28% das cidades com Covid-19 em Santa Catarina são pequenas e sem UTIs

Levantamento feito pelo nd+ mostra que novo coronavírus já chegou a uma a cada quatro cidades do Estado. Dos 120 municípios com ao menos um caso da doença, 35 são de pequeno porte. Sem testagens, casos suspeitos são apenas isolados e hospital referência tem distância de até 105 km

REPORTAGEM: Caroline Borges e Luana Amorim
EDIÇÃO: Beatriz Carrasco

Mais de um mês após a confirmação dos primeiros casos de coronavírus em Santa Catarina, os números divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde impressionam: 1.995 catarinenses já foram infectados e 44 pessoas morreram por conta da Covid-19. Isto conforme os dados confirmados, já que a falta de ampla testagem indica subnotificação da doença em todo o País.

Apesar das regiões populosas concentrarem a maior parte dos casos, o avanço do vírus em cidades pequenas acende um alerta para especialistas e entidades. 

Um levantamento feito pelo nd+ com base nos dados estaduais até esta quarta-feira (29) revelou que o novo coronavírus já bateu na porta de uma a cada quatro cidades do Estado. Além disso, dos 120 municípios catarinenses que registraram ao menos um caso da doença, 79 possuem menos de 30 mil habitantes. Isso representa 65% das cidades com casos.

Em um recorte menor, o cenário da Covid-19 aponta um dado preocupante: 28% dos municípios catarinenses com casos possuem menos de 10 mil habitantes. O número representa 35 cidades espalhadas pelo Estado, que não possuem estrutura necessária para tratar pacientes infectados pelo vírus.

Antônio Carlos, na Grande Florianópolis, registra 16 casos da Covid-19  – Foto: Divulgação/PMAC/ND

Juntos, esses municípios menores concentram 120 casos e cinco mortes. Antônio Carlos (Grande Florianópolis) e Irani (Oeste) estão em primeiro lugar nesse ranking, com 16 casos confirmados da doença em cada cidade.

O município da Grande Florianópolis ainda aparece com elevado número de mortes, totalizando três. As outras duas vítimas fatais entre esses pequenos municípios moravam em Tangará, no Meio-Oeste, e Pedras Grandes, no Sul do Estado.

Já as 45 cidades entre 10 mil até 30 mil habitantes com casos da Covid-19 já somam 203 pessoas infectadas. Foram oito mortes até o momento: cinco em cidades do Sul, uma no Planalto Norte, uma no Alto Vale e uma na Foz do Rio Itajaí. 

Bomba-relógio

O oceanógrafo e geógrafo Marcus Polette ajudou a construir um mapeamento diário da doença no território catarinense, voltado aos pequenos municípios. Após o trabalho feito para a Univali, onde é professor, ele classificou o avanço do vírus nessas localidades como uma “bomba-relógio”.

Sem leitos de UTI (Unidade de Tratamento Intensivo), sem respiradores e com pouca estrutura, a interiorização do novo coronavírus pode contribuir para o crescimento vertiginoso dos casos e o colapso do sistema de saúde do Estado. E o pior: a perda de vidas que poderiam ser salvas.

O especialista afirma que o governo precisa olhar com atenção para os municípios de até 10 mil habitantes. Para o professor, além de menor infraestrutura, essas localidades “possuem índice de desenvolvimento mais baixo e com grau de pobreza maior”.

Outro especialista que destaca essa necessidade de atenção maior do Estado é o médico, mestre em Saúde Pública e ex-reitor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Lúcio Botelho.

Botelho explica que as cidades pequenas são as mais frágeis em todo o sistema de saúde, estão desprotegidas e dependem de outros municípios com a estrutura de atenção que a Covid-19 requer. 

Além disso, o médico levanta a hipótese de que, mesmo pouco populosas, as localidades menores podem disparar o número de casos. “Isso é uma questão sociológica”, avalia Botelho, ao citar que é um erro vincular a doença apenas às aglomerações. O que dá um falsa sensação de segurança em cidades menores.

“As pessoas interpretam [a Covid-19] como sendo de cidade grande. Então, o entendimento é: independentemente da cidade, o risco ocorre em todas as pessoas”, comentou.

Sem hospital, sem testes e apenas um médico

Esse é o caso de Presidente Castello Branco. Com 1.568 habitantes, a cidade do Meio-Oeste é a localidade com menor população que teve casos de coronavírus confirmados no Estado até o momento. Desde que teve a primeira confirmação, em 22 de abril, quatro pessoas foram diagnosticadas com a doença. 

Sem hospital, sem testes, com apenas uma unidade de saúde e uma única médica clínica geral, o município declarou estado de emergência na segunda-feira (27), na tentativa de frear o avanço da doença. Além disso, solicitou testes ao Estado, fez uma série de desinfecções em comércios e ruas, além de obrigar o uso de máscaras.

Presidente Castello Branco – Foto: Presidente Castello Branco/Divulgação

No entanto, a incerteza da chegada dos exames e a expectativa de aumentos dos casos aumentam o clima de tensão, conta a secretária municipal de Saúde, Neiva Klemann Toniello. Considerada um medidor da proliferação da doença, a taxa de casos por habitantes em Presidente Castelo Branco é de 0,025%. Esse índice “acende um alerta para os próximos dias”. 

