Espera e ginástica financeira: clubes catarinenses se contorcem enquanto volta do futebol é uma incógnita

Equipe do nd+ se dividiu para ir até os dez clubes da primeira divisão do futebol local e descobrir – ou tentar entender – o que está sendo feito em meio à pandemia de Covid-19 que transformou o amanhã em um grande ponto de interrogação

REPORTAGEM: Adrieli Evarini, Diogo de Souza, Ian Sell e Marcos Jordão
EDIÇÃO: Diogo Maçaneiro

No dia 15 de março, há quase dois meses, acontecia a última rodada do turno do Campeonato Catarinense de 2020. No dia seguinte, a FCF (Federação Catarinense de Futebol) suspendeu a competição e os demais torneios organizados pela entidade por tempo indeterminado, a exemplo do que fora acontecendo em todas as esferas do mundo da bola. Tudo isso devido à pandemia do novo coronavírus, que já matou mais de 250 mil pessoas ao redor do planeta e afeta, também, o esporte.

Os clubes da primeira divisão de Santa Catarina foram obrigados a montar estratégias para “derrotar” o vírus. Com a proximidade do vencimento de mais uma folha salarial, as equipes se desdobram para levantar recursos e não deixar jogadores e, principalmente, funcionários sem o pagamento.

Como forma de amenizar os desfalques nos cofres, os clubes do Estado deram férias de trinta dias a atletas e comissões técnicas. O prazo, no entanto, se encerrou no início do mês. O objetivo da FCF era que o campeonato estadual retornasse no dia 16 de maio, com portões fechados.

A situação foi rechaçada pelo governador Carlos Moisés que, na última segunda-feira (4), voltou a olhar com pessimismo para a possibilidade de retomada. O governador sugeriu, inclusive, que a competição voltasse somente após o fim do inverno, em 22 de setembro.

A reportagem do nd+ entrou em contato com os dez clubes da primeira divisão do Campeonato Catarinense para entender como cada um irá cumprir os compromissos financeiros e o que esperam para os próximos meses. Confira:

Avaí mantém situação normalizada

Ressacada vazia e a incógnita da volta do estadual – Foto: Leandro Boeira/Avaí F.C

Líder do então campeonato com a melhor campanha da primeira fase, o elenco do Avaí já encerrou seu período de férias e, segundo repassado pelo clube, os treinamentos estão ocorrendo dentro da normalidade (que o momento oferece, evidentemente).

Com instruções virtuais, os atletas estão cumprindo atividades amparadas pelos profissionais de fisiologia e nutrição e, em paralelo, estão aguardando a liberação das autoridades para que esse trabalho seja desenvolvido no estádio da Ressacada e no CFT (Centro de Formação e Treinamento). Por enquanto, cada um na sua casa.

Em termos de vencimentos, “a diretoria está fazendo todos os esforços para cumprir os compromissos conforme a lei”. O clube está “negociando com todos os parceiros” para não perder patrocínio e apoiadores, apesar de não negar nem admitir essa possibilidade.

O quadro de sócios não sofreu alteração, embora a resposta encaminhada pela assessoria de imprensa, a pedido da reportagem, não tenha especificado a movimentação. O presidente em exercício, Amaro Lúcio da Silva, fez “um agradecimento aos sócios”, que, mesmo diante de todo o cenário “não abandonaram o clube”.

Números de saídas e inadimplência, dessa forma, “estão dentro da normalidade” para o período de suspensão do calendário.

Alívio no Brusque veio com amparo da CBF

O presidente Danilo Rezini ressaltou que o clube vive uma “situação difícil como os demais clubes do país”. Para colaborar com as agremiações do Estado com mais dificuldades contratuais (casos de Juventus e Concórdia) o Brusque se propôs a repassar uma verba de R$ 10 mil a estes coirmãos, além do empréstimo de dois a três atletas para que possam dar prosseguimento à competição.

“A federação [FCF] vai ajudar com R$ 20 mil, a Associação de Clubes com R$ 30 mil. Os outros clubes grandes se comprometeram a emprestar jogadores para concluir a competição”, afirmou Rezini.

O objetivo, conforme o presidente, é que o campeonato aconteça ainda dentro do mês de maio.

