Há 40 anos a Novembrada parava Florianópolis e lançava ecos para o país

Protestos e repressão policial para garantir a visita do general João Baptista Figueiredo em 30 de novembro de 1979 transformou o centro da cidade numa praça de guerra

Policiais contém manifestantes que, conforme o SNI (Serviço Nacional de Informações), “não chegavam a 40” – Foto: Arquivo Agecom/UFSC/Divulgação/ND

PAULO CLÓVIS SCHMITZ
Especial para o ND

Quando desembarcou no aeroporto Hercílio Luz e topou com bandeirinhas e balões com frases que louvavam seus dotes de conciliador, adjetivo forjado pelo Planalto para justificar a estratégia de transição lenta e gradual para um governo civil, o general João Baptista Figueiredo não imaginou que a poucos quilômetros dali enfrentaria uma turba nada amistosa na cidade das oligarquias e de histórica condescendência com a vontade dos governantes.

Nem as donas de casa que bateram panelas no caminho para o Centro de Florianópolis, naquela manhã de 30 de novembro, abalaram a comitiva presidencial. Foi perto do meio-dia que eclodiram os protestos, vaias e safanões que, na leitura dos especialistas, precipitaram o fim do regime militar e pavimentaram o caminho para a redemocratização do país.

Há quem veja a Novembrada, como ficou conhecido o episódio de 40 anos atrás, como efeito dos aumentos no preço da gasolina e nas tarifas de energia elétrica, além da inflação que ameaçava disparar. Outros acham que amadureceu ali o fruto de anos de organização estudantil, após o período em que a UNE (União Nacional de Estudantes) permaneceu na clandestinidade. E também existe quem atribua a promessas não cumpridas com o Estado, por parte do governo Federal, como estopim para a insatisfação coletiva que emergiu na praça 15 de Novembro e se espalhou pelas ruas centrais da cidade.

Outra versão digna de consideração é a da homenagem que seria feita ao ex-presidente Floriano Peixoto – uma placa de ferro junto à figueira da praça –, o homem que ordenou o fuzilamento de centenas de figuras proeminentes da cidade na Ilha de Anhatomirim, em 1894. O fato é que aquele dia de 1979 tirou Florianópolis do anonimato, ainda que a imprensa nacional, surpreendida, tenha reagido com parcimônia ao conflito entre o presidente da República e populares em frente e no entorno do Palácio Cruz e Sousa.

Figueiredo, em frente ao Ponto Chic – ele decidiu enfrentar a multidão, mas o protesto só aumentou – Foto: James Tavares/Divulgação/ND

Os veículos de imprensa locais também foram econômicos nas palavras, mas não tinham como escamotear os acontecimentos. “O Estado”, principal jornal impresso de Santa Catarina, deu uma fotografia de capa inteira ao episódio e disse que “as manifestações de protesto degeneraram para ofensas pessoais a Figueiredo”. Já o “Jornal de Santa Catarina”, de Blumenau, censurou o material produzido pela equipe da sucursal da Capital e preferiu ressaltar, na abertura da reportagem, que o presidente “quebrou o protocolo e misturou-se ao povo, abraçando e beijando crianças, mulheres e velhos”.

”Uma verdadeira praça de guerra”

A ordem dos acontecimentos é bastante conhecida, mas parte das novas gerações não sabe em detalhes o encadeamento dos fatos naquele dia 30 de novembro de 1979. Depois que o presidente João Baptista Figueiredo assinou atos oficiais no Palácio do Governo, veio à sacada ao lado do governador Jorge Konder Bornhausen e acenou para o público. Surgiram as primeiras palavras de ordem, gritos de “fascista” e faixas que diziam “chega de sofrer, o povo quer comer” e “chega de canhão, o povo quer feijão”. O presidente fez um gesto sugerindo que os protestos envolviam pouca gente em relação ao conjunto dos presentes, o que foi interpretado como uma ofensa – como se ele tivesse juntado o polegar e o indicador quando levantou a mão em direção aos manifestantes.

Ao mesmo tempo, a placa em homenagem a Floriano Peixoto era arrancada da praça, acirrando os ânimos que já haviam sido inflados pelos estudantes que comandavam a manifestação. Houve reação da polícia e a tensão recrudesceu. Eram empurrões, altercações, pedras e objetos arremessados em direção ao palácio – a situação começava a fugir do controle. O jornal “O Estado” publicou que a escaramuça que se seguiu “transformou o centro da cidade numa verdadeira praça de guerra”. O presidente, sentindo-se ofendido pelos manifestantes, resolveu descer, alegando que não admitia xingamentos à sua mãe.