“A nossa taxa é muito alta, porque somos pequenos. Estamos bem preocupado com essa situação. Se alguém precisar de atendimento urgente ou fazer teste, precisamos levar para Concórdia. Não temos muita estrutura e acreditamos que o pico de casos vai ser lá pelo dia 20 [de maio]”. 

Após os primeiros casos da doença, a prefeitura mandou ao menos dois ofícios para o governo do Estado solicitando testes. Até terça-feira (28), porém, não haviam sido entregues. Por enquanto, os moradores que estão com sintomas são encaminhados a Concórdia para tentar realizar a testagem.

Primeiro prefeito de Santa Catarina com Covid-19

Lindóia do Sul, também no Meio-Oeste, é a segunda no ranking de cidades pequenas com casos da Covid-19. Até esta quarta-feira (29), 14 pessoas foram diagnosticadas com o novo coronavírus, sendo o prefeito, Genir Loli, o mais recente caso

Por enquanto, moradores com suspeita da doença estão apenas isolados, sem testagem. Com 4.563 habitantes, a cidade possui apenas uma unidade de saúde e precisa encaminhar os pacientes mais graves a Concórdia. São 40 quilômetros de distância até o Hospital São Francisco. 

De acordo com o prefeito, o hospital privado do município foi consultado pelo governo para a instalação de UTIs, mas negou, já que 90% dos internados são idosos e doentes graves. “Por enquanto estamos conseguindo atender a todos, já que nenhum caso é grave, mas nos próximos dias a situação pode mudar”, avaliou. 

Sem testes, 189 pessoas estão isoladas em Ipumirim

Perto de Lindóia do Sul, outro município que gera preocupação é Ipumirim. A cidade tem 7.593 habitantes e aparece como a terceira de até 10 mil habitantes com mais casos confirmados da doença. Já são 12 pessoas infectadas pela Covid-19, de acordo com a Secretaria de Estado de Saúde.

Ipumirim – Foto: Prefeitura/Divulgação

Para tratar os casos, atualmente o município conta com apenas uma unidade de saúde e um hospital, que não possui leito de UTI. Em casos graves da doença, os pacientes também são encaminhados ao Hospital São Francisco, em Concórdia, que fica a 32 quilômetros de distância.

Procurada, a prefeitura explicou que a unidade de saúde possui um respirador para casos emergenciais, e que um segundo equipamento já foi solicitado. Na porta do Hospital São Camilo, no Centro, uma central de triagem foi erguida para acompanhar os casos suspeitos. Até a noite de segunda-feira (26), 189 pessoas com suspeita do coronavírus estavam isoladas em suas residências, sem testagem.

Distância de hospital referência chega a 105 quilômetros

Mesmo com estruturas (mais ou menos) montadas, as pequenas cidades não possuem hospitais de referência para tratar casos de coronavírus. Com isso, os pacientes desses municípios que precisarem de internação terão que se deslocar muitos quilômetros, passando por estradas de chão, rodovias não duplicadas e com pouca sinalização.

Esse é o caso de Anita Garibaldi, que tem um caso confirmado entre os 7,133 habitantes, e distância de 105 quilômetros do Hospital e Maternidade Tereza Ramos, em Lages. Apesar de possuir um hospital que conta com leitos e respiradores, os casos graves serão enviados a Lages, onde está o hospital de referência.  

Segundo o secretário municipal da Saúde, Rodrigo Gehrke, a unidade filantrópica que fica no município possui atualmente duas semi-utis, com dois respiradores mecânicos, e 24 vagas para tratamento de casos leves. 

Para chegar ao hospital de referência, a viagem é de 1h34, passando pela SC-390. O paciente que preferir outra rota, terá como alternativa a SC-452 e a BR-282. Neste caminho, a duração da viagem é de 2h30. 

Hospital de Concórdia tem apenas 11 leitos disponíveis

Além das distâncias, a lotação das unidades de saúde é uma preocupação. Para Saulo Sperroto, presidente da Fecam (Federação Catarinense de Municípios), a expectativa de que os números aumentem cada vez mais rápido deixa os prefeitos apreensivos e coloca os atendimentos à prova.

Nesta semana, a entidade se reunirá com representantes das regiões para traçar planos para a saúde. A Fecam também pediu uma reunião com o governo do Estado para saber a situação dos hospitais.

“Precisamos saber qual a capacidade e situação atual, para que não haja um colapso do sistema em breve”, disse. 

Na macrorregional Meio-Oeste e Serra Catarinense, onde há 183 casos confirmados, oito unidades de saúde possuem leitos para os doentes mais graves.

No Hospital São Francisco, em Concórdia, que atende os municípios citados na reportagem, por exemplo, dos 30 leitos disponíveis para o tratamento do vírus, 19 estão ocupados. Os dados são referentes ao dia 28 de abril. 

Em pedido endereçado ao Estado, os vereadores de Concórdia enviaram na terça-feira um requerimento solicitando a instalação de um hospital de campanha no município.

Concórdia tem 74.641 habitantes e 49 casos confirmados da doença. A solicitação envolve profissionais da saúde e equipamentos que, segundo a Fecam, devem ter um aumento na demanda nos próximos dias. 

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