Serra Dona Francisca: Pequeno Arthur e Lucas sobreviveram ao maior acidente de SC

Dos 59 passageiros, apenas 8 sobreviveram, entre eles Arthur, que tinha menos de dois anos e lutou pela vida, igual o tio, Lucas, que tem no sobrinho o refúgio para a dor da perda

REPORTAGEM: Adrieli Evarini
EDIÇÃO: Raquel Schiavini Schwarz

Os grandes olhos azuis não param. Da pequena trave de futebol para a cama, da cama para o pai, do pai para a bola de futebol. O futebol é a paixão, afinal, ele quer ser jogador e até contraria o pai na escolha do time. “Torço para o Barcelona”, se apressa em dizer, apesar da insistência do pai em querer puxá-lo para o Corinthians.

A relação de Arthur Vieira Teles de Abreu, de 6 anos e do pai, Wilton Teles de Abreu, de 32 anos, nitidamente é forte. Muito forte. E se a ligação já não fosse suficientemente forte, a tragédia pela qual a família passou, há cinco anos, tornou tudo ainda mais intenso.

Arthur foi um dos oito sobreviventes da tragédia. Agora, ele quer ser jogador de futebol – Foto: Adrieli Evarini/ND

Há cinco anos, Arthur, com pouco menos de dois anos, se viu no escuro, em meio a ferro retorcido e com os corpos da mãe e da avó, que morreram na maior tragédia rodoviária da história de Santa Catarina. Assustado, o garotinho conseguiu gritar pela vida e enquanto chamava pela avó e pela mãe, foi ouvido pelos bombeiros que o socorreram.

Leia as duas primeiras matérias da série:

Foram 29 dias de internação, oito deles na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria e duas perdas que ele irá carregar para o resto da vida. A mãe, Lariana Regina Vieira e a avó, Sônia Regina Vieira estão entre as 51 vítimas fatais. O tio, Lucas Kauã Vieira, de 22 anos, também sobreviveu à tragédia.

Foram dias e meses de cuidados, viagens para tratamento médico. Arthur quebrou o braço, pernas, costelas, lesionou o pulmão, teve ferimentos no pescoço, na coluna, fraturas expostas e sofreu traumatismo.

Hoje, cinco anos depois, quem o vê correndo, disputando a bola para fazer o gol, não imagina a luta que ele travou para continuar vivo. Do cenário da tragédia, onde os gritos de socorro alertaram os bombeiros até a recuperação, Arthur lutou pela vida e pela chance de poder realizar o sonho de pisar em um gramado como jogador.

Hoje, Arthur comemora dois aniversários, o de nascimento, no dia 03 de junho e o de renascimento, neste dia 14 de março. “Hoje em dia, ver ele assim, é a melhor coisa. A minha felicidade está aí, estampada no rosto. Ele está aí, cheio de vida, correndo, brincando, pulando, jogando bola, aprontando bastante”, ressalta Wilton.

A preocupação de quando Arthur ainda era um bebê era com as quedas e braços quebrados da infância, diz Wilton. Agora, brinca ele, o garoto já quebrou tudo que poderia. “Eu pensava nisso porque toda criança acaba caindo, mas agora ele já quebrou tudo de uma vez só, não vai quebrar mais nada”, brinca.

O olhar de admiração de Arthur para o pai é devolvido imediatamente. O pequeno milagre, diz Wilton, deve ter um propósito grande na vida. “Eu digo que ele tem um propósito aqui na terra. Tem muita coisa grande pra você, né?”, indaga o filho.

Wilton olha para o futuro, mas as lembranças daquela noite que se arrastou por dias não podem ser apagadas. “Ele ficou muito tempo na UTI e quando ele saiu, eu cheguei lá [no hospital] e a enfermeira perguntou: quem é Tata? Eu disse que ele me chamava de Tata e ela emendou ‘então, teu filho está te chamando’. Quando ele me viu, ele estava me olhando e falou: Tata… ali foi tudo pra mim”, relembra.

Anos se passaram até que Arthur soubesse o que aconteceu e onde foram parar a mãe e a avó, mas hoje ele sabe que houve um acidente e que “a mãe e a vovó viraram estrelinhas”. “É um mix de emoção, tanto pela perda como por ele, que ficou. É meio complicado descrever. Ao mesmo tempo que tem a tristeza pela tragédia, também tem essa felicidade enorme que é meu pequeno, que está junto com a gente”, fala.

