Conheça a história de amor que nasceu nos palcos do Bolshoi, em Joinville

Larissa e Nando começaram como amigos e descobriram na dança a força do amor

REPORTAGEM: Luana Amorim
EDIÇÃO: Raquel Schiavini Schwarz

Para homenagear a Escola do Teatro do Bolshoi do Brasil, que completa 20 anos neste domingo, dia 15, o nd+ preparou uma série de reportagens especiais que têm como protagonistas os alunos que tiveram suas vidas transformadas por meio da dança. É vida, é sacrifício e glória.

As cortinas se abrem. No centro do palco, dois corpos começam a se mover em um ritmo marcado pelas batidas da música. A sincronia impressiona, como se os dois fossem apenas um. Cada passo, pirueta e rodopio trazem uma leveza e simplicidade que encantam os olhos do público. Ao final, o casal agradece, em meio a aplausos, e se despedem dos olhares que, assim como eles, também se apaixonaram um pelo outro. 

Nando e Lari começaram como amigos, mas a força da dança os uniu – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Essa sincronia vai muito além dos palcos. Os sorrisos e os olhares apaixonados acompanham a rotina dos bailarinos Larissa Capitanio Dal’Santo, de 19 anos, e Luiz Fernando da Silva Xavier, 21. “Crias” da Escola de Teatro Bolshoi, foi nas salas de aula da escola, em Joinville, que viram o amor pela dança e entre eles nascer. 

A história desse casal simpático no mundo da dança começou muito antes do encontro dos dois em 2014. Larissa, natural de Chapecó, no Oeste Catarinense, foi introduzida no universo do balé quando tinha apenas três anos. Naquela época, a pequena bailarina que rodopiava pelas salas de aula não imaginava que poderia transformar a arte em profissão até ingressar na escola de Joinville. 

“Eu tinha 11 anos quando tive a oportunidade de fazer o teste e passei para o Bolshoi. Eu me mudei sozinha para Joinville, já que meus pais não puderam vir por conta do trabalho. Hoje, eu percebo o quão corajosos eles foram para deixar uma criança ir sozinha para outra cidade. Mas eu fui, deu tudo certo e conheci o Nando”, conta. 

Assim como a namorada, Nando, como é conhecido, também começou cedo no mundo da dança, porém de uma forma diferente. Paulista, o bailarino foi apresentado ao balé na cidade de Araraquara, no interior do Estado, através de um projeto multidisciplinar. 

“Ia porque tinha matérias de luta e eu gostava de fazer capoeira, artes marciais, mas também tinha que fazer balé. No começo, eu não gostava muito, mas depois de quatro anos tendo contato com essa arte e de ver vídeos de bailarinos famosos, comecei a me interessar um pouco mais”, explica Nando. 

A partir desse momento, o jovem começou a imaginar que o balé, talvez, poderia se tornar a sua profissão. Foi aí que em 2014, ele realizou o teste para o Bolshoi, já com 15 anos e ingressou na turma de Larissa. 

Da dupla de bailarinos nasce uma história de amor 

Logo nos primeiros dias de aulas juntos, Larissa e Nando criaram uma amizade muito forte. Ambos estavam na 4º série quando passaram a ensaiar juntos com o intuito de aprimorar as técnicas que eram repassadas na escola. 

“A gente começou a se unir para treinar balés de repertório que são específicos para casais que conseguissem ter mais afinidade. Além disso, precisa de força para executar os passos já que são truques de balé mais complicados”, relembra Larissa. 

Através de vídeos na internet e muitas vezes escondidos dos professores, os dois ensaiavam juntos no intuito de aprimorar a dança. A cada novo ensaio, a sintonia entre os dois foi ficando cada vez mais forte. “Literalmente, a dança nos uniu”, pontua Larissa. 

Os dois se conheceram dentro das salas de aula do Bolshoi – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Os anos foram passando e a sintonia entre os dois só crescia. O tempo juntos só contribuiu para que o casal criasse uma amizade muito forte e que acabou se transformando, aos poucos, em amor. Porém, a proximidade da formatura no Bolshoi e a incerteza do futuro fizeram com que o casal se questionasse se o relacionamento seria uma boa escolha. 

Eu gostava da Lari e ela também já gostava de mim. Então, como não sabíamos o que ia acontecer no final do ano, após a formatura, nós nos permitimos começar um relacionamento. Eu acho que foi uma das melhores coisas que fizemos”, diz Nando com a voz apaixonada. 

