Bruxas, lobisomens e crendices: Os ‘causos’ da Ilha de Santa Catarina

Tens tempo? Então para tudo e vem conhecer as histórias contadas por autênticos manezinhos da Ilha!

REPORTAGEM: Andréa da Luz
FOTOS E VÍDEO: Anderson Coelho
EDIÇÃO: Beatriz Carrasco

Pode até ser que você já tenha ouvido falar dessas crenças antigas, passadas de geração em geração com a força de uma verdade milenar, mas que acabaram um pouco esquecidas em tempos de modernidade.

Algumas histórias eram contadas pelos avós, que as ouviram de seus pais, e influenciam até hoje no modo de vida dos florianopolitanos.

Você se lembra, por exemplo, do ditado que diz que colocar uma vassoura virada para cima atrás da porta fazia a visita desagradável ir embora? E que se varresse o pé de alguém, essa pessoa não se casaria?

Espelho coberto

Anália Carvalho da Silva – a dona Nara -, de 72 anos, recorda muito bem desses dizeres. Nascida em Florianópolis e moradora do bairro Caieira do Saco dos Limões, ela diz que até hoje cobre os espelhos em dia de tempestades.

“Coloco um pano sobre o espelho para não atrair raios, não uso o chuveiro, desligo a TV e até a energia elétrica, além de fechar toda a casa”, conta.

Anália Carvalho da Silva conta que benzedeira salvou sua filha da bruxa – Anderson Coelho/ND

O perigo das frutas

Outro cuidado de dona Dara é com a mistura de alguns alimentos.

“Também diziam que não era bom comer melancia e uva, porque ‘empedrava’ o estômago, ou misturar a fruta com leite ou banana”, afirma.

A amiga Maria Juvência de Oliveira, de 74 anos, mais conhecida como dona Cota, conta que um dia esqueceu que tinha comido melancia e comeu uva logo depois.

Dona Cota, da Armação, diz que o pai contava histórias de bruxas e lobisomem – Anderson Coelho/ND

“Todo mundo dizia que fazia mal, mas eu esqueci e comi. Não me deu nada”, diz. “Não te deu nada porque tu não lembrou, mas se lembrasse ia acontecer”, opina dona Nara.

“Mas a manga com leite é verdade, uma irmã minha quase morreu, foi parar no hospital”, afirma dona Cota.

Banho proibido

Entre bilros e conversas na casa de dona Cota, na Armação do Pântano do Sul, as duas vão lembrando as crenças dos tempos de criança.

“Mulher menstruada não podia lavar a cabeça, comer banana crua e nem melancia, porque dava hemorragia”, cita dona Nara.

Dona Dara e dona Cota relembram histórias da infância – Anderson Coelho/ND

E o resguardo? “Ah, não era como hoje, que a mulher tem filho e já sai tomando banho, não. A gente ficava 40 dias se fosse menino e 30 dias se fosse menina. Durante esse tempo não podia lavar a cabeça e banho era muito pouco. Também não se comia feijão”, lembra a moradora da Caieira.

Histórias de arrepiar

Elas chegam ao tal do lobisomem. “Papai contava que viu um lobisomem, atrás do rancho aqui de casa, o bicho fazia uma ronqueira de porco, mas eu mesma nunca vi”, confessa dona Cota.

“Ele também contava que um amigo dele descobriu que a canoa estava molhada e ficou espiando durante a noite. Eram bruxas, que vinham pegar a canoa para levar as crianças para embruxar* na Ilha do Campeche”, diz.

Mas o que é embruxar? “É chupar o sangue, minha filha. Elas chupavam o céu da boca da criança e tiravam o sangue”, explica.

Franklin Cascaes registrou de maneira única o imaginário ilhéu – Acervo Franklin Cascaes/Reprodução

Bebê na janela

E quem curava criança embruxada* eram as benzedeiras, confirma dona Nara.