Conforme Rezini, o Brusque ainda não discutiu uma possível redução salarial para atletas e comissão técnica. “Não queremos prejudicar ninguém, mas o Brusque terá prejuízos financeiros, teremos que fazer uma adequação. É um momento difícil”, afirmou.

Segundo o clube, houve a prorrogação de pagamentos por parte de um patrocinador. Outra empresa pediu a suspensão temporária. As demais seguem “cumprindo religiosamente” os pagamentos.

“Estávamos esperando uma renda fantástica para o jogo de volta da Copa do Brasil [contra o Brasil de Pelotas]. Já teríamos na outra semana o início do mata-mata do catarinense”, lamenta Rezini.

“Eu acredito!” se tornou expressão de “ordem” em Brusque; até a faixa foi retirada do alambrado – Foto: Diogo de Souza/ND

“Está suspenso o dinheiro da TV enquanto o campeonato não retornar, a quarta parcela que é R$ 91 mil não será paga”, relatou o presidente.

A ajuda de custo de R$ 200 mil da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) aos clubes da Série C do Campeonato Brasileiro acabou, segundo o clube, amenizando “em partes” os prejuízos.

Chapecoense espera dinheiro da confederação

Palco dos jogos da Chapecoense, Arena Condá segue vazia com a paralisação do futebol – Foto: Márcio Cunha/ACF

Com uma classificação suada e assegurada somente na última rodada da primeira fase do catarinense, a Chapecoense segue seu espírito “guerreiro” para, diante de toda a situação pandêmica, vencer os desafios até a retomada das atividades.

Sem o patrocínio da poderosa Havan, que na última segunda-feira (4) anunciou a suspensão da parceria, o clube também viu minguar a receita do quadro de sócios. Apesar de não ter tido uma perda significativa no número de associados, nos meses de abril e maio houve a redução da mensalidade em 50% e, assim, o Verdão vê a situação cada vez mais estreita no âmbito financeiro.

De acordo com o que foi repassado pelo clube, há a intenção de acertar o pagamento dos direitos de imagem dos atletas na próxima sexta-feira (8), porém, esse aporte ainda depende dos valores repassados pela CBF. O Índio Condá ainda trabalha para, na outra semana, acertar o pagamento das férias dos jogadores.

Dentro de campo foi definido que os atletas terão um cronograma de treinos através de uma plataforma virtual. Essa metodologia, sendo assim, vai se estender até a apresentação presencial, que depende da autorização dos órgãos de saúde.

Concórdia manteve patrocinadores

Conforme repassou a assessoria do clube, o Concórdia já estava se programando e promovendo cortes de gastos “desnecessários” com intuito de organizar o caixa do clube e seguir arcando com suas obrigações.

Mesmo com a queda na arrecadação por parte de patrocinadores pontuais, verba de TV e bilheteria, a diretoria do Galo do Oeste acredita que dará conta de manter os salários em dia. No entanto, o clube não divulgou quanto é gasto mensalmente com a folha salarial da equipe.

Além do auxílio financeiro e possível empréstimo de jogadores por parte de outras equipes catarinenses, o Concórdia não perdeu nenhum patrocinador até o momento – sete na camisa e 40 de placas publicitárias – o que provoca um alívio no fluxo de caixa.

Na questão de sócios torcedores, a expectativa é que não haja uma perda considerável. Além disso, o clube afirmou que uma grande parcela dos torcedores optam por pagar o plano anual.

Em relação aos contratos, houve um reajuste salarial onde a diretoria analisou caso por caso. Além disso, outros 12 atletas tiveram seus contratos prorrogados automaticamente. Vale ressaltar que o Concórdia possui apenas o Campeonato Catarinense em seu calendário profissional.

Criciúma mantém rotina

O Criciúma afirmou à reportagem que o setor financeiro não irá divulgar os números até serem aprovados pelo conselho deliberativo do Tigre.

Estádio Heriberto Hülse, casa do Criciúma – Foto: Reprodução/Instagram

No clube não houve pausa, os atletas seguem os cronogramas de treinamento de forma remota desde o início do período de quarentena, orientados pelo preparador físico William Hauptman.

“O clube está arcando devidamente com todos os compromissos financeiros. É um momento inédito para todos nós, tudo muito novo”, diz a nota enviada à reportagem pela assessoria de imprensa do clube.

