Quatro décadas após tragédia, Tubarão aparece em área de risco com avanço do mar

Inundação de 1974 deixou marcas como um dos piores desastres naturais de Santa Catarina. Segundo estudo científico apresentado na COP25, município do Sul do Estado está entre regiões que podem enfrentar impactos do aumento do nível do mar nas próximas décadas. Tragédia do passado é referência para plano de contingência no município

REPORTAGEM: Bruna Stroisc​​h
PESQUISA/TEXTO/EDIÇÃO: Beatriz Carrasco

Corpos na rua, pessoas sepultadas em valas, casas e comércios destruídos pela força das águas e depois tomados pela lama. Há 45 anos, Tubarão viveu sua pior tragédia, com cicatrizes ainda guardadas entre os moradores. “Foram dias terríveis”, revive Joel Koening de Souza, hoje com 65 anos.

Após um longo período de chuvas e trombas d’água, a cheia do rio homônimo chegou aos dez metros, inundou a cidade e atingiu outros municípios de seu vale. Mais de 97% de Tubarão ficou debaixo da lama, com 60 mil pessoas desabrigadas. 

Cenário da tragédia que atingiu Tubarão em 1974 – Foto: Reprodução/Arquivo Público de Tubarão/ND

Sem água, luz, telefone e mantimentos, a população se viu ilhada. A inundação de março de 1974 marcou a história com seu cenário de destruição. A estimativa de mortos foi de 200 pessoas. Contudo, até hoje o número exato de vítimas nunca foi confirmado.

Em 30 anos – tempo menor do que as mais de quatro décadas que se passaram desde a tragédia -, o município pode enfrentar novamente o avanço das águas. Tubarão aparece em um estudo científico como uma das três cidades mais afetadas pelo aumento do nível do mar em Santa Catarina.

O prognóstico da Ong Climate Central foi apresentado na Conferência sobre Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas – a COP25 -, que ocorreu neste mês em Madri, na Espanha. O evento reuniu especialistas e representantes de quase 200 países para discutir os desafios sobre os impactos das mudanças climáticas no mundo.

Mapeamento da ONG Climate Central mostra área com risco de inundação – Foto: Climate Central/Reprodução/ND

Áreas inundadas no Sul do Estado

Na reportagem, o ND+ explorou o território catarinense em uma projeção do ano de 2050, sob o cenário de “poluição moderada”, que consiste em um aumento gradual da temperatura da Terra em até 2ºC, até o final do século. O índice é 0,5ºC acima do que foi estipulado durante o Acordo de Paris, quando 200 países se comprometeram em reduzir a emissão de gases do efeito estufa – substâncias como dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4).

O estudo aponta que a alta das marés poderão fazer com que áreas dos municípios de Tubarão, Laguna, Jaguaruna, Capivari de Baixo e Pescaria Brava sejam inundadas nas próximas décadas. Além destas regiões, os balneários Arroio Corrente, Esplanada, Rincão e parte de Araranguá também poderão ser afetados.

Violência das águas marcou juventude

“Minha família perdeu tudo”, relembra o funcionário público Joel Koening de Souza, de 65 anos, sobre a inundação de 1974. Ele é morador do bairro Recife, em Tubarão, que fica bem perto da área que pode sofrer com o avanço do mar.

No município, as regiões em risco, conforme o prognóstico, englobam os bairros Monte Castelo, Santa Luzia, Cruzeiro, Sertão dos Correias, Congonhas e São Cristovão.

À época com 21 anos, Joel morava com os pais e mais quatro irmãos em uma casa de um pavimento no centro de Tubarão. O imóvel da família ficou debaixo d’água.

Joel Koening de Souza teve a casa destruída na grande inundação de 1974 em Tubarão – Foto: Bruna Stroisc​​h/ND

Segundo o funcionário público, foram mais de 40 dias de chuva. O que começou com uma garoa, se intensificou no final de março. O solo encharcado, o vento Leste e a cheia do rio contribuíram para as grandes proporções dos estragos.

Nos primeiros dias de chuva, Joel conta, orgulhoso, que foi voluntário na limpeza das pilastras de sustentação da ponte central, retirando entulhos, galhos e troncos que iam de encontro à estrutura. O receio era de que a chuva pudesse causar o colapso da ponte e o consequente isolamento dos bairros.

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O morador, que acompanhou as mudanças na paisagem local, diz que intervenções no rio Tubarão – como o assoreamento – fizeram com que as inundações se tornassem menos frequentes. No entanto, Joel relata que em 2018 sua casa foi novamente inundada.

Mais recentemente, em 24 de maio deste ano, o Sul do Estado voltou a enfrentar fortes tempestades, que causaram estragos na região. Somente naquele dia, Tubarão registrou 200 milímetros de precipitação, o equivalente a dois meses de chuva na média. 