“Minha filha do meio nunca dormia antes da meia-noite. Nesse horário, ela queria ficar na janela, e não tinha nem um ano de idade. Ali por perto vivia uma senhora que todo mundo dizia que era bruxa. Levei na benzedeira, a falecida dona Dulce, lá no Saco dos Limões.”

“Ela me ensinou a amarrar um raminho de alecrim, um de arruda e um de guiné e colocar embaixo do travesseiro da criança. Depois de 15 dias a bruxa morreu. Ela morreu de velha, mas minha filha passou a dormir direito”, conta.

Cueca do pai do avesso

As simpatias para crianças que não dormem a noite são variadas. Colocar a tesoura aberta debaixo da cama para espantar bruxa ou vestir a cueca do pai do avesso na criança estão entre as receitas para resolver de vez o mal dormir.

“Coloquei a cueca do meu marido no meu filho Cleiton e resolveu”, garante dona Cota.

Vento sul e dor nos ossos

Nascida e criada na Armação, dona Neusa Maria Oda, 72, diz que aprendeu com a mãe – Marta Francisca Duarte, de 92 anos – a ter respeito pelos ensinamentos antigos.

Marta Francisca Duarte passou seus ensinamentos às novas gerações – Anderson Coelho/ND

“Em dias de trovoada não se mexia em nada de aço, como tesoura, agulha, garfos e facas, além de não ligar o chuveiro e tapar os espelhos. A gente fechava toda a casa e ia para debaixo da cama”, relembra.

Dona Marta explica que ninguém comia na hora da trovoada, para não mexer em talheres.

Neusa Maria Oda não come melancia com uva até hoje – Anderson Coelho/ND

Dona Neusa, que não come melancia com uva e nem compra as duas frutas juntas, conta que quando dói os ossos ou a região de alguma cirurgia, é porque vai dar vento Sul.

“Tenho um dedo aqui com artrose e já está doendo, hoje [quinta, e houve vento sul na sexta, 5]”.

Lobisomen no Campeche

E dona Neusa também tem história de lobisomem: “uma antiga vizinha contou que uma senhora daqui foi com o marido para o Campeche e no meio do caminho o homem desapareceu”.

“Não demorou muito, surgiu um cachorrão, que cravou os dentes no vestido da mulher. Quando ela voltou pra casa, o marido estava em casa e ela viu que nos dentes dele tinha fiapos da roupa dela”, conta.

– Acervo Franklin Cascaes/Reprodução

Bruxa conhecida

“E aqui tinha bruxa também, era uma senhora distinta que não vou dizer o nome, mas todo mundo sabia que ela era bruxa”, relata dona Neusa.

“Minha cunhada tinha um menino que não dormia à noite, aí ensinaram que em vez de jogar a água do banho fora, ela deveria colocar a gamela atrás da porta para a bruxa aparecer”.

“Assim ela fez, e quando olhou para fora, a bruxa vinha caminhando em direção à casa dela. Ela jogou a água fora e a mulher parou, deu meia-volta e foi-se embora”.

Banana no mar e mulher grávida

E histórias de pescador? Eles são especialistas em contar causos*. Na praia do Pântano do Sul, Arante Monteiro Filho, o Arantinho, 60 anos, aponta várias crenças dos pescadores.

“Dá azar entrar no barco de chinelo de dedos, levar banana para o mar e se uma mulher grávida passar por cima da rede, não dá peixe”, cita.

Arante Monteiro Filho, o Arantinho, relembra aparições nas ‘horas mortas’ – Anderson Coelho/ND

“O pescador também não gosta que encomendem peixe antes de ele sair para o mar”.

Arantinho faz parte do time que não mistura melancia com uva. “Até hoje não como as duas juntas. Tem gente que diz que come, mas bebe uma cachacinha entre uma e outra”, diz, rindo.

Conhecido sumia em lua Cheia

“No meu tempo de criança, era comum ter lobisomens e bruxas. Tinha um lobisomem aqui na Costa de Dentro e outro na Armação”, conta Arantinho.

Eles eram o sétimo filho em uma família de sete homens, e as bruxas eram a sétima filha mulher. Todos moravam e andavam sozinhos.