Figueirense depende dos sócios na quarentena

Estádio Orlando Scarpelli, em Florianópolis – Foto: Patrick Floriani/FFC

Empolgado com a classificação às quartas de final do catarinense, o torcedor do Figueirense lembra com amor e carinho da Copa do Brasil onde, em atuação memorável diante de um favorito Fluminense, largou em vantagem para seguir na competição mais rica e democrática do País.

Como não poderia ser diferente, essa continuidade no calendário está suspensa. O clube, apesar de todas as dificuldades, admite a continuidade de gestão das diferentes áreas de atuação. Em meio a esse processo ainda planeja a retomada das atividades que envolvem o futebol da base e do profissional. O clube segue no aguardo da resposta das autoridades sobre esse retorno.

O Figueirense, segundo o presidente Norton Boppré, ainda vê espaço para dar corpo ao planejamento alusivo ao centenário do clube, que será comemorado em 2021. Com festa pelos 100 anos no horizonte, o presidente revela que “em meio às dificuldades”, vem fazendo “todos os esforços possíveis” para manter a folha salarial em dia.

Entre as medidas estão a negociação com dois patrocinadores que pediram a suspensão do contrato de patrocínio, que deve ser restabelecidos junto a retomada das atividades.

O quadro social sofreu perdas, mas o presidente Norton, mais uma vez, revelou que o clube vai apostar em campanhas, tendo o centenário como “gancho”, para retenção e captação de novos sócios. “O quadro associativo representa uma das mais importantes fontes de receita do clube”, lembrou Norton Boppré.

Joinville reduz folha em um terço

Sem bola rolando, o JEC precisou tomar algumas medidas para conseguir honrar os compromissos e não deixar de pagar os salários dos atletas, comissão técnica e funcionários neste mês de maio.

Arena Joinville é a casa do JEC – Foto: Yan Pedro/JEC

O clube estimava receber R$ 254,8 mil em verbas publicitárias em abril. O valor, no entanto, caiu para R$ 149 mil, uma perda de 41,5% na receita. Além disso, o JEC tinha a expectativa de receber cerca de R$ 680 mil do Internacional, referente à negociação do volante Anselmo e aproximadamente R$ 600 mil do Ceará, que tinha opção de compra de Mateus. Valores que não entraram nos cofres do clube.

Sem transmissões, com queda na receita publicitária, e sem venda de ingressos, o Tricolor adotou medidas para minimizar o impacto da crise e manter os salários em dia.

De acordo com Luís Carlos Guedes, diretor geral do clube, o JEC não vai renovar o contrato de quatro atletas. Além disso, o clube demitiu funcionários da base, diminuiu carga horária, suspendeu temporariamente contratos e reduziu salários, de acordo com a MP 936. Todos com teto de até R$ 3 mil não tiveram redução salarial. Já os atletas que recebem mais do que esse valor, tiveram redução de 25%.

A folha salarial, ressalta Guedes, diminuiu cerca de um terço, saindo de aproximadamente R$ 360 mil para R$ 120 mil. “Esse corte não é definitivo. O que não volta é praticamente 20%, que correspondem às demissões”, explica.

Entre os atletas que tiveram o contrato renovado estão Ivan e Braga. O goleiro aceitou redução salarial para permanecer no clube até o fim do ano. Além deles, Dalberson deverá ter o contrato renovado nos próximos dias.

Para enxugar o quadro de funcionários e os custos, os atletas do Sub-20 serão incorporados ao profissional. Com isso, Pedrinho Maradona, que comandava a equipe da base, foi desligado, entre outros funcionários.

Juventus apela para rifa e ajuda da comunidade

A situação do Juventus é ainda mais delicada no Norte do Estado. Sem jogos, bilheteria, venda de produtos, cota de TV e sócio-torcedor, o clube alega não ter saldo no mês de abril e a pouca receita que entra de alguns patrocinadores é  usada para o pagamento de funcionários remanescentes.

Estádio João Marcatto é a casa do Juventus – Foto: Juventus/Divulgação

O custo do clube com demissões e rescisões de funcionários e atletas, uma vez que o Juventus está sem calendário atualmente, foi de R$ 40 mil. Com isso, o Moleque Travesso diminuiu a despesa de maio.

