Visão Catarinense: Pinho Moreira acredita que inexperiência se tornou pecado do atual governo

Seguindo a série de entrevista da “Visão Catarinense” o ex-governador Pinho Moreira avaliou a atual situação política e medidas para sair da crise causada pela pandemia de coronavírus

Com uma grande experiência na política catarinense como, por exemplo, nos cargos de governador, vice e prefeito de Criciúma, Eduardo Pinho Moreira acredita que a inexperiência de Carlos Moisés (PSL) e do restante dos servidores que compõem a frente do governo estadual se tornou o pecado capital da gestão.

Devido a isso, o ex-governador foi o entrevistado da série “Visão Catarinense”, nesta sexta-feira (15), comandada pelo jornalista Paulo Alceu.

Pinho Moreira acredita que inexperiência foi o pecado capital do atual governo – Foto: Divulgação/ND

Como se consegue resolver um problema ou controlar o vírus diante de uma crise estabelecida?

Olha, o Brasil ainda teve uma certa vantagem porque começou na China e passou pela Europa até chegar aqui, além de sermos avisados. Tivemos alguns encaminhamentos corretos e muitos incorretos.

Acho que o isolamento foi um passo importante e necessário porque obedecemos  a ciência. O problema é a roubalheira que está por trás disso e se estabeleceu em Santa Catarina e envergonha o estado porque agora é nacional.

Isso vai dificultar a confiança no atual governo e todas as ações tomadas serão vistas com desconfiança e isso é negativo. Eu acho que vamos vencer essa pandemia e passar por isso, mas precisamos trabalhar pensando nisso.

Acho que o isolamento foi um passo importante e necessário porque obedecemos  a ciência. O problema é a roubalheira que está por trás disso.

Como médico, o senhor acha o isolamento a melhor solução?

Neste momento, sim. Como está sendo mostrado em outros países que estão fazendo isolamento, houve ganho porque a doença diminuiu a rapidez do seu contágio nessas cidades que fizeram o isolamento. Ou seja, a doença diminuiu a rapidez do contágio.

Enfim, a letalidade que até é discutido porque Santa Catarina está abaixo de 2% e isso é menor por causa das subnotificações. Mas a rapidez do contágio é algo surpreendente.

Um estudo feito pela prefeitura de Criciúma e pela Universidade é muito interessante porque 20 dias atrás, aleatoriamente mostrou que 2,2% da população estava infectada e a segunda mostrou que 8% da população estava infectada, sendo realizada de forma aleatória. Isso mostra uma expectativa de 17 mil contaminados.

Tem que ser enfrentado com o isolamento, mas não pelo radical, porque Santa Catarina tem mais de 100 cidades sem nenhum caso suspeito diferente da Capital que tem mais de 400 casos.

O que o senhor não faria do que está sendo feito neste momento?

A vida é uma série de degraus que você vai atingindo. Para você ser um profissional de sucesso em qualquer área, você tem que seguir uma série de degraus, não foi o que aconteceu aqui no Estado.

O governador não se preparou para o cargo, ele estava no lugar certo e na hora certa. Mas ele escolheu pessoas que nunca participaram no processo administrativo e eles estão errando muito. O pecado Capital do governador foi o isolamento político, pessoal e não conversou, faltou humildade do governador.

O governador Moisés deveria formar uma parceria com os prefeitos de Santa Catarina. Não falo do prefeito de Florianópolis porque ele não falou com o Moisés nenhuma vez desde que começou a pandemia. Mas esse isolamento político está impedindo que ele tome decisões corretas.

O governador não se preparou para o cargo, ele estava no lugar certo e na hora certa. Mas ele escolheu pessoas que nunca participaram no processo administrativo.

De que forma esse isolamento do governador pode prejudicar o Estado e já estamos desenhando um colapso econômico?

Isso é irreversível, o colapso econômico, o desastre já aconteceu e eu acho que as medidas econômicas estão sendo tardias. Como em Santa Catarina, por exemplo, onde a folha de pagamento do executivo estadual é de R$ 1,1 bilhão por mês. Se for levar para todos os municípios, você multiplica isso.

O  que vai resolver o problema são os recursos e recursos públicos, não é certo que só o recurso privado pague essa conta

Pegando a folha da Assembleia Legislativa e todos os legislativos e no judiciário, você tinha que ter o enfrentamento com economia, como na França. Podendo economizar R$ 100 milhões por mês. Porque o  que vai resolver o problema são os recursos e recursos públicos, não é certo que só o recurso privado pague essa conta.

