De uma vaquinha online nasce um sonho: Lígia e o “gingado” baiano em terras catarinenses

Lígia Pires veio com a mãe e a cachorrinha para Joinville em janeiro deste ano após passar no teste para a Escola Bolshoi; uma história que nasceu ainda na infância e que teve um final feliz graças à generosidade

REPORTAGEM: Luana Amorim
EDIÇÃO: Raquel Schiavini Schwarz

Para homenagear a Escola do Teatro do Bolshoi do Brasil, que completa 20 anos neste domingo, dia 15, o nd+ preparou uma série de reportagens especiais que têm como protagonistas os alunos que tiveram suas vidas transformadas por meio da dança. É vida, é sacrifício e glória.

O olhar de Daniela Pires, 42 anos, vidrado ao acompanhar cada passo da filha de 10 anos refletem bem a força e o sentimento de realização após a trajetória que as levou a ocupar um espaço na história da Escola Bolshoi. Baianas, foi na dança que as duas encontraram um caminho transformador e capaz de mudar trajetórias. 

Lígia começou a estudar na escola em janeiro desse ano – Foto: Luana Amorim/ND

A história de Lígia Pires e da mãe começa bem longe de Santa Catarina, a cerca de 2,5 mil km de Joinville, no Norte do Estado. As duas moravam em Salvador, capital baiana, quando deram seus primeiros passos nas salas de balé. 

Ainda bebê, Lígia começou a fazer as primeiras aulas de dança na própria escola regular com 2 anos. Porém, um ano depois, como o preço do curso era elevado, a pequena bailarina acabou deixando de frequentar a classe. Nesse meio tempo, em sintonia com a mãe que já praticava aulas de capoeira, Lígia então passou a praticar a arte marcial. 

“A minha mãe teve uma ideia: vamos colocar a Liginha na capoeira para ver se ela desenvolve mais. Então, com 6 anos eu entrei e depois de um tempo comecei a ficar interessada. Foi aí que meu professor falou: essa menina tem futuro”, conta. 

Os professores incentivaram a pequena Lígia a voltar a frequentar as aulas de dança, já que ela tinha muita flexibilidade. Um casal de professores acabou se encantando pela menina e a convidou para participar de uma das aulas. 

“Eles viram que eu tinha talento e deixaram eu fazer um ensaio. No fim, ele olhou para mim e disse: eu vou colocar essa menina do Bolshoi”, conta. 

A inscrição que transformou uma vida 

Foi o próprio professor que fez a inscrição de Lígia na seletiva regional do Bolshoi. Daniela relembra que, na primeira seleção, a menina não tinha entendido que tinha passado para a próxima etapa em busca de uma vaga na escola. 

“Ela participou da primeira etapa e foi bem engraçado esse dia. Todo mundo saiu da sala onde houve a audição e ela vinha segurando um papel que dizia ‘parabéns’. Quando vimos, começamos a chorar e a comemorar. Ela, tadinha, não entendeu nada e achou que o papel era só um agradecimento por ela ter participado. Quando contamos que ela passou na primeira etapa, ela começou a pular de alegria”, relembra Dani. 

Porém, um impasse poderia adiar o sonho da pequena Lígia. Como a viagem para Santa Catarina era cara, em um primeiro momento, a família não tinha renda para trazer a bailarina na segunda etapa de seleção para a escola. Por conta disso, os professores, então, tiveram a ideia de fazer uma vaquinha para arrecadar o dinheiro necessário para a viagem até a cidade da dança. A meta inicial era de arrecadar R$ 3 mil. 

“Primeiramente, a gente não conseguiu o dinheiro. Então, passamos a divulgar a vaquinha nas redes sociais, principalmente, no Instagram”, conta. A história da pequena bailarina ganhou asas e acabou pousando em um estúdio localizado em São Paulo.

Um dos produtores do Programa Hora do Faro ficou sabendo da vaquinha realizada pela família em busca do sonho de Lígia e resolveu contar a história da menina e ajuda-lá na campanha. Daniela conta que até hoje não sabe como o apresentador ficou sabendo da história. 

Além da visibilidade, o programa veio como um verdadeiro presente na luta da família que buscava recursos para garantir a vinda da menina a Joinville. Na época em que participou do programa, além de superar em três vezes o valor da meta inicial, ela arrecadou cerca de R$ 30 mil, fruto de doações de patrocinadores do programa. 

“Para morar e vir as duas para Santa Catarina com certeza a gente não conseguiria sem a ajuda do programa. Então, para essas pessoas que nos ajudaram anonimamente e acreditaram na Lígia, a gente tem a gratidão”, enfatiza Daniela. 

A luta, no entanto, ainda não havia terminado já que, quando participou do programa, a criança não tinha realizado a segunda e mais importante audição da sua vida. 

De mala e cachorro em mãos, Lígia vem pra Joinville 

Em outubro, Lígia chegou em Joinville com a mãe para a realização da audição. O nervosismo tomou conta da pequena bailarina que, ao lado de mais de 100 jovens, aguardava o nome ser chamado para a audição na escola. 

O resultado chegou em um passeio no fim de semana com colegas que havia conhecido na escola. O sentimento naquele dia era de tensão e o passeio serviu como espécie de “fuga” da ansiedade para o resultado final da seleção. 

Ela disse que, após tomar um sorvete e encontrar outra amiga na lanchonete, o pai da colega teria se aproximado e contado a notícia que mudaria para sempre a vida de mãe e filha. 

