Visão Catarinense: Presidente da Fiesc, Mario Cezar de Aguiar, sugere medidas para atravessar crise financeira

Entre os momentos enfrentados pelo mundo, Mario Cezar de Aguiar afirma que globalização terá que ser repensada após o fim da pandemia

O presidente da Fiesc (Federação das Indústrias de Santa Catarina), Mario Cezar de Aguiar, é o entrevistado desta segunda-feira (25), para o Visão Catarinense. Em meio à pandemia que já matou mais de 23 mil pessoas, no Brasil, o País também enfrenta uma crise dentro da economia.

Mario Cezar de Aguiar, presidente da Fiesc, cobra mais medidas do Governo Estadual – Foto: Divulgação/ND

Devido a isso, milhares de catarinenses ficaram desempregados. Conforme Mario Cezar de Aguiar, a questão da globalização deverá ser repensado para o pós-pandemia afim de gerar um maior fortalecimento para a indústria local e nacional.

Confira a entrevista com o presidente da Fiesc:

Eu começo perguntando o seguinte: claro que estamos enfrentando uma pandemia e tentando preservar a saúde, mas também o pós-pandemia e significa economia, que é outra crise que se instaurou com desempregos e empresas fechando. Qual a fórmula ideal para tratar do impacto que virá?

Olha, na verdade, temos vários vírus incomodando, não só o da Covid-19, que tem dificultado o desenvolvimento do Brasil. Sabemos que a burocracia é muito forte no país. Além disso, a legislação é muito complexa e isso acaba onerando muito o custo e tira a competitividade da produção nacional.

São vários os vírus que precisamos combater, mas certamente a questão dessa pandemia está propiciando um prejuízo incalculável. É muito difícil você determinar, até porque não sabemos por quanto tempo vai permanecer e qual será o efeito negativo na economia.

Temos vários vírus incomodando, não só o da Covid-19, que tem dificultado o desenvolvimento do Brasil.

Mas estamos sentindo uma quantidade forte de desemprego, várias ações no sentido da redução da atividade econômica das empresas e isso certamente trará consequência negativas para a economia e todos sofrerão.

Então, espero que possamos encontrar o caminho, se essa é a sua pergunta, já que não existe literatura sobre a questão. A última pandemia nos moldes que, talvez, estamos enfrentando foi a gripe espanhola, há mais de 100 anos.

Então, para a gente é tudo novo, difícil de entender e esperamos e estamos confiantes na recuperação da economia de Santa Catarina, porque temos o espírito de que o empresário catarinense é empreendedor, não é de reclamar, mas de arregaçar as mangas e buscas soluções.

Então, por conta de disso, de ter uma economia diversificada, indústria forte no estado nós esperamos e temos a crença que Santa Catarina será um dos primeiros estados do País a sair dessa pandemia.

Aqui temos forte o agronegócio, a indústria… e a crise atingiu o planeta. Com países exportadores, isso vai ter um impacto muito grande. Qual a fórmula adequada para superar?

Olha, no aspecto da exportação o Brasil ainda é favorecido, porque nós exportamos produtos primários, notadamente produtos da base alimentar, o que é fundamental, porque é uma necessidade, então isso não prejudica muito a questão nacional.

Mas se nós voltarmos a Santa Catarina, o estado tem uma indústria fortalecida. Então, também tem vantagem com relação a isso. Mas a indústria de Santa Catarina é responsável por 34% dos empregos formais.

Então, somos o segundo estado do país com a indústria mais presente e precisamos preservar essa atividade, com o detalhe de que SC produz mais do que consome.

Para que possamos melhorar a atividade econômica é fundamental que os outros Estados também se recuperem rapidamente. Porque não adianta estarmos bem se os outros estados não recuperaram porque não vão consumir os produtos catarinenses.

A participação no comércio exterior é importante, mas não sustenta a economia catarinense, porque nós temos uma falta de competitividade forte pelas razões que coloquei, pela baixa qualidade de infraestrutura, burocracia elevada, pela carga tributária elevada, legislação complexa que exonera a produção.

Para que possamos melhorar a atividade econômica é fundamental que os outros Estados também se recuperem rapidamente.

Então, são vários fatores negativos para o setor produtivo catarinense e brasileiro para competir com o mercado internacional. Se olharmos para a corrente internacional de comércio de SC, o destino das exportações catarinenses são China ou Estados Unidos. São países altamente competitivos. Santa Catarina tem um setor industrial forte, mas que fica prejudicado por essas questões negativas.

O índice de desemprego é altíssimo e estamos com quase 530 mil desempregados e aumentando. Quase 10% da população catarinense está desempregada e a tendência é aumentar ou dá para frear isso?

Olha, a massa salarial de SC é de 2,5 milhões de habitantes. Quando somamos os demitidos, diminuição de jornada de trabalho e com cancelamento de contratos, nós temos uma quantidade de 1,3 milhão de pessoas.

Cerca de 63% da mão de obra formal de SC foi afetada de uma forma ou de outra por essa pandemia. Nós precisamos encontrar mecanismos, e aí eu faria uma colocação: nós tivemos um apoio forte do governo federal, talvez não que precisasse, mas o governo acenou com duas medidas provisórias importantes para a preservação dos empregos, que é a 927 e a 936. Assim, da mesma forma que a Caixa Econômica Federal, não da quantidade necessária, mas colocou linhas de créditos a disposição do setor produtivo.

Por outro lado, do governo do Estado nós não tivemos nenhuma vