Florianópolis 347 anos: pedalando rumo à mobilidade

Clima agradável, belos cenários, qualidade de vida. Esses são apenas alguns fatores que fazem de Florianópolis uma cidade com grande potencial para o uso massivo das bicicletas como meio de transporte no dia a dia. Una isso ao trânsito tradicionalmente caótico e aos custos de se ter um carro: temos uma boa condição para a implementação de formas alternativas de transporte.

Reportagem: Lucas Inácio

Porém, também há diversos problemas que a capital precisa driblar. A cidade
possui diversos morros e subidas, vias estreitas, pouca integração entre as formas de transporte público, grandes distâncias e o hábito da população.

É para atender a essa demanda que, aos poucos, os ciclistas de Florianópolis têm mais ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas à sua disposição, com um ambiente um pouco mais seguro. De acordo com a Secretaria Municipal de Mobilidade e Planejamento Urbano, Florianópolis já está em um processo de melhoria na infraestrutura e possui atualmente 110 quilômetros de estrutura cicloviária, com o objetivo de alcançar 180 quilômetros até o fim de 2020.

“Temos que oferecer um sistema minimamente seguro e, ao mesmo tempo,
estimular a implementação de bicicletários, paraciclos e outras estruturas de apoio. Gradativamente, o usuário virá”, explicou o secretário, Michel Mittmann.

Conectando bairros distantes

Nesse quesito, uma estrutura importante foi a reinauguração da Ponte Hercílio Luz que se tornou um lugar seguro para os ciclistas que fazem a travessia da ilha-continente, resolvendo um problema crônico da região.

A ligação entre médias e longas distâncias é um dos principais desafios para uma cidade como Florianópolis. De acordo com uma pesquisa do Instituto Transporte Ativo, de 2018, metade dos trajetos realizados por quem anda de bicicleta em Florianópolis dura entre 10 e 30 minutos. Além disso, apenas 21% dizem utilizar a bicicleta junto com outros meios de transporte, mostrando a dificuldade de integração entre os diferentes modais.

A estudante Patrícia Siqueira, moradora da Lagoa da Conceição, é um exemplo
disso. Começou a utilizar a bicicleta há dois anos por ser um meio de transporte mais saudável e com menor impacto ambiental, mas geralmente utiliza o meio para atividades diárias no bairro. Ela não utiliza a integração da bike com outro meio de transporte e, quando opta por distâncias maiores, é por lazer, indo em direção aos bairros da região Sul como Rio Tavares e Campeche.

“Sempre que surge uma ciclovia nova é motivo de comemoração, eu geralmente acesso apenas uma, a da Osni Ortiga, mas ela poderia seguir até o Campeche, por exemplo. Seria bacana que a construção das vias levasse isso em consideração logo no projeto”, pondera Siqueira.

De acordo com a pesquisa do Instituto Transporte Ativo, é justamente a falta de estrutura cicloviária adequada que desencoraja o uso maior de bicicletas.
Aproximadamente, 68% dos usuários afirmou que utilizaria mais o meio se a
infraestrutura fosse melhor.

Foto: Marcos Campos / ND

Como abandonar os carros?

Mesmo com uma estrutura aquém do ideal, Florianópolis figura bem em
comparação com outras capitais brasileiras. A capital catarinense tem a quinta maior proporção de malha cicloviária em relação à sua malha total com 5,51%. Porém, o número ainda não é o suficiente para encorajar as pessoas a abandonarem seus veículos particulares.

Foto: Marcos Campos / ND

Em Florianópolis, 70% das residências possuem carros e a média geral é de um veículo a cada duas pessoas – dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) de 2018 –, ou seja, o desafio é oferecer vantagens suficientes que façam a população motorizada migrar para a bicicleta.

“Só vamos estimular a mudança dos carros para as bicicletas priorizando estes modais, efetivando-os como os principais elementos do trânsito, e isto é construído gradativamente, negociando, demonstrando que é possível compartilhar os espaços da cidade”, explicou Mittmann.

Estudos e projetos já estão em andamento para a implementação de ciclovias e ciclofaixas em avenidas populares da nossa cidade como as Rendeiras (Lagoa), Madre Benvenuta (Santa Mônica), Mauro Ramos (Centro), Ivo Silveira (Capoeiras), entre outras. Com isso, a ideia é que mais pessoas se sintam encorajadas a tentar o novo meio de locomoção e, de quebra, aproveitar mais o que Florianópolis e o ciclismo têm a oferecer, como falou Patrícia.

“Ser ciclista é sobre adotar mais um meio para dividir o transporte, as vias devem ser compartilhadas, ninguém está ali conduzindo ou andando sozinho. Para funcionar melhor, precisamos nos entender e nos respeitar. Ser ciclista, para mim, também é sobre saúde, eu alio a prática ao exercício físico implícito, que gera prazer durante e depois, ainda mais quando nos faz chegar aos lindos lugares da nossa ilha.”

Mobilidade – Foto: Marcos Paulo / ND

Entenda os tipos de faixas

Ciclovia: via separada fisicamente para as bicicletas, como a Avenida Beira-Mar Norte (Centro).

Ciclofaixa: via para bicicletas no mesmo pavimento da via para carros, porém
separada com as chamadas tartarugas, como a Avenida Pequeno Príncipe (Campeche).

Ciclorrota: via compartilhada entre bicicletas e outros veículos, mas que
possuem sinalização no asfalto indicando aos motoristas a distância segura para os ciclistas (de 1,5 metros). Um exemplo é a Rua João Pio Duarte Silva (Córrego Grande).

Mobilidade – Foto: Marcos Paulo / ND

Perfil ciclista Floripa (Pesquisa Instituto Transporte Ativo – 2018)

● 78,4% utilizam de cinco a sete dias por semana.
● 60,6% utilizam há mais de cinco anos.
● 79% não usam bike integrada a outros meios.
● 43,4% usam por praticidade/rapidez; 31,2% por saúde.
● 59,7% sentem falta de infraestrutura; 30,7% sentem falta de segurança no
trânsito.
● 50,1% utilizam para trechos entre 10 e 30 minutos.

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