A expectativa da diretoria era arrecadar mais de R$ 150 mil em abril com vendas de produtos e novos patrocínios pontuais. Já a bilheteria dos jogos era estimada em R$ 160 mil.

O clube afirma que tem feito negociações individuais com os atletas, uma vez que os contratos se encerraram no dia 30 de abril. Além disso, o Juventus garante ter buscado ajuda do empresariado para continuar cumprindo com todas as obrigações salariais.

Para aumentar a receita, o clube tem realizado algumas ações, como venda de alimentação no sistema drive-thru e organizou uma rifa de um carro e valores em dinheiro na tentativa de arrecadar fundos para sanar as despesas gerais do clube.

Marcílio Dias teme não honrar folha de maio

Segundo o presidente do clube, Lucas Brunet, se não houver aporte da CBF ou da FCF a diretoria não conseguirá quitar a folha salarial de maio, com vencimento no próximo dia 20.

“Alguns dos nossos patrocinadores também não conseguiram pagar, então isso é mais um fator que inviabiliza”, explica Brunet.

Sem dar maiores detalhes, o clube afirmou que segue tentando alternativas de novas receitas. O presidente ainda afirmou que o clube estuda a possibilidade de redução salarial para o quadro de atletas e funcionários.

O Marinheiro prevê dificuldades no recebimento de valores por meio de patrocinadores pelos próximos “dois ou três meses”. Segundo Brunet, o clube não corre riscos de fechar as portas, mesmo que temporariamente. “Essa pandemia é algo inédito, mas já aconteceram outras situações na história do clube bem piores [financeiramente falando]”, afirmou.

O mandatário do Gigante das Avenidas tem um centro comercial na sua sede que segue em funcionamento. “Com o centro comercial e outras receitas que temos, acredito que a gente consiga manter a estrutura do clube e os acordos judiciais até o fim do ano”, reiterou.

Para o presidente, no momento o maior “problema” é a folha salarial dos atletas. “Sem futebol não temos como termos uma folha. Se acontecer de não termos mais futebol esse ano, infelizmente vamos precisar cancelar os contratos e tomar ações jurídicas”, completou.

O período de férias dos atletas termina na próximo quinta-feira (7), ainda sem uma definição sobre o futuro.

Tubarão sofre com verbas bloqueadas

Mesmo com o formato de clube-empresa, a vida financeira do Tubarão não está fácil desde o fim de 2019, com seguidos atrasos salariais. Conforme explicou o diretor executivo do Peixe, Joca Zappoli, o clube tem cerca de R$ 2,5 milhões para receber pela venda de direitos federativos de atletas e verbas bloqueadas.

Desse valor, cerca de R$ 1 milhão está retido pela União por causa de um imbróglio judicial envolvendo o terreno no qual está localizado o estádio Domingo Silveira Gonzales, casa do Tubarão. O local que pertencia à Rede Ferroviária Federal é patrimônio público.

Além disso, o clube também busca receber R$ 500 mil do time sueco Hammarby por causa da transferência envolvendo o lateral Neto Borges. Assim como outros R$ 500 mil por parte do Genoa, da Itália, devido à venda do goleiro Jandrei, no qual o Tubarão mantinha parte dos direitos federativos.

Os funcionários e os atletas com menores vencimentos receberam 50% do salário referente ao mês de março. Já o restante dos atletas não recebem desde janeiro. O clube gasta mensalmente R$ 150 mil com jogadores e comissão técnica.

“Os jogadores que estavam em fim de contrato encaminhamos para rescisão, assim como outros 12 funcionários. Os demais servidores e jogadores tiveram os salários suspensos por 60 dias, conforme a Medida Provisória 936/20. Assim como outros seis funcionários de setores como, por exemplo, Recursos Humanos, que tiveram sua carga horária e vencimentos reduzidos”, explicou o diretor.

Estima-se que o clube perdeu financeiramente 80% entre patrocínios – seis na camisa-, venda de jogos e bilheteria. Assim como uma queda de 30% no quadro de 600 sócios torcedores.

No entanto, Joca Zappoli afirma que os parceiros do clube buscam recursos, porém, o momento dificulta a ação. Além disso, existe a expectativa para a negociação de alguns atletas da base. Entre eles, o defensor Breno, o meio-campista Edinho e o atacante Kassio Nathan. Segundo Zapolli, nenhum negocia com clubes de Santa Catarina.