Dor e luta: mãe de Bianca Wachholz ajuda mulheres vítimas de violência

Depois de ver a filha ser assassinada pelo ex-namorado, Sônia participa de ações de combate à violência doméstica em Blumenau

REPORTAGEM: Talita Catie
EDIÇÃO: Beatriz Carrasco e Schirlei Alves

A artrite compromete os movimentos das mãos de Sônia de Lima, 69 anos. A limitação física, no entanto, não a impede de participar de uma oficina de artesanato que ajuda na renda de vítimas de violência doméstica em Blumenau. O compromisso surgiu depois que a filha dela, a artista plástica Bianca Mayara Wachholz, 29 anos, foi assassinada.

“Você deita, acorda, e é a primeira coisa que vem à cabeça. As pessoas dizem que passa com o tempo, mas a dor, não. É como no primeiro dia. Lembro de pegar a minha filha no colo ensanguentada, querendo que acontecesse um milagre”, recorda dona Sônia.

Neste Dia Internacional da Mulher, a lembrança de Bianca é prova de que a luta por igualdade ainda esbarra no simples direito à vida.

Sônia viu a filha ser assassinada dentro da casa onde criou a caçula – Foto: Talita Catie/ND

Sônia presenciou o momento em que Bianca foi morta com dois tiros na cabeça. O crime ocorreu no dia 25 de julho, na casa em que a artista plástica cresceu e que iria voltar a morar após decidir se separar de Everton Balbinott de Souza, que tinha 31 anos na época do crime.

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Presença que alerta

Com o olhar carregado de dor pela perda prematura da caçula, Sônia conta que não consegue produzir muitas peças para ajudar na independência financeira das outras vítimas de violência doméstica. Mas a presença dela no grupo se dá especialmente para alertá-las sobre a importância de buscar ajuda e romper com as agressões.

Por vezes, Sônia não precisa nem falar para transmitir a mensagem. Hoje a mãe se tornou uma ativista pela causa. É presença constante em ações voltadas ao empoderamento das mulheres, muitas delas promovidas pelo Instituto Bia Wachholz.

Bia Wachholz dá nome a instituto em Blumenau – Foto: Redes sociais/Reprodução

A entidade foi criada para combater a violência doméstica e atualmente é presidida pela melhor amiga de Bianca, Naschara Nogueira Filiponi. “Hoje atendemos com psicólogas voluntárias. Oferecemos palestras sobre violência doméstica e empoderamento feminino”, conta.

A oficina que Sônia participa é fruto de uma parceria entre o instituto e o Creas (Centro de Referência de Assistência Social). O trabalho conjunto serve para suprir um dos fatores que dificulta o rompimento da relação com o agressor: a dependência financeira.

Oficina oferece oportunidade de gerar renda – Foto: Instituto Bia Wachholz/Divulgação

Engajamento ajuda a aliviar a dor

“A presença da dona Sônia é um motivador para essas mulheres, porque ela passou por um sofrimento absurdo e se dispõe pela causa”, afirma a psicóloga Sheila Fagundes Isleb, coordenadora dos grupos de apoio às mulheres em situação de violência.

Há seis anos trabalhando com esse contexto, Sheila diz que o sofrimento psíquico para quem perde alguém em um feminicídio é muito intenso. Um dos motivos é a convivência da família da vítima com o agressor, o que as deixa incrédulas de que o crime poderia ocorrer.

A mãe de Bianca relembra as vezes que preparou bolinho de chuva para esperar Everton chegar do serviço. Recorda as conversas que teve com o ex-genro na sacada da casa que ele invadiu e matou Bianca. Para superar a perda, o engajamento é um caminho, aponta a psicóloga.

“Se eu ajudar uma (mulher), já valeu a pena”, diz Sônia, que fez um ano de tratamento médico para conseguir lidar com a situação. A data do assassinato de Bianca Wachholz, 25 de julho, se tornou dia de luta contra o feminicídio em Blumenau. A Lei 8.730 que leva o nome dela foi instituída em junho do ano passado.

Sônia se tornou uma ativista após perder a filha – Foto: Instituto Bia Wachholz/Divulgação

Condenação

Everton Balbinott de Souza foi preso em 27 de julho de 2018, dois dias após matar a ex-namorada. Ele chegou a fugir no dia do crime, mas se apresentou à polícia. Está no Presídio Regional de Blumenau desde então. Foi a júri popular em 23 de outubro de 2019 – ano em que a cidade liderou o ranking estadual de casos de feminicídio, com quatro mulheres assassinadas no mesmo contexto.

Everton Balbinott de Souza durante o julgamento – Foto: Reprodução/BG Blumenau/ND

Após quase 12 horas de julgamento, ele foi condenado a 26 anos, um mês e cinco dias de prisão pelos crimes de homicídio triplamente qualificado – por feminicídio, motivo torpe e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima -, alem de ameaça e porte ilegal de arma.

A defesa está recorrendo da sentença. Procurado pela reportagem, o advogado Jeremias Felsky preferiu não falar sobre o caso. Disse apenas que aguarda a decisão do Poder Judiciário. No dia do julgamento, Everton chegou a pedir perdão à família de Bianca.

“Não sei se estou tentando me enganar. Para mim ela vai aparecer de uma hora para outra, ela não foi embora. Eu pensava que quando ele fosse condenado, eu melhoraria um pouco. Não. Lá na hora ele me pediu perdão, talvez um dia, quando minha alma aliviar, mas por enquanto não consigo”.

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Confira o depoimento emocionado de dona Sônia: