Visão catarinense: Raimundo Colombo avalia atuação do Governo de SC no enfrentamento da crise

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A terceira entrevista relacionada da série "visão catarinense", comandada pelo jornalista Paulo Alceu, conta com a presença do ex-governador de Santa Catarina Raimundo Colombo

O período de Raimundo Colombo à frente do governo de Santa Catarina não foi dos mais calmos. Eleito pela primeira vez em 2010 e reeleito em 2014, Colombo enfrentou diversos episódios de embates e crises em todo o Estado.

Convidado para a série Visão Catarinense, Raimundo Colombo conversou com o jornalista Paulo Alceu sobre o atual cenário da política nacional e de Santa Catarina. Além disso, demonstrou sua posição sobre assuntos como, por exemplo, hospital de campanha e a briga política enfrentada pelo atual governador, Carlos Moisés.

Raimundo Colombo conversou com o jornalista Paulo Alceu – Foto: Daniel Queiroz/Arquivo/ND

Confira a entrevista completa com Raimundo Colombo:

O senhor enfrentou uma recessão, brava e problemática no seu governo. Agora, uma nova recessão, mais grave e com outros problemas. Como o senhor acha que deveria enfrentar essa crise econômica que se apresentou?

Eu entendo que o desafio é muito grande. Realmente muito complexo e com várias faces, entre elas, a da Saúde, que está nos desafiando. Ninguém diz direito o que vai acontecer, mas os números nos assustam. Temos que dar prioridade para isso. O segundo aspecto é a questão da economia, que também é grave.

Em seguida, a questão social, porque já está aumentando o número de furtos e de delitos no estado de Santa Catarina e não tem como esconder que existe a crise política, que vinha latente, e agora tomou proporções maiores.

O que está acontecendo na economia? Você libera, a pessoa reabre a empresa, não consegue vender, está queimando estoque, ela não tem apoio e acaba demitindo as pessoas e fechando a empresa.

A questão da saúde, acho que existe um protocolo na Defesa Civil, realizado em 2017, com auxílio da ONU (Organização das Nações Unidas), que é um documento perfeito e muito bem elaborado.

O isolamento social tem três estágios, nas cidades em que não houve casos, você faz uma abordagem na entrada da cidade, onde a pessoa da saúde orienta e faz os cuidados preliminares.

Já o estágio amarelo, você faz um  monitoramento. Com as transmissões comunitárias é considerado um sinal vermelho. Fazer os três foi um erro, assim como fechar tudo ao mesmo tempo.

O Rio Grande do Sul vai fazer isso que estou falando e que está no protocolo de Santa Catarina, isso é o sistema mais adequado. O estado precisa agir porque nós temos esse papel de liderança.

O que está acontecendo na economia? Você libera, a pessoa reabre a empresa, não consegue vender, está queimando estoque, ela não tem apoio e acaba demitindo as pessoas e fechando a empresa.

Ausência do Governo Estadual

Está faltando essa liderança por parte do Governo do Estado?

Com certeza, esse negócio não é para tocar como chefe de almoxarifado. Você tem que ser um chefe que apresente caminhos e alternativas. Por exemplo, uma das coisas que você colocou é que o documento do setor de energia, era um documento que os órgãos demoravam para liberar e nós fizemos uma integração com todos os órgãos porque o que pudesse liberar a gente iria pelo motivo de render movimentação financeira.

Além disso, no setor têxtil só vinha material da China e nós baixamos o imposto para dar competitividade. Nós expulsamos o produto chinês para gerar o nosso. No setor tecnológico, se estava gerando emprego, então vamos formar mão de obra.

Esse negócio não é para tocar como chefe de almoxarifado. Você tem que ser um chefe que apresente caminhos e alternativas.

Então, você tem que agir e não conheço nenhuma medida nesta direção. Acho isso muito grave porque o Sebrae divulgou um número de desempregados, onde temos mais de 400 mil desempregados, um absurdo. Com sete milhões de habitantes e 55% de massa ativa, isso corresponde a um número muito grande de desempregados. Imagina o que vem pela frente e isso não é uma coisa simples. Até você abrir uma empresa, reativar capital novamente, a tendência é muito ruim.

A ajuda do governo seria baixar o imposto?

Sim, assim como oferecer juro zero e postergar impostos, pagamento de energia elétrica e reunir os setores para saber o que pode fazer para ajudar neste ponto.

O senhor acha fundamental a presença do líder em todas as regiões do Estado?

Isso é indispensável, tem que romper a barreira da burocracia, do entorno e isso é uma tragédia. Nós queremos um líder e precisamos disso. Em todos os Estados e segmentos da sociedade, é uma crise relevante e que vai gerar problemas muito sérios para nós.

Dá para superar? Sim. Dá para vencer isso? Sim, e nós vamos vencer. O Brasil é forte e Santa Catarina é um espetáculo. A verdade é que o mercado interno desabou. O povo está comprando apenas o básico. O governo federal, na área econômica, acho que está tomando decisões interessantes e positivas, mas você não pode deixar as coisas desarrumar, é preciso antecipar.

Dá para superar? Sim. Dá para vencer isso? Sim, e nós vamos vencer. O Brasil é forte e Santa Catarina é um espetáculo.

O dinheiro está acabando, a pessoa começa a tomar medidas e precisamos dispor medidas, como juro zero. Nós estamos vivendo uma fase diferente, a da solidariedade, envolvendo a vida e a saúde.

No entanto, quando a disputa é pelo dinheiro, não é de solidariedade. Quando acabar o momento da doença, do coronavírus, vamos viver a fase do dinheiro e quem deve dar essa estabilidade e agir de forma fundamental? O Estado, em todas as instituições. Eu acho que o servidor público deve se organizar e, de alguma forma, aceitar redução salarial por alguns meses.