Arantinho conheceu lobisomens e bruxas – Anderson Coelho/ND

“O lobisomem aqui da Costa de Dentro vivia por aqui, todos sabiam que ele era lobisomem, andava cheio de cachorros. Um dia acertaram uma pedra no bando de cachorros e no dia seguinte ele apareceu com o braço machucado. Nas noites de lua Cheia, ele desaparecia”.

A mulher de capa branca

Ele lembra ainda que não era aconselhável ficar no mato nas horas mortas*: meio-dia e dezoito horas.

“Ninguém ficava nas roças nesses horários. Um dia meu pai ficou e avistou uma mulher de branco lá no Sertão do Ribeirão, ao meio-dia”, revela.

“Certa vez, quando eu voltava do Centro por volta da meia-noite com mais dois amigos, fui levá-los em casa e quando passamos por um ponto na estrada perto daqui, vimos uma mulher de capa branca com uma vela acesa, na beira da estrada.”

– Acervo Franklin Cascaes/Reprodução

“Deixei os dois em casa e quando voltei, a mulher continuava lá. No dia seguinte, fui no velório de uma senhora e ela estava vestida com a mesma capa branca que eu tinha visto naquela noite. Mandei rezar três missas”.

O jeito manezinho de ser

Um fato curioso é que o manezinho adora contar causos, mas nunca como protagonista da história.

“Ele tem a crença, mas não quer externá-la, seja por medo que lhe aconteça algo ou por vergonha de dizer que acredita. Mas gosta de divulgar, sempre na terceira pessoa e não como protagonista do ocorrido”, diz o historiador e coordenador do Núcleo de Estudos Açorianos da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Francisco do Vale Pereira.

Tantos causos e lendas não passam despercebidos em relatos de historiadores sobre a riqueza cultural de Florianópolis.

O bom manezinho adora contar um ‘causo’ – Anderson Coelho/ND

Vários estudiosos se debruçaram sobre o folclore da Ilha, como Virgílio Várzea, Doralécio Soares, José Boiteux e Lucas Boiteux, mas foi Franklin Cascaes o responsável por registrar de maneira única esse imaginário ilhéu.

“O legado de Cascaes é seu registro, como autodidata, da interpretação dessas lendas sobrenaturais em um universo que extrapola o livro e as publicações, levando o registro para o mundo da arte, em desenhos e esculturas”, aponta o historiador.

Cascaes e o imaginário da Ilha – Acervo Franklin Cascaes/Reprodução

Mas quem é o manezinho, afinal? Segundo Pereira, é uma figura típica e original, que nasceu e vive na Ilha de Santa Catarina, mantém sotaque próprio e jeito cantado de falar, com apreço pelas palavras usadas no diminutivo.

“São pessoas sem ostentação nem aspiração ao acúmulo de riquezas, o que elas têm é considerado suficiente. São amáveis e receptivas, muito hospitaleiras, e manifestam grande paixão pela natureza e pelo mar, com quem mantém uma relação de respeito por ser o local onde buscam seu alimento e sustento, e por onde chegavam os suprimentos para o comércio, mesmo que atualmente as praias tenham maior apelo ao lazer”, explica.

Manezinhos e seu jeito único de ser – Anderson Coelho/ND

Faz parte desse modo característico de ser e viver, o hábito de contar histórias que acabaram consolidando um imaginário coletivo, habitado por bruxas, lobisomens, assombrações e crenças centenárias.

“Manter vivo esse imaginário é fundamental, porque enriquece a identidade cultural da população, trazendo maior aceitação e felicidade para a comunidade”, analisa o historiador.

Saiba mais

Veja o significado de alguns termos usados pelos manezinhos:

  • Causo – ocorrido, acontecido
  • Criança embruxada – criança franzina, que não dorme ou não come direito, e vai definhando com o tempo. Precisa de benzedeira para quebrar o feitiço
  • Embruxar – chupar o sangue
  • Horas mortas – meio-dia e dezoito horas, horários em que apareciam ‘assombrações’