Passar pela curva que quase tirou o pequeno Arthur ainda é doloroso, garante o pai, mas com o tempo, os sentimentos amenizam. “Primeiro você tentava imaginar o que aconteceu, daí você passava a pensar o quanto eles devem ter passado. Hoje em dia, nós passamos por lá… é impossível não lembrar, mas a vida segue”, diz.

E segue em ritmo acelerado, o ritmo de Arthur que, não para um segundo. A companhia do irmãozinho, que nasceu em meio a esses cinco anos, ajuda nas brincadeiras que poderiam ter sido interrompidas naquele 14 de março.

“As estrelas mais lindas do meu céu”

No braço, a tatuagem resume o sentimento de Lucas Kauã Vieira, de 22 anos. “As estrelas mais lindas do meu céu, Sônia e Lariana”. A mãe e a irmã se tornaram estrelas que guiam a família desde o dia 14 de março de 2015. As duas morreram no acidente com o ônibus da Costa & Mar Turismo, a maior tragédia rodoviária do Estado, que deixou 51 pessoas mortas.

Lucas perdeu a mãe e a irmã e se viu como sobrevivente da maior tragédia rodoviária de SC ao lado do sobrinho – Foto: Adrieli Evarini/ND

Se na pele ele marcou a lembrança da mãe e da irmã, na memória, os momentos da tragédia ainda permanecem vivos. “Muita coisa ainda está viva, de tudo que aconteceu, mas hoje em dia eu aprendi a lidar com isso. Eu me apeguei à minha família e tenho uma filha de três anos, é meu refúgio. Eu lembro de tudo, até o momento da batida, depois eu apaguei e só acordei lá embaixo”, lembra. A filha, Ana Beatriz, de 3 anos e o sobrinho, Arthur, são os refúgios de Lucas.

Ele conta que naquele sábado foi tudo muito rápido, que não houve tempo para reação, mas houve pânico. “O rapaz que estava lá na frente gritou, teve desespero, mas já era tarde. Acordei lá embaixo, pulei pra hora e fui pedir ajuda, não fiquei olhando muito, mas o pouco que vi, sabia que a tragédia era feia”, diz.

Com fratura exposta na perna, o rosto bem machucado – ele precisou fazer reconstrução facial – e sem conseguir imaginar o que havia acontecido com a irmã, a mãe e o sobrinho, ele teve forças para subir pelo barranco, em meio a corpos, vegetação e ferro.

Horas antes, enquanto aguardavam pelo ônibus que substituiria o veículo quebrado, ele teve alguns dos últimos momentos com a mãe. “Eu fiquei abraçado nela o tempo todo e, apesar de sermos muito apegados, nunca foi assim, de ficar abraçado. E ficamos muito abraçados”, relembra.

Horas depois, ele estava no ônibus, ao lado da mãe e nos últimos segundos, ela ainda assim o protegeu. “Eu estava sentado e me agarrei no banco, minha mãe pediu para eu me agarrar e depois não lembro mais, só lá embaixo”, recorda.

A preocupação de Lucas era com Arthur, tanto que, enquanto subia, sem nem sentir a fratura na perna, e viu pessoas descendo para ajudar, pediu por ele. “Eu pedi pra descer porque tinha gente viva, falei do Arthur, eu só pensei nele. Quando cheguei no hospital, pensei: que Deus deixe pelo menos o Arthur. Pelo que eu vi, eu sabia o que vinha pela frente, já tinha noção”, fala. Os dois ficaram internados e só se reencontraram dias depois.

Arthur se divide entre a casa do pai e a da bisavó e do tio – Foto: Adrieli Evarini/ND

As crianças se tornaram o centro da família. “Hoje, nossa família gira em torno deles, aprendemos a se apegar neles para lidar com isso porque a perda deles foi muito dolorosa”, diz.

Arthur e Ana Beatriz se tornaram os refúgios para superar a dor da tragédia. Arthur, o pequeno milagre da tragédia, move as famílias de um lado a outro e é nos olhos azuis dele que todos encontram o caminho para seguir em frente.

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