“No meio do caminho, o pai da minha colega começou a me chamar e assobiar. E eu pensei, oxi tão me chamando? Quando a gente viu, era o tio da lanchonete que falou ‘você passou’. Essa parte foi a mais engraçada e a melhor. Minha mãe começou a tremer e dizer “não brinca comigo não moço”. E eu fiquei rodopiando, pulei, virei para cá, virei para lá. Aí quando a gente foi ver na inscrição que passou, que estava lá Lígia, fiquei ainda mais feliz, foi uma maluquice só”, conta. 

Lígia tem o sonho de ser bailarina e conhecer Ana Botafogo, sua maior inspiração – Foto: Luana Amorim/ND

A festa só continuou em Salvador. Ao voltar à cidade natal, colegas, amigos e familiares comemoraram junto com a pequena a conquista da vaga. Uma celebração que é definida por Lígia com uma simples frase: foi um festeiro.

A família – Daniela, Lígia e uma cachorrinha – se mudou definitivamente para Joinville em janeiro deste ano. Atualmente, as três moram em uma casa alugada no bairro Iririú, na zona Leste. Daniela conta que, com o dinheiro do programa, já conseguiu quitar o aluguel do ano todo do imóvel. O dinheiro também ajuda as duas a se manter na cidade, já que Daniela, que é diarista, ainda procura por um emprego. 

“O começo não foi fácil para mim não porque largar a família lá em Salvador, toda a minha rotina de vida e viver aqui sozinha com a Lígia logo nos primeiros dias foi complicado e muito difícil. Mas graças à família Bolshoi e uma das professoras da escola, eu tive um novo ânimo de vida. Agora, a gente se sente quase em casa”, conta Daniela. 

Vida de bailarina não é fácil 

Para quem pensa que a rotina de Lígia é simples se engana. A garotinha de apenas 10 anos acorda diariamente às 5 horas para se arrumar e partir rumo ao Bolshoi. Apesar de amar as aulas, o fato de ter de acordar cedo todos os dias ainda é um pequeno problema na vida dela. 

“Eu não gosto de acordar. Antes, para a escola regular, eu acordava umas 6 horas e achava razoável. Mas agora que eu acordo 5, 4 horas, minha mãe sempre tem que ficar me chamando enquanto eu digo: só mais cinco minutinhos”, diz rindo. 

Uma van passa todas as manhãs na casa de Lígia e a leva até o Bolshoi. A cada aprendizado, ela gosta mais do universo da dança e de toda a estrutura que a escola oferece.

Veja a rotina de Lígia:

Após passar uma manhã toda ensaiando, a mesma van leva ela até a escola regular onde Lígia cursa o 5º ano. Só por volta das 18h, é que ela retorna para casa. Mas, mesmo fora dos corredores do Bolshoi, os ensaios e as coreografias continuam no chão da casa. 

“Em casa, eu tenho que treinar, me alongar e, claro, fazer as atividades da escola. Porque eu estou em uma escola de dança, mas também tenho que me esforçar na escola regular, porque tudo conta”, explica. Nos ensaios em casa, inclusive, a mãe acaba sendo a cobaia e a ajudante de Lígia na execução dos passos. 

“Ela chega em casa cheia de energia e ainda me faz de aluna. Teve um dia que ela ‘tem que ficar assim minha mãe’ (enquanto ensinava os passos). É incrível, é uma energia contagiante, ela nunca chega cansada. Ela chega e fala ‘olha mãe hoje eu aprendi isso’ é tranti é não sei o que e quer fazer comigo. Tem momento que eu, tremendo, digo Lígia eu não consigo, mas ela acaba insistindo para eu fazer. A vida de bailarina não é fácil e eu estou sentindo isso na pele”, conta, enquanto imita os passos da filha. 

União feminina e luta por um único sonho: uma vida melhor 

Ao falar da filha, é impossível não ver todo o orgulho que transborda nos olhos de Daniela. As duas possuem uma conexão forte e uma energia que é possível ser vista por qualquer pessoa. Um sentimento que reflete ainda mais nos sonhos que Lígia tem no futuro. 

“Depois que eu me formar, quero juntar meu dinheiro e fazer uma casa para minha mãe porque ela sonha em ter isso, além de um carro”, conta Lígia que, enquanto segura as lágrimas, também descreve a mãe como uma guerreira. “Eu tenho só que agradecer porque ela já passou por muitas coisas ruins e que não deixou eu passar”. 

Já para Daniela, a força de vontade da filha e toda a determinação da menina em seguir em busca de um sonho acabam dando forças para a diarista. “Ser mãe de bailarina não é fácil. Mas a alegria, a boa vontade da Lígia me alimenta. Como o sonho dela é me ver bem, o meu sonho é ver ela bem e por isso eu apoio ela em tudo que ela faz”. 

Além de dar uma vida melhor para a família, Lígia também tem o sonho de seguir na carreira de bailarina, ir para Moscou – cidade sede do Bolshoi – e, claro, conhecer Ana Botafogo, a maior inspiração na vida da garotinha. 

No fim, perguntadas sobre o que representa o Bolshoi na vida da pequena família baiana e que está desbravando as terras catarinenses, ambas respondem com palavras parecidas: um sentimento inexplicável. 

“Essa escola não transforma só uma criança em bailarino. Ela transforma em um cidadão. Eles não querem só um excelente bailarino, mas eles querem um ser humano de coração, que olhe para a sua sociedade e faça pela sua sociedade”, enfatiza Daniela.