Aspecto do protesto que reuniu milhares de pessoas em ato contra a ditadura – Foto: James Tavares/Divulgação/ND

Ele foi contido, mas desvencilhou-se dos seguranças. No entanto, percebeu que não poderia enfrentar a multidão – calcula-se que cinco mil pessoas estavam na praça e ruas próximas naquele momento. Quando a comitiva se dirigiu ao Ponto Chic, no calçadão da rua Felipe Schmidt, os estudantes, então isolados pelo esquema de segurança, deram a volta pela rua Trajano e encostaram novamente nas autoridades. O ministro das Minas e Energia, Cesar Cals, foi agredido e alguns membros da equipe de governo acabaram dentro de uma loja, empurrados pelos manifestantes.

O ano da Anistia e da volta de Brizola

Com o comércio fechado e as autoridades a caminho de Palhoça, onde houve um churrasco para centenas de convidados, os tumultos da Novembrada prosseguiram até perto das 16h no centro da cidade. Os estudantes ainda tiveram tempo de danificar alguns carros de autoridades e a Polícia Militar tomou a bolsa e a máquina do fotógrafo Ezequiel Tiskosk, do “Jornal da Semana”. O jornalista Moacir Loth foi agredido na frente do Palácio e acabou internado no Hospital de Caridade. Ele e outros profissionais do “Jornal de Santa Catarina” acabaram mandando o material não aproveitado para veículos de outras regiões do Brasil. “O jornal publicou textos deturpados e cumprimentou a PM, dizendo que ela realizou um ‘trabalho exemplar’”, conta o repórter.

O cenário político e econômico do país era delicado, com os preços em alta e uma insatisfação crescente com a demora da abertura prometida pelos militares. Ao mesmo tempo, a Lei da Anistia, aprovada em agosto de 1979, sugeria que a distensão viera para ficar. Aquele também foi o ano da volta do exilado Leonel Brizola ao país, do fim do bipartidarismo e das primeiras greves no ABC paulista, onde despontava a figura do metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva. A UNE saíra da clandestinidade, mas a esquerda – especialmente nas universidades – era um emaranhado de tendências no qual ninguém se entendia, mas que tinha como bandeira comum a defesa da soberania nacional.

Havia um temor de convulsão social, motivo de alerta tornado público pelo MDB e PDT, que denunciaram em nota a “ilegitimidade do poder central”. O ex-presidente Jânio Quadros e o deputado paulista Adhemar de Barros manifestaram preocupação com o risco de caos institucional. O regime queria eleições indiretas para a presidência da República, quando os militares saíssem de cena, mas o episódio de Florianópolis uniu as forças de oposição em torno da proposta das Diretas-já, que ganhou as ruas do país e terminou em frustração, em 1984, quando o Congresso Nacional reprovou a proposta.

Com a prisão dos estudantes Adolfo Luiz Dias, Rosângela Koerich de Souza, Geraldo Barbosa, Marize Lippel, Newton Vasconcelos Jr., Lígia Giovanella e Amilton Alexandre, o Mosquito, depois enquadrados na Lei de Segurança Nacional, os protestos voltaram a agitar o Centro de Florianópolis nos dias que se seguiram aos embates de 30 de novembro.

Dilemas da época ainda estão presentes

Em intervenção feita esta semana na Câmara Municipal, quando os estudantes e outros atores da Novembrada foram homenageados pelos vereadores, Rosângela Koerich, conhecida como Lelê, contou que foi acordada às 6h da manhã do dia 2 de dezembro de 1979, um domingo, por três policiais federais que a levaram para o Cadeião do Estreito. Marize Lippel, então com 18 anos, ficou sob a mira de uma metralhadora. Lígia Giovanella e Adolfo Dias decidiram fugir, mas também foram apanhados e ficaram 13 dias presos, até que um processo militar os enquadrasse na Lei de Segurança Nacional. O grupo ganhou liberdade provisória, mas só foi absolvido definitivamente em fevereiro de 1981.

Rosângela disse que os estudantes não haviam programado uma manifestação tão ostensiva, mas que as circunstâncias levaram à radicalização que todos testemunharam. “Era uma luta pela igualdade, liberdade e melhor divisão de renda no país”, afirmou. Os jovens estavam divididos quanto à estratégia de ação naquele dia, e o próprio Diretório Central dos Estudantes (DCE/UFSC) foi contra o ato de protesto verbal e com faixas na praça central da cidade. Ainda na militância, Rosângela disse que faria tudo de novo e que as lutas de 40 anos atrás se justificam ainda hoje, porque a questão da renda, por exemplo, está longe de ser resolvida.

Dois dos sete estudantes – Adolfo Dias e Amilton Alexandre – já morreram, e os demais continuam envolvidos com questões da política, militando. Um deles, Geraldo Barbosa, também homenageado pela Câmara de Vereadores, lamenta que o desenvolvimento econômico das últimas décadas não tenha reduzido as desigualdades no país. Para o professor universitário aposentado Remy Fontana, que acompanhou a defesa dos estudantes presos no tribunal de Curitiba, àquela altura o regime “já estava sem legitimidade e carente de apoio político”. “A Novembrada foi um marco de protagonismo da população de Florianópolis”, afirma.

