Apesar da melhora com a 3ª faixa, Via Expressa já se apresenta insolúvel

Principal via de acesso à Ilha de Santa Catarina, trecho da BR-282 segue como dor de cabeça diária para seus usuários; projeto de ampliação requer um orçamento de R$500 milhões

REPORTAGEM: Diogo de Souza

“Foi maravilhosa essa obra, mas a verdade é que só passamos a fazer fila em outro lugar”, desabafou Alexandre Netto, 35 anos, administrador que atendeu a reportagem em meio ao “anda e para” registrado comumente na BR-282, trecho denominado Via Expressa.

Fila na via Expressa, no acesso à Ilha de Santa Catarina; cena normal para os moradores de toda região – Foto: Diogo de Souza/ND

Nesse mês de abril uma das obras mais celebradas (e esperadas) dos últimos tempos na região da grande Florianópolis, a expansão da terceira faixa, completa dez meses.

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Com um fluxo atual estimado, em média, de 200 mil veículos por dia, a principal via de acesso da capital catarinense teve uma melhora considerável segundo autoridades e motoristas, mas escancarou outros gargalos da (i) mobilidade da região e dá claros sinais de que sua validade está com os dias contados.

Alheia e altamente influenciada pelo período de quarentena em função do coronavírus, os dados e a rotina mostram que trata-se de uma condição temporária.

Debruçado nessa situação o nd+ esmiuçou os quase seis quilômetros de extensão do trecho e descobriu que a terceira faixa é apenas parte de uma obra que, com um valor estimado em R$500 milhões somado as necessidades paralelas da mobilidade, dificilmente sairá do papel.

Rotina alterada, porém mantida

Construída na década de 1970, a via expressa, ainda com duas pistas em ambos os sentidos, foi feita e usufruída por um fluxo estimado em 25 mil veículos por dia.

Fluxo de saída da Ilha, geralmente no final da tarde, todo congestionado. – Foto: Marcelo Feble/NDTV/divulgação

Desde então, essa ligação entre a BR-101 com Florianópolis, consolidou-se como a principal via de acesso a Florianópolis. Segundo a PRF (Polícia Rodoviária Federal), atualmente, o fluxo é de 200 mil veículos por dia, o que representa um aumento de 700% nos números inicialmente contabilizados.

Alexandre Netto, o primeiro personagem da reportagem, ainda admitiu que, na condição de morador de São José, na região continental, deu “graças a Deus” por não ter que utilizá-la todo o dia. “Não sei se teria toda essa paciência”, entendeu ele que trabalha no município josefense.

Já uma condutora que pediu para não ser identificada, moradora do bairro Forquilhinhas, em São José e que trabalha na Ilha, admitiu que só encontrou na terapia a “paz e a sabedoria” para encarar o congestionamento. São, pelo menos, dois momentos de muita retenção: nas primeiras horas da manhã, para ingressar na Ilha; e no final da tarde, para sair.

Estrutura viária inadequada

Para o engenheiro Ronaldo Carioni Barbosa, superintendente regional do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) em Santa Catarina, a obra deu a sensação de que parecia “sempre final de semana”.

Ronaldo explicou que apesar disso, notou, em função da expansão das faixas, um aumento no fluxo e no uso dos carros. Embora as benfeitorias trazidas pelo acréscimo no espaço, o engenheiro admite a migração da retenção para outros pontos.

Cena comum na Via Expressa; completamente congestionada – Foto: Diogo de Souza/ND

“Hoje, entrar em Florianópolis, é difícil. Noto a retenção e o represamento do fluxo tanto para entrar na BR-101 quanto para ingressar na ponte Pedro Ivo, o problema não é mais na Via Expressa”, observou.

Ronaldo, em contrapartida, lembrou as melhorias na Beira-Mar Norte e na Via Expressa Sul que, devido a fluidez dada para a via de acesso a ilha, acabou abrindo espaço nos dois sentidos.

Para a Polícia Rodoviária Federal (PRF), não há a comprovação do “aumento” no número de veículos. De acordo com Luiz Graziano, chefe de comunicação do órgão em Santa Catarina, a obra foi “excelente” e “necessária”.

Apesar de elogiar engordamento do trecho, Graziano admitiu a dificuldade viária que é realidade em toda sociedade brasileira.

“A Via Expressa não é suficiente para a demanda atual e a ponte também não é. Em verdade, a estrutura viária não é adequada para o fluxo atual de veículos entrando e saindo da ilha”, apontou.

Valores incrementados, últimos reparos e contrato no fim

Com um custo inicial de R$26 milhões, o contrato passou por dois ajustes antes de ser finalizado em mais de R$34 milhões. A Vogelsanger Empreendimentos, que é responsável pelo trabalho, cumpre seu contrato até o mês de abril.

Terceira faixa da Via Expressa em construção – Foto: Marco Santiago/Arquivo ND/ND

Até lá a empresa, que é de Joinville, necessita, além de prestar o imediato reparo, concluir sua camada asfáltica, ajustar a pintura das faixas e ainda garantir a iluminação dos 5,6 quilômetros de extensão.