No mesmo mês, Laguna teve 95% da cidade inundada após chover cerca de 270 milímetros. Os prejuízos chegaram a R$ 4 milhões. A mesma precipitação também atingiu Jaguaruna, que teve danos de R$ 9 milhões.

Sonho de estudante perdido

Antes de testemunhar a perda total da casa da família, Joel não imaginava viver uma tragédia de grandes proporções. Ele conta que a água começou a subir em outras ruas da cidade, por isso tiveram tempo de levantar móveis e guardar objetos pessoais.

Um de seus ‘tesouros’ na época eram dez volumes da Enciclopédia Barsa, recém-adquiridos e parcelados em cinco vezes, sem entrada. Joel colocou a coleção em cima do guarda-roupas, achando que estaria protegida. Enganou-se: a água cobriu toda a casa.

“Era meu sonho, enquanto estudante, ter uma coleção da Barsa. Consegui comprar três dias antes da grande inundação. Coloquei a caixa em cima do guarda-roupas, encostadinha no forro do teto. Na hora pensei ‘aqui vai ser impossível da água pegar’. A caixa ficou debaixo d’água. Quando tive a oportunidade de comprar, perdi tudo”, lamenta Joel.

Ele confessa que não pagou nenhuma das cinco parcelas e a cobrança não chegou até hoje. “Não recebi nenhum telefonema, carta, ninguém me cobrou. Eu acho que por causa da catástrofe ter sido conhecida nacionalmente, eles pensaram ‘poxa, o menino acabou de comprar e deve ter perdido tudo’. E foi isso mesmo, não cheguei a ler uma página”, brinca.

Corpos sepultados em valas

A solidariedade entre os moradores de Tubarão foi fundamental para lidar com perdas humanas e materiais. Joel conta que a loja de móveis e eletrodomésticos gerenciada pelo pai – e localizada na parte alta da cidade – serviu como abrigo para cerca de 200 pessoas.

“Foi difícil arrumar água potável, comida, agasalhos. A cidade estava ilhada. Os caminhões não passavam pela BR-101 porque estava interditada. Os mantimentos chegavam por aviões e helicópteros. Foram dias terríveis, mal dava para descansar”, relembra.

Memorial às vítimas da enchente de 1974 em Tubarão – Foto: Divulgação/Prefeitura Municipal de Tubarão/ND

O funcionário público viu a morte de perto. Corpos de vítimas da inundação e das enxurradas ficaram pela cidade. Sem estrutura para um sepultamento digno, valas foram abertas para depositar os corpos. 

Um tio de Joel, deficiente físico, mandou que os filhos deixassem a casa onde moravam, mas se negou a sair. Ele foi uma vítima fatal da tragédia.

Cidade destruída e abandonada

A capa da edição de 28 de março do jornal O Estado estampa na manchete: Toque de recolher vigora em Tubarão.

Conforme a publicação, o comando militar do município, composto por oficiais das Forças Armadas e autoridades civis, decretou toque de recolher das 20h às 6h, durante o estado de calamidade pública. O intuito era manter o controle, a ordem e a segurança da cidade.

Joel tem viva a memória deste período. Ele conta que Tubarão ficou praticamente vazia. Casas, comércios, fábricas, tudo abandonado ou destruído. Os supermercados foram saqueados.

Capa do jornal O Estado de 28 de março de 1974 – Foto: BPSC/Reprodução/ND

“Cheguei a ficar uma semana sem tomar banho. Furei o toque de recolher algumas vezes. Saía escondido para tomar banho em uma bica d’água. A água era natural, saía limpinha”, revela.

Traumas e a recuperação da cidade

Passados quase 46 anos da inundação, muitas famílias que vivenciaram o período ainda guardam os traumas. Joel conta que, até hoje, moradores costumam buscar imóveis em regiões altas, com receio de inundações. Outros deixaram de vez a cidade após o fatídico março de 1974.

A edição de 29 de março do jornal O Estado, cuja capa é o cenário de reconstrução, diz que “passado o período crítico da catástrofe, Tubarão começa agora a cuidar das chagas que lhe foram abertas com a tragédia. No entanto, as cicatrizes jamais esconderão os vestígios do drama vivido por sua população na última semana”.

Capa do jornal O Estado de 29 de março de 1974 – Foto: BPSC/Reprodução/ND

As marcas puderam ser vistas em quase todo o Sul do Estado, como em Laguna, Imaruí, Armazém, São Martinho, Rio Fortuna, Braço do Norte, Gravatal, São Ludgero, Lauro Müller, Orleans, Urussanga, Pedras Grandes, Treze de Maio, Morro da Fumaça, Araranguá, Jaguaruna, Maracajá e Siderópolis.

O processo de recuperação da cidade mobilizou moradores, outras regiões do Estado e do país, órgãos de segurança e poder público, que deram suporte com mão de obra, mantimentos, medicamentos e máquinas para a limpeza das vias.