Já que entramos na área da economia, como o senhor vê o pós-pandemia? O estado pode se recuperar rapidamente?

Não. Há 15 anos, eu estive em Hiroshima, no Japão, que foi devastada pela bomba atômica. Lá tem um memorial mostrando esse desastre que a humanidade proporcionou. Mas a cidade se reergueu e é pulsante novamente. Santa Catarina, claro que sem comparar a devastação de Hiroshima, mas vamos nos recuperar. Santa Catarina já mostrou sua capacidade de recuperação, como um povo trabalhador, mas não vai ser em um prazo curto que vamos nos recuperar.

Santa Catarina já mostrou sua capacidade de recuperação, como um povo trabalhador, mas não vai ser em um prazo curto.

Avaliação do atual governo estadual

Sobre a situação de impeachment, o senhor acha que é o momento ou que na verdade não tem como fugir dessa circunstância?

Me perguntaram sobre isso no mês passado e eu disse que não era momento porque a pandemia estava começando. Agora, os fatos são mais graves. Então, na segunda-feira (11), fizemos uma reunião com deputados e senadores e tivemos uma posição atualmente crítica por parte da Assembleia Legislativa. Claro que não vão julgar antecipadamente, mas os dois deputados que fazem parte da CPI não se furtarão na opinião, eles não tem compromisso em inocentar o governador, se tiver culpa, a conta será paga.

Futuro de Santa Catarina

A partir daí, o que pode acontecer no nosso estado?

Isso realmente é um grande ponto de interrogação. Mas se houver culpa, haverá punição e as consequências teremos que arcar e conviver com elas. Por isso, não quero fazer um pré-julgamento agora, mas claro que a CPI, Ministério Público e o Gaeco vão mostrar se houve culpa e envolvimento do governador.

Com sua experiência como governador, de repente, até que ponto o Moisés não se permitiu a isso acontecer?

Apenas a inexperiência e falta de preparo, não existe licitação de milhões e nenhuma compra que  saia sem o visto do governador. A forma que ela foi feita (compra dos 200 respiradores por R$ 30 milhões) foi extremamente suspeita.

Existe a incerteza em relação ao vírus, mas a grande angustia é o emprego, o negócio, o dia de amanhã e o pós-pandemia. O senhor teria alguma sugestão para auxiliar uma união de esforços em benefício ao estado?

Quando houve a greve de caminhoneiros, eu era o governador. Tínhamos uma reunião diária que envolvia todos os órgãos importantes. Todo mundo participava e todos opinavam e, no fim do dia, o governador tomava uma decisão. Eu acho que temos que juntar esforços.

Nós temos o setor produtivo de SC que é exemplar ao Brasil todo e por isso temos que ouvir a CDL, Fiesc, Facisc, Fecomércio, FCDL… eles serão fundamentais para as decisões, não somente o secretário da Fazenda, que é bastante competente e que conhece como poucos.

Mas ele é arrecadador, nós temos que ouvir quem paga e fazer esse encontro de contas para vencer essa crise com rapidez. Não será fácil, mas a conta não deve ser paga apenas pela iniciativa privada, o setor público também tem que pagar e quem é o único que produz dinheiro? O governo federal.

Nós temos que aumentar a base monetária porque as pessoas não vão gastar, mesmo que tenha dinheiro, elas vão guardar por causa da incerteza. Então, podemos ter inflação baixa e talvez uma deflação e isso teremos que discutir de forma intensa e quero dizer que o poder público tem que economizar. E olhar para a folha de pagamento que mais representa o custo, em todos os níveis de poder e inevitável reduzir a máquina, não sairemos sem um redirecionamento da área publica, não há mais como conviver com isso.

Nós temos que ouvir quem paga e fazer esse encontro de contas para vencer essa crise com rapidez.

O Poder Público está se mostrando importante com o setor da saúde, o governo federal esta com mudanças da legislação trabalhista permitindo suspensão temporária de contratos e jornada com redução de salário. Mas só a iniciativa privada? Temos mais de 400 mil desempregados na área privada e na área pública nenhum? Então essa discussão tem que ser feita porque a população não vai aceitar isso gratuitamente.