Major na época, Nilo Marques auxiliava o chefe da Casa Militar do governo Jorge Bornhausen. Ele guardou por 30 anos em casa a placa em homenagem a Floriano Peixoto – Foto: Anderson Coelho/ND

A placa da discórdia e seu protetor

Testemunha privilegiada do episódio da Novembrada, o coronel Nilo Marques de Medeiros Filho, 78 anos, era major e auxiliava o chefe da Casa Militar do governo Jorge Bornhausen quando eclodiram os protestos de 30 de novembro de 1979. Ele foi um dos militares que recepcionaram a comitiva presidencial no aeroporto e garante que nem lá, nem no trajeto até o centro, notou qualquer sinal de que uma tormenta estava por vir. Também não havia informações sobre o descerramento de uma placa em tributo a Floriano Peixoto, que teria sido um dos estopins das manifestações. Esta placa ficou guardada durante 30 anos no sótão de sua casa, na rua Major Costa, na Capital.

O coronel conta que também foi tranquila a chegada da comitiva no Palácio do Governo. O presidente passou a tropa em revista e assistiu às cerimônias formais, enquanto os estudantes se agitavam, próximo à Catedral Metropolitana. Quando eles se postaram em frente ao prédio histórico, começaram as ofensas, e Figueiredo perguntou ao governador: “Onde está a saída?” Foi contido, mas desceu e viu folhas de papel sendo jogadas no rosto. Agentes de segurança e PMs deram um jeito de afastar os manifestantes, mas os xingamentos e palavras de ordem irritaram o presidente. “Lembro de sua voz dizendo que não aceitava as ofensas feitas à sua mãe”, conta Nilo.

Depois que passou o momento mais tenso, a comitiva de autoridades dirigiu-se ao Ponto Chic, enquanto o major Nilo de Medeiros Filho foi destacado para esvaziar e fechar as portas do Palácio. Quando tudo parecia refluir, um estrondo chamou a atenção do militar: a placa com a homenagem a Floriano fora jogada contra o prédio. Ele abriu a ponta principal e juntou a placa, torta e ainda quente depois de ser colocada sobre uma fogueira de papel perto da rua Felipe Schmidt.

A placa ficou numa gaveta do Palácio até que o major, preocupado com os riscos de sumiço, pediu autorização para guardá-la em casa. “É um documento de nossa história”, justifica-se ao dizer porque fez isso. De vez em quando, algum jornal perguntava, em letras garrafais: “Onde andará a placa de Floriano?” Quando surgiu um movimento em defesa da mudança do nome da cidade, Nilo levou a placa para a UFSC, pondo fim ao mistério. Depois, ela foi para a Casa da Memória, vinculada à Fundação Franklin Cascaes, da prefeitura de Florianópolis, e agora se encontra novamente no Palácio Cruz e Sousa. “Também acho injusto homenagearem a cidade com o nome de Floriano”, afirma o coronel. “Ela era conhecido como corta-cabeças”.

Jornalista Manoel Timóteo de Oliveira Neto era funcionário da EBN (Empresa Brasileira de Notícias) e guarda sua credencial da visita até hoje – Foto: Divulgação/ND

Ousadia reconhecida fora do Estado

Outro florianopolitano que se viu enredado nas manifestações, mesmo sem ter participado delas, foi o jornalista Manoel Timóteo de Oliveira Neto, então funcionário da EBN (Empresa Brasileira de Notícias), depois Agência Nacional. Ele recepcionou os profissionais da empresa que vieram de Brasília para cobrir a visita presidencial e também Marco Antonio Kremmer, secretário de imprensa da Presidência da República. Todos foram jantar na Lagoa da Conceição na véspera dos confrontos, e no dia 30 de novembro se surpreenderam com o tom belicoso dos populares, a começar pelos estudantes que se aglomeravam perto da Catedral.

Ainda portando a credencial nº 161 da Presidência para acompanhar a visita, Manoel conta que a cidade estava cheia de policiais federais e que o clima permaneceu tenso mesmo depois que o presidente Figueiredo embarcou de volta para a capital federal. Um dos episódios engraçados daquele dia foi que o fotógrafo Paulo Dutra comprou – fiado! – uma gravata na alfaiataria da esquina próxima ao Palácio para poder trabalhar. Depois, ele sumiu com os filmes das imagens que fez, deixando os editores Luiz Henrique Tancredo e Salim Miguel furiosos.

O jornalista também recorda que era abordado com efusão em eventos fora do Estado – todos queriam parabenizar os catarinenses pela ousadia de afrontar a principal autoridade da República.

Professora de História, dona Neide Monteiro de Castro Silvestre era estudante na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UFSC em 1979, quando ocorreu a Novembrada. Ela chegou ao centro da cidade na hora em que os ânimos começavam a se exaltar e acha que os manifestantes se excederam no tom das faixas e palavras contra o presidente. Colega de Adolfo Dias, um dos presos pela Polícia Federal, Neide diz que o momento era correto para demonstrar a insatisfação, mas que “bastava protestar, sem chegar a extremos”.

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