Para Larissa, assumir o relacionamento também foi uma das coisas boas que aconteceram naquele ano. Porém, para a bailarina, era impossível não ficar angustiada de como seria o futuro daquele casal que nasceu nos palcos do Bolshoi. 

“No balé, é um pouco complicado essa questão de entrar em teatro. Tem que fazer audição e é muito difícil duas pessoas entrarem no mesmo teatro, no caso a gente. Então, conversamos muito com o diretor da escola Bolshoi e com os nossos professores. No começo, eles nos orientaram a não criar muita expectativa, porque talvez não desse certo”, relembra.

No berço do balé, a certeza da vida a dois 

Os dias iam passando, e, com isso, a ansiedade só crescia. Junto com os professores, que viam no casal um futuro promissor na dança, eles iam pensando em alternativas que poderiam ajudá-los a continuar trilhando o caminho da mesma forma que fizeram nos anos de escola. 

Foi, então, que em um dia comum na vida dos bailarinos surgiu a notícia que mudaria tudo. O próprio diretor da escola, no Brasil, havia indicado Lari e Nando para outro diretor de um teatro de ópera e balé no berço do Bolshoi: a Rússia. 

Nós mandamos os nossos materiais para cá (Rússia), como fotos, vídeos e o currículo, e o diretor do teatro nos respondeu dizendo que poderíamos vir e que seríamos bem-vindos”, explica Nando. 

Escola transformou a vida do casal – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Então, com a boa notícia e de passaporte carimbado, o casal passou o ano todo de 2019 se preparando para a nova vida na Europa. A mudança ocorreu em outubro e, desde então, o casal vive e compartilha junto os novos sonhos na cidade de Voronezh. 

“Aqui é perto do resto da Europa e da cidade de Moscou que é a capital (da Rússia). Trabalhamos no teatro aqui e estamos nos acostumando. No teatro, estamos gostando muito porque é a técnica russa que a gente aprendeu na escola Bolshoi, então é uma continuidade de tudo isso e está sendo muito importante para gente”, explica Larissa. 

Além disso, Nando pontua que no país os bailarinos e professores reconhecem a qualidade da escola brasileira e elogiam o trabalho e a técnica ensinada em Joinville. Mas, com certeza, a língua ainda continua sendo o principal problema de adaptação do jovem casal que até brinca com a situação. 

“Aqui a gente mora junto, então passamos mais tempo juntos. Além disso, aqui somos as únicas pessoas que conseguem conversar direito (risos), porque falamos em português e com os outros em russo. Então, acabamos sendo o porto seguro um do outro”, explica Larissa. 

Sobre a rotina, os bailarinos contam que é intensa e que chegam a se apresentar, em média, 15 vezes por mês no teatro. Inclusive, os dois fazem questão de compartilhar toda a correria e o dia-a-dia na nova cidade através do canal do youtube Ballet Couple e nas redes sociais. 

“Transformação”: o resumo do Bolshoi na vida do casal 

De simples adolescentes que encontraram na dança não só uma forma de expressão mas também o sentimento do amor verdadeiro. Assim que é possível definir toda a trajetória de Larissa e Fernando nesses cerca de seis anos dançando e convivendo juntos praticamente todos os dias. 

Pra nós, sempre foi um sonho poder trabalhar com a nossa arte, fazer isso da nossa vida. E é muito gratificante a gente poder estar fazendo isso junto”, enfatiza Nando. 

Casal agora dança junto em terras russas – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Para o bailarino, a escola foi um divisor de águas que marcou uma transformação na vida dele, já que, além de descobrir o amor pela companheira de dança, ele também descobriu a magia e os caminhos que a arte pode oferecer. 

“Depois que eu entrei na escola, a minha vida tomou um rumo completamente diferente. Eu realmente soube que era isso que eu queria para minha vida e me agarrei a isso. Me sinto privilegiado por fazer parte da escola, me sinto feliz por conhecer a Larissa, por a gente estar  juntos e por ter ido para Joinville”. A mudança de Nando, inclusive, inspirou o irmão mais novo do bailarino, que atualmente também estuda na escola. 

Já para a Larissa, a escola representa mudança e oportunidade, já que foi nos palcos do Bolshoi que ela descobriu a grande paixão da sua vida. Além do Nando, é claro. 

“Foi uma mudança muito grande na vida ter ido pro Bolshoi e em consequência da mudança veio a grande oportunidade de seguir na carreira do balé, que era algo que eu não imaginava que fosse possível”, conta. 

No fim, seja em terras brasileiras ou russas, uma coisa certa: o que a dança uniu é muito difícil que o fim de um espetáculo possa separar. 

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