De SC para o mundo: três negócios são prova viva de como é possível expandir empresa local

De diferentes segmentos, negócios investem em boas ideias, dedicação e empreendedorismo

REPORTAGEM: Aline Torres, especial para o ND
EDIÇÃO: Felipe Alves

Suas palavras eram rastilhos de fogo a rasgar a alma dos homens, a pedir que não aceitas­sem nada menos do que um novo mundo. Quando o jovem Adam Smith falava fazia uma nova vontade de vida arder, quem o ouvia in­cendiava. Em 1750, quando tinha 27 anos, suas pales­tras em Glasgow, no Reino Unido, tinham aclamação pública por se opor direta­mente à tirania dos absolu­tistas.

Presbiteriano, acredi­tava que as leis deveriam valer para todos, sendo imoral o governo conceder vantagens a alguns em de­trimento de outros. Defen­dia também que as leis não deveriam frear a produção dos homens e que cada pessoa pudesse buscar li­vremente seus interesses. Pensamento formulado antes por filósofos e eco­nomistas como François Quesnay, John Locke, David Hume, Turgot. Essas ideias incitaram a opinião pública à revolta.

A obra mais famosa do economista, A Riqueza das Nações foi publicada pela primeira vez em Londres, em março de 1776, ano da Declaração de Independên­cia dos Estados Unidos. Seu eco chegou à Bastilha fran­cesa, que foi derrubada 13 anos depois, marcando o início da Idade Moderna.

Embora não seja neces­sária a leitura da obra para se tornar um empreende­dor, os valores que a fun­damentaram permanecem após quase 250 anos. Três empresários expressam seu alcance. Começaram negócios do zero, em San­ta Catarina, e se tornaram ferozes competidores inter­nacionais.

Marca catarinense exporta para 40 países

Giulliano Puga era camelô em Jurerê Internacional. Durante o verão o ritual se repetia. Às 9h, ele e a mulher Alice Matos colocavam as roupas nos braços e vendiam de banhista a banhista. Foi assim de 2006 a 2008.

Alice Matos e Giulliano Puga, da marca LaBellaMafia – LaBellaMafia/Divulgação/ND

Há dez anos ele resolveu abrir sua empresa LaBellaMafia. Formado em moda, sabia desenvolver produtos, sa­bia vender, mas não sabia gerenciar. Quebrou depois de seis meses. Com uma dívida de R$ 2 milhões, seus pais ti­veram que vender a casa para morar de aluguel. Giulliano foi responsável pelo fracasso familiar. Tinha 24 anos.

A dor não foi pouca. Mas usou a derrota como professora. Ao lado de Alice, traçou uma nova estratégia de gerenciamento e de marketing. Ali­ce virou a cara da marca e inspiração para uma geração de mulheres que não teme a própria beleza, que cuida do corpo com garra. Aprimorado o negócio, a empresa investiu na inter­nacionalização e atualmente exporta roupas fitness para 40 países.

Negócio de Caçador tem 600 funcionários

Outro casal também começou com um negócio pequeníssimo. Em 1990, Leonir e Lire Tesser, casados há seis meses, aluga­ram uma marcenaria, em Caçador.

Temasa exporta toda a sua produção para França, Alemanha, Inglaterra, Espanha, EUA, Ca­nadá, Europa, China e Japão – Divulgação/ND

Atentos às matérias-primas dispo­níveis, perceberam que o pinus era um subproduto das serrarias e que não exis­tiam compradores. Pelo intermédio de um amigo venderam as primeiras por­tas de pinus para o mercado internacio­nal na sexta-feira 13 de agosto de 1993, rumo ao México. Depois passaram a construir pequenos móveis com pinus estantes, gaveteiros, mesas de centro.

Dois anos depois, Leonir fez a primeira viagem internacional a negócios, no Salão do Móvel, em Paris, e ali mesmo encon­trou um parceiro comercial. A Temasa atualmente conta com 600 funcionários e exporta toda a sua produção para França, Alemanha, Inglaterra, Espanha, EUA, Ca­nadá, Europa, China e Japão. Os produtos são de ponta de gôndola, têm alta compe­titividade com os chamados preços mági­cos, e são vendidos nos maiores varejistas do mundo como Ikea, Walmart, Argos, Lidl, Jysk e Aldi.

Para deixá-los ainda mais competitivos, o casal teve uma brilhante sacada. Os mó­veis são espécies de “kinder ovo para adul­tos”, vem com instruções de “monte você mesmo” e alguns nem são pintados, dessa forma os clientes se divertem e os custos de produção caem.

Inovação e qualificação em tecnologia

Outra empresa de referência é a Khomp, que tem apenas duas competidoras no mundo, uma da França e outra dos Estados Unidos. A Khomp foi fundada em 1996 por ex-funcionários da Dígitro e da Intelbrás. Em 2009, Jeremias Neves da Silva, que também virou sócio do negócio, montou uma forte equipe de internacionalização. Ao aprender espanhol, ele teve um alcance imediato a 22 países da América Latina.

Khomp tem apenas duas competidoras no mundo, uma da França e outra dos Estados Unidos – Divulgação/ND

A Khomp desenvolve tecnologias para empresas de conect center com seu pró­prio hardware. Uma das suas criações é o KMG Analytics, um algoritmo que permite identificação de voz nos três primeiros se­gundos de ligação e que reporta a causa ao sistema discador para reduzir custos de chamada.

Seus clientes são as empresas de tecno­logias em múltiplos setores como call cen­ters. A Khomp abriu mercado em 33 países e mantém fortes alianças com doze distri­buidores internacionais. Em Florianópolis, são empregadas 220 pessoas.

Na equipe há profissionais altamente qualificados que desenvolvem tecnologias como IoT (Internet of Things), sensores e dispositivos que tornam a comunicação en­tre as “coisas” possível. O mecanismo atua com a comunicação máquina a máquina via internet, que permite que diferentes obje­tos, de carros a máquinas ou bens de con­sumo, compartilhem dados e informações para concluírem tarefas.

Indícios da avassaladora indústria 4.0, que será a responsável pelo surgimento de uma nova fase na história da humanidade, e que está bem mais perto do que parece

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