Para Joel, que vivenciou a tragédia, a sensação é de que os prejuízos fizeram a cidade voltar no tempo.

“Foi como se, depois da inundação, a cidade voltasse 30 anos. Engatinhamos para conquistar o que tínhamos na época e tudo foi perdido em questão de dias”, lamenta.

Tragédia de 1974 é referência para Plano de Contingência

Segundo a prefeitura de Tubarão, a inundação de 1974 e outras ocorrências de inundações, serviram como referência para instituir, em dezembro de 2014, o Plano de Contingência para Alagamentos, Inundações e Deslizamentos.

Conforme Murilo Damian Ribeiro, gestor-coordenador da Defesa Civil de Tubarão, desde a data de instituição, a prefeitura vem implantando as ações do projeto, inclusive o Plano Municipal de Macrodrenagem.

O projeto tem como objetivo minimizar os impactos de inundações e alagamentos com a macrodrenagem do município, incluindo áreas rurais e urbanas.

Tubarão sofreu com inundação em março de 1974 – Foto: Arquivo Público de Tubarão/Reprodução/ND

O sistema drena toda a água que passa pelo sistema de microdrenagem, como as bocas de lobo. De acordo com Ribeiro, a prefeitura também trabalha na substituição de tubulações.

O Plano de Contingência prevê monitoramento com dados da Estação Meteorológica do Município de Tubarão, duas estações pluviométricas e fluviométricas da Secretaria Municipal de Proteção e Defesa Civil, das estações fluviométricas da Agência Nacional de Águas – ANA, além do contato com outros municípios.

“A prefeitura já tem mapeadas as áreas de risco e para cada área temos abrigos. Lá disponibilizamos colchões, água quente e potável, mantimentos e kits de higiene. Além disso, o plano prevê as rotas de fuga e evacuação”, explica o coordenador.  

Municípios trabalham na prevenção de desastres

Além de Tubarão, outros municípios do Sul do Estado, como Laguna e Jaguaruna, trabalham na prevenção de situações de inundação e alagamentos. Segundo o sargento Antônio da Silva, coordenador da Defesa Civil de Laguna, a cidade costuma sofrer as consequências do transbordamento do rio Tubarão.

No último dia 24 de maio, a Defesa Civil atuou junto à Marinha, Polícia Militar, bombeiros e Assistência Social no apoio à população. Conforme o coordenador, máquinas da prefeitura trabalham na abertura de valas para escoamento da água e na manutenção de tubulações, bocas de lobo, caixas de passagem e do sistema de drenagem de redes pluviais.

Farol de Santa Marta, em Laguna – Foto: Governo de Santa Catarina/Divulgação/ND

Conforme o sargento Antônio da Silva, a alta da maré não é frequente. No entanto, em certas ocasiões a água já chegou a inundar vias do centro da cidade. A prefeitura trabalha com contenções naturais, como as dunas de areia e muralhas de proteção presentes em toda a extensão da praia do Mar Grosso.

O Farol de Santa Marta, um dos principais pontos turísticos da região, está entre as áreas que podem ficar debaixo d’água, conforme o estudo da Climate Central. De acordo com o coordenador da Defesa Civil, não há como construir uma barragem, pois as casas são muito ribeirinhas.

Em Jaguaruna, a prefeitura vem trabalhando na limpeza de rios, bueiros e córregos. O coordenador da Defesa Civil do município, Edimarcos de Souza Laureano, explica que o canal da Barra do Camacho é uma das principais obras da região e custou R$ 882 mil aos cofres públicos. Pelo canal escoam as águas do rio Sangão, Tubarão e da lagoa de Jaguaruna.

O período de cheias provoca a inundação da lagoa e o transbordamento do canal. Conforme Edimarcos, um novo projeto está em andamento e prevê o aprofundamento do canal, calçamento de pedra, entre outras ações.

A obra está avaliada em R$ 5 milhões e está prevista para iniciar em 2020. O projeto conta com o apoio dos municípios de Laguna, Tubarão, Treze de Maio e Sangão. 

Radar Meteorológico

O Sul de Santa Catarina conta com o Radar Sul, inaugurado em fevereiro de 2018 pela Defesa Civil do Estado. O equipamento está localizado no Morro dos Conventos, em Araranguá. Santa Catarina conta, ainda, com os radares do Vale (Lontras) e do Oeste (Chapecó).

Radar meteorológico em Araranguá – Foto: Defesa Civil de Santa Catarina/Divulgação/ND

O radar tem a função estratégica de fazer a leitura atmosférica da região Sul. Emite alertas e visa mobilizar, com antecedência, equipes para atuar em situações de crise. O radar é móvel e possui o alcance de 100 quilômetros, abrangendo 41 municípios. 

Segundo a Defesa Civil do Estado, um quarto radar está em processo de licitação e será instalado em Jaraguá do Sul.

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