Como o senhor vê a situação dos hospitais de campanha em Santa Catarina? Além disso, que tipo de trabalho deveria ser feito?

O hospital de campanha é a última coisa a ser feita neste processo. O primeiro é aproveitar a rede que você tem, pública e privada. O segundo é remanejar o que existe e fazer o plano de ocupação.

O hospital de campanha pode ser feito quando a proporção está gigante. Mas a maior parte da verba destinada é perdida porque você não aproveita a maior parte que será desmontada. Começar por isso foi um erro fatal e teve as consequência que conhecemos.

O terceiro é finalizar as estruturas inacabadas, que são muitas no Estado. Entre elas, o hospital em Lages, o Tereza Ramos, e fazer o aproveitamento dessa área.

O quarto é tomar conta de um hotel, onde você já tem o quarto, o banheiro e é muito mais simples, barato e rápido. O hospital de campanha pode ser feito quando a proporção está gigante. Mas a maior parte da verba destinada é perdida porque você não aproveita a maior parte que será desmontada. Começar por isso foi um erro fatal e teve as consequência que conhecemos.

Recuperação da economia

Dentro do quadro econômico, com a política em crise e com a possibilidade de impeachment do governador do Estado, como o senhor avalia o cenário atual?

Eu vejo isso como uma crise de ego, Paulo, até na política nacional. Isso é desagradável e inaceitável. As pessoas ficam discutindo interesses políticos, quando há um problema de saúde, isso é inaceitável.

Parece que você fazer essa nova política é brigar, ofender o tempo inteiro. Este é o momento de alinhar e transmitir os problemas. Eu acho que falta diálogo, humildade e desejo para que todo mundo ajude.

Pela minha experiência no governo, era exatamente [momento] de agregar. Quando você mostra com clareza, ninguém se nega a ajudar, mas quando você vai com a tendência de dar um chute na canela, o outro também vai fazer a mesma coisa.

Este é o momento de alinhar e transmitir os problemas. Eu acho que falta diálogo, humildade e desejo para que todo mundo ajude.

Porque esse ambiente de adversidade não soma. A questão de impeachment, acho que é difícil de tratar, neste momento. Primeiro, porque tem que respeitar o governador eleito pelo povo. Mas eu acho que só tenha uma situação extrema para tirar um governante eleito pelo povo.

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Tem essa situação, que é um caso grave, eu não consigo entender como cometem um erro desse tamanho. Eu nunca fiz pagamento adiantado, era impossível de fazer. Nós tínhamos uma estrutura de grupo gestor que nada passava entre eles.

Eu sempre tive o conhecimento de tudo e sempre passava pelo governador. Se o governador sabe, é ruim. Agora, se ele não sabe, também é ruim. Porque se você faz um contrato de R$ 33 milhões, para pagar adiantado, e o governador não sabe, é uma tragédia. E se sabe é uma tragédia também.

O senhor acredita que há ineficiência, incompetência, prepotência ou má-fé, neste cenário que foi criado em Santa Catarina?

Eu quero ajudar, quero falar do futuro e fugir do aspecto da crítica. Quero me disponibilizar com a minha experiência. Acho que um dos erros do governo foi crer que todos que estavam lá eram corruptos, tem gente muito boa lá, que ajudou 10 governos antes de mim e continuaram ajudando.

Se o governador tivesse mantido o grupo gestor, duvido que isso estivesse acontecendo, porque iriam ver isso e não iriam assinar. Isso também aconteceu comigo e sempre buscava entender os motivos que havia de errado.

Então, vamos focar no enfrentamento da crise da saúde e nessas ações da economia que são importantes, isso de impeachment deve ficar com a justiça e a polícia. Além disso, também espero que não politizem isso, eleição é lá na frente. Agora, vamos focar e respeitar o nosso patrão, o povo de Santa Catarina.

Planejamento futuro

Qual o primeiro passo que o senhor acredita que tenha que ser dado após a pandemia?

Creio que, para começar, até mesmo antes tem que cuidar da questão da economia, que é um setor gravíssimo, e fazer um gesto político e dizer que está aprendendo com isso e seguir em frente.

Eu também errei e não me senti menor. Eu me lembro que na queima de ônibus não estava preparado e comecei a escutar as pessoas da área e seguia insatisfeito porque não apareciam resultados.

Então, procurei pessoas do Ministério da Justiça, da Polícia Federal, e isso me deu a mão. Qual o problema de apresentar humildade? Nós passamos pela questão financeira, eu sabia o quanto entrava, saia e uma equipe que auxiliava nisso de entender se piorou ou melhorou.

Santa Catarina tem uma história de grandeza, superação e um povo que cumpre com o seu dever.

Foi tudo muito difícil porque foi um período de três anos de recessão e agora também será difícil. Então, acho que o governo tem que encontrar o seu caminho e se reorganizar porque parece que se desmanchou e fazer isso com grandeza, buscar na sociedade e não em um  grupo de política interna, pedir apoio aos poderes e conversar com a imprensa. Vamos nos ajudar e mostrar que tem coisas que podemos trabalhar juntos. Lembro que na reforma da Previdência, olhava e via “o quadro é esse e aquilo” e o preço da popularidade sou eu que vou pagar, dizia “me ajudem” e o pessoal ajudou.

Ninguém se nega em ajudar em uma boa causa. Santa Catarina tem uma história de grandeza, superação e um povo que cumpre com o seu dever. Vamos criar um clima de harmonia e isso pode ser uma questão para aprender. Questão política, conversamos lá na frente, eu acho um erro politizar o processo.