Foguete de SC: estudantes vão representar o Estado em olimpíada nacional

Alunos do Sesi/Senai vão representar Santa Catarina na Olimpíada Nacional de Astronomia com um foguete feito de garrafa pet, vinagre e bicarbonato de sódio

REPORTAGEM: Aline Torres, especial para o ND
EDIÇÃO: Felipe Alves e Thamy Spencer

Morrer no labirinto de pe­dras. Por decisão real, esse seria o destino trá­gico do arquiteto que projetou a obra e de seu filho. Vingança pelo labirinto-prisão, da Ilha de Creta, ter sido invadido por um oponente. Dédalo, um inventor brilhan­te, teve a ideia de construir dois pares de asas com cera de abelhas e penas de gaivota.

O projeto permitiria a fuga, mas teria limitações. Se voasse alto, o sol derreteria a cera. Se voasse baixo, as ondas do mar molhariam as penas. Conscientes da fragilidade da criação, os dois alçaram voo. O jovem, no êxtase da liberdade, não obedeceu aos conse­lhos paternos: as asas derreteram e ele caiu no mar Egeu.

Objetivo dos alunos é conquistar a medalha de ouro com um voo 220 metros de distância diante da elite científica brasileira – Divulgação/ND

O mito grego da queda de Ícaro tem muitas leituras. Mostra, inclusive, a necessidade de seguir o planejamento para evitar insucessos. Lição aprendi­da por um trio de estudantes do Sesi/Senai de Concórdia, que representará Santa Catarina na OBA (Olimpíada Na­cional de Astronomia), no lançamento de um foguete fabricado com garrafa pet, vinagre e bicarbonato de sódio, que pretende conquistar a medalha de ouro com um voo de 220 metros de distância, num ângulo nem alto, nem baixo, diante da elite científica brasileira – profissionais que vivem para aprimo­rar o sonho alado de Ícaro.

No começo do ano letivo, a profes­sora e mestre em Física do Sesi-Senai de Concórdia Queila Fernanda Benck levou para as turmas dela do 1° ano do Ensino Médio o edital da MOBFOG (Mostra Brasileira de Foguetes), que in­tegra a OBA.

Mesmo sabendo que exigiria uma alta dedicação fora da sala de aula, 60 alunos se interessaram em participar. O entusiasmo não foi à toa. Nos dois últimos anos, alunos da instituição de ensino levaram medalha de prata nas olimpíadas com a orientação de Queila.

60 alunos se interessaram em participar – Queila Benck/Divulgação/ND

Construção de conhecimento

Como o edital previa trios, formaram-se 20 equipes. Os estudantes poderiam usar apenas três ferramentas: a pet, vinagre e bicarbonato. O objetivo era o foguete subir até o ângulo de 45 graus, fazer a curvatura e seguir por mais de 100 metros na horizontal. Os estudantes partiram do zero. A orientação durou de março até abril, todas as sextas-feiras à tarde. Na etapa regional duas equipes se classificaram no Sesi-Senai de Concór­dia. Conforme previa o edital, a que foi mais longe resultou classificada. O foguete de Bárbara Kolling da Silva, 15 anos, Júlia Delai Rossini, 15, e Ian Ma­ran, 16, atingiu 120 metros.

Dessa forma, disputando com 400 mil alunos, eles garantiram lugar na OBA, organizada por uma comissão de membros da UERJ (Universida­de Estadual do Rio de Janeiro), da SAB (Sociedade Astronômica Brasileira), do CNPq (Conselho Na­cional de Desenvolvimento Científico e Tecnoló­gico) e da Unip (Universidade Paulista). O evento será num hotel fazenda em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro, entre os dias 29 de outubro e 1° de novembro. A disputa será entre 50 trios. “Come­çamos por diversão. Nem imaginávamos que te­ríamos chance”, contou Ian.

Começaram os testes e foi uma decepção. Nosso foguete voava apenas 40 metros, quando voava. Isso poderia facilmente ser motivo de desistência, mas nem passou pela nossa cabeça. A cada teste, procurávamos avanço”. – Júlia, aluna do Sesi/Senai

“Seguimos cada regra do processo. Aí come­çaram os testes e foi uma decepção. Nosso fo­guete voava apenas 40 metros, quando voava. Isso poderia facilmente ser motivo de desistên­cia, mas nem passou pela nossa cabeça. A cada teste, procurávamos avanço. Aos poucos, fomos adquirindo tanto mais velocidade quanto esta­bilidade e aerodinâmica. Perdemos a conta de quantos foguetes fizemos e de quantos litros de vinagre e quilos bicarbonato foram utilizados”, lembrou Júlia.

Trabalho em equipe

Segundo a professora Queila, o exercício do voo desenvolve potencialidades em física, química, matemática e engenharia e também habilidades so­cioemocionais.

“Eles precisam trabalhar em equipe, buscar soluções criativas e ter resiliência e persis­tência. Nos primeiros testes o foguete nem sai do chão. São muitos erros na jornada, a base explode, o ângulo sai errado. Eles fazem mais de 50 testes até ir para o Rio de Janeiro. Vão para os lançamentos até debaixo de chuva. É muito bonito de ver”, contou.

exercício do voo desenvolve potencialidades em física, química, matemática e engenharia – Queila Benck/Divulgação/ND

Foi no entusiasmo da MOBFOG, que João Pedro Sandrin Golynski, 19 anos, decidiu a profissão. Ele venceu em segundo lugar em 2017 e atualmente cursa Engenharia Aeroespacial na UFSC (Universi­dade Federal de Santa Catarina).

“Eu já gostava de Astronomia e Astrofísica, mas construir o foguete permitiu que eu tivesse uma imersão. Passei o ano inteiro dedicado, pensando nisso”, disse.

Os atuais concorrentes à medalha não são dife­rentes. Bárbara contou que grupo já tinha interesse em aeronáutica, aerodinâmica e física, mas que o prazer em estudar foi potencializado pela experiên­cia prática. A meta agora mescla o planejamento de Dédalo e os sonhos de Ícaro. Voar, com estabilida­de, por 220 metros.

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