“O contrato finaliza em abril e tudo que está sendo feito e ainda por fazer, está no contrato firmado com eles”, acrescentou o engenheiro Ronaldo.

Com o encerramento do contrato, contudo, a empreiteira não terá mais nenhum vínculo com a obra. Segundo Ronaldo eles só terão que intervir em caso de necessidade de reparo ou dano de grande monta já que há um prazo de garantia de cinco anos.

Ainda de acordo com o superintendente local do DNIT, há o desejo de um alargamento e uma melhoria aos veículos que saem da ilha com direção ao Sul do Estado.

Se para ir ao Norte, o trânsito flui normalmente, o lado oposto costuma concentrar o fluxo que engarrafa até a divisa do bairro Monte Cristo com Capoeiras.

Para Ronaldo há um problema no encontro da alça de saída em direção ao Sul, na BR-101, próximo ao acesso ao bairro Roçado, em São José. O engenheiro revela que existe uma espécie de “conflito” já que, aquele espaço é de concessão da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) com Arteris Litoral Sul.

“O que precisa ser feito é construir uma faixa em direção ao Sul, tem a desincorporação para o Roçado e fazer mais uma nova faixa rumo ao Sul. Tenho tentado, mas estamos com dificuldade”, disse.

Obra de R$500 milhões e sua inviabilidade

O projeto que prevê e desenha o acesso da BR-101 à Ilha de Santa Catarina é muito mais arrojado do que a realidade atual. O superintendente do DNIT lembrou e expôs esse “sonho”, ao ser questionado sobre um eventual “descaso” com ciclistas e até pedestres da região.

Projeto principal inclui um cenário que, no momento, parece inviável – Foto: Divulgação/DNIT/ND

Com a expansão da terceira faixa e a redução do espaço, ciclistas e pedestres correm sérios riscos ao passar pela rodovia em função da inexistência de espaço. Junto da falta de uma ciclovia, passarelas são espaços raros ao longo do trecho que conta somente com duas.

Para o superintendente esse problema não seria exatamente um problema em caso de execução do projeto. A terceira faixa da Via Expressa, inclusive, é tratada como “uma primeira parte” de toda a obra.

O desenho original, inclusive, é imponente. São quatro pistas em cada um dos sentidos, além de corredor exclusivo para ônibus. O esboço ainda prevê a revitalização das vias marginais com inclusão de calçadas e ciclovias.

Embora um cenário irresistível aos olhos de quem vê (e principalmente dirige) trata-se de algo impensável. A curto e médio prazo, ao menos, pelos valores envolvidos e pelas prioridades, não reúne chances de ser inicializado em prazo menor que três anos.

Movimento que começa no sentido Ilha; termina no sentido continente – Foto: Foto Flavio Tin/ND

“Sendo bem realista, com a situação do país que está se recuperando economicamente, temos uma série de rodovias para colocar e concluir”, justificou.

Sobre o valor estimado em R$500 milhões, Ronaldo Carioni Barbosa lembrou a necessidade de “recortar o morro” referindo-se ao Morro da Caixa, na região continental; além da necessidade de contenção e aterro.

Redução no número de acidentes

Passados os primeiros meses da obra, os números de acidentes caíram. Além do maior espaço entre os veículos, há um trabalho constante de monitoramento da PRF.

Acidente ocorreu no km 5,5 da Via Expressa; ocorrência de 2019 – Foto: PRF/Divulgação

Em 2018 e 2019, quatro pessoas morreram, respectivamente, no trecho que compreende a Via Expressa. De acordo com os dados repassados pela PRF, até o momento, em 2020, ninguém morreu em decorrência do trânsito.

Os acidentes diminuíram também. Entre junho e dezembro de 2018 – ainda sem a obra – foram 157 acidentes. Já no mesmo período em 2019, com as três pistas, foram 127 ocorrências.

Esses índices ainda indicam uma queda ainda mais brusca, quando comparado nos três últimos anos. Entre janeiro e março desse triênio os dados referentes a acidentes caíram drasticamente.

Foram 76 acidentes atendidos no primeiro trimestre de 2018, outros 60 em 2019 e somente 25 no corrente ano. Lembrando que o número referente a 2020 foi atualizado até o último dia 16 de março.

Transporte marítimo ainda engatinha

Uma das soluções para a redução no fluxo e nos engarrafamentos é o transporte marítimo. Em contato com a pasta responsável pelo projeto, a SIE (Secretária de Estado da Infraestrutura), a implantação “está em andamento”.

Apesar disso a pasta se manifestou e revelou um pequeno entrave envolvendo o empresário vencedor da licitação e a secretaria de Patrimônio da União.

Há um desejo do empresário de “alteração no contrato para diminuir a área destinada ao terminal marítimo pois, a área solicitada é muito grande e isso impacta na receita”, resumiu.

O pronunciamento oficial ainda finaliza revelando que solucionada essa parte, “será possível dar prosseguimento aos outros investimentos que estão dentro do cronograma do empresário”.

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