Sul, a Weg, que vai a partir do dia 18, entregar respiradores por  R$ 68 mil, para entrar numa aventura com uma empresa chinesa. Bom, vai comprar respiradores da Weg novamente, é melhor chegar dois do que nenhum. Porque esperar para ver o que vai acontecer é um erro que não pode acontecer. Então, vamos separar o feito e o mal feito realizado até aqui e vamos olhar para frente.

Existe um tempo muito curto para as respostas e desejo, com toda a sinceridade, que o governador faça o seu papel de líder como fez por mérito por isso, e que lidere os prefeitos, em especial, para um caminho único para passar por um caminho com o menor número de  mortos possível e não tenho dúvidas que serão muitos, infelizmente.

O senhor falou que ele comandará esse processo pelos 120 dias, dando a entender que depois disso a situação é outra completamente diferente. Sabendo todos os trâmites de CPI e impeachment, o senhor acredita que o governo está correndo esse risco?

Quando falei nos 120 dias, não estava falando sobre impeachment ou não. Estava falando que a pandemia estará sob controle. Essa questão é de responsabilidade pessoal e, até o momento, não vi isso da parte do governador. Pelo menos, o que vem sendo relatado pela imprensa, não vi nada ligado com a parte pessoal dele. Nós estamos em um processo de pandemia e, na minha visão, não deveríamos misturar as duas coisas. Se houver culpa dele ou da vice-governadora nas partes, a investigação, CPI e o tempo certo vão dizer, mas não é agora.

No momento, a questão deve ser a pandemia e a minimização das questões da economia. Para isso, ter clareza e transparência nas informações para fechar onde deve ser fechado e abrir o que deve ser aberto. E que haja compreensão da população, isso só vai funcionar se a população tiver informada e aliada ao governo, caso contrário, a pressão será muito grande e ninguém aguenta.

Informar bem, isso é que conta, e é sobre isso que devemos fazer nossos exercícios, a questão de impeachment e investigação, deixa que os órgãos façam isso com o tempo para que seja realizado, pode ter certeza que não será realizado injustiças.

[…] Isso só vai funcionar se a população tiver informada e aliada ao governo, caso contrário, a pressão será muito grande e ninguém aguenta.

Recuperar a economia será fácil ou difícil com o PIB de -10%?

Em 2014, 2015 e 2016, convivemos com o PIB negativo em 3 e 4% por anos seguidos. Isso vai acontecer nos próximos três anos. Mas precisamos ter muita clareza de propósitos, um plano bem estabelecido, um envolvimento dos principais empresários do Estado numa relação muito presente com o governo e para que se possa construir uma estratégia para diminuir os danos e o dano é desemprego.

Não estamos nos dando conta, mas não tivemos nada parecido no mundo nos últimos 100 anos. Nós temos que compreender isso e cada um dar sua contribuição no momento certo e dar ajuda ao Estado.

Há pessoas que no final do mês não terão dinheiro para pagar seu rancho e seu aluguel, isso é muito triste para Santa Catarina. Poder diminuir isso requer uma integração do Estado, em passar por todas as divergências políticas e pessoais, partidárias e entendermos o momento diferente que é. Não estamos nos dando conta, mas não tivemos nada parecido no mundo nos últimos 100 anos. Nós temos que compreender isso e cada um dar sua contribuição no momento certo e dar ajuda ao Estado.

O senhor não acha que é um grande momento para diminuir a máquina do Estado?

Eu acho isso desde o início. Quando fui candidato, iria praticamente zerar os cargos comissionados. Na época, havia no máximo 200 e hoje tem mais de 1.000. Mas cada um tem seu jeito de fazer.

Nós precisamos que Santa Catarina vá bem. Para isso, o Governo precisa errar menos, trabalhar mais e acertar mais. Eu torço para que isso aconteça.

Todo o Estado tem que ser pensado, o que vai importar para a população é o serviço, a saúde, a segurança pública e isso precisa estar muito presente, porque a pressão é maior em momentos de crise. Mas cada um tem sua visão e eu não tenho legitimidade, até porque não fui eleito, e ele tem regimento para fazer do seu jeito.

Nós temos que respeitar o calendário, eu não tenho pressa para que os meses passem e nem torço para que dê errado. Porque não seria bom para ninguém, nós precisamos que Santa Catarina vá bem. Para isso, o Governo precisa errar menos, trabalhar mais e acertar mais. Eu torço para que isso aconteça.

Investimento em saúde

Vem chegando diversos recursos para a saúde, o que tem sido a bandeira de muitos políticos, e nunca melhora. O senhor acha que após a pandemia, encontraremos uma economia pronta para atender a população?

Essa colocação que você faz, muitas vezes, que a saúde nunca melhora, ela não é muito real. Eu tiro pela minha mãe que foi fazer um tratamento, há 10 anos, em São Paulo, depois Curitiba e agora faz em Xanxerê. Então, a saúde pública, se olharmos para trás, ela melhorou muito. Mas ainda precisa de uma resposta para que seja mais presente, porque melhora os exames e tratamentos, e as pessoas vivem mais e é a área mais complexa. Por isso, quando estava na Assembleia [Legislativa], fiz uma emenda constitucional, passando de 12 para 15% o investimento na saúde.

Mas não foi derrubada?

O atual governo derrubou, o que eu acho um equívoco. Porque essa é uma decisão da sociedade, temos que injetar mais na saúde por uma questão óbvia, as pessoas estão vivendo mais, com mais plano de saúde e a prioridade é a vida. Ter mais recursos é claro que vai faltar em outra área. Mas, infelizmente, é uma escolha que nós vamos ter que fazer e temos que rever isso. A pandemia está mostrando que o investimento vai ser superior aos 25% do PIB e isso não vai voltar aos 12 e nem para os 15%. Vai ser mais que 15% no ano que vem. Será uma escolha que teremos que fazer como cidadão e o governo tem que respeitar a vontade da maioria e espero que reveja isso.

O que o senhor acha que podemos fazer para recuperar o mais rápido possível?

Primeiro, respeitar as etapas. Agora, a etapa é a pandemia e amenizar a perda de vidas, e isso de forma transparente. Eu gostava muito da forma do outro ministro da Saúde, o Mandetta, sobre a clareza dos dados e isso não conseguimos fazer aqui no Estado. Sobre os leitos, não conseguimos fazer nos municípios, não há uma organização para tranquilidade para o cidadão.

Eu vi um médico do Paraná, onde está sendo muito bem feito o trabalho, dizendo que a família dele está fazendo uma quarentena que não é total e acompanhando diariamente o número de leitos de UTI da sua região. Quando der 60% de ocupação eles se trancam em casa e isso por orientação deles próprios. Porque há uma comunicação efetiva, quando não há, ao contrário existe uma pressão para que todo mundo possa ir para a rua. Eu acho que é esse o problema que está acontecendo na organização dos municípios e na forma que está sendo corrigida.

Quando eu falo, não comento como uma crítica sobre o que passou, mas ainda temos três meses de crise profunda e pelo inverno que está chegando e número de contaminados que vai aumentar o potencial de propagação. Por isso, esses próximos três meses serão cruciais em tempo para o que não foi feito até agora.

União de esforços para a proteção à  vida?

Independente de partido, quem disputou eleição e que vai disputar, acho que é essa a conta. Separar impeachment, corrupção e deixar os órgãos fazer o quem tem responsabilidade especialmente quem está em secretarias, governo e prefeituras fazer um processo muito harmônico e coeso para que seja um resultado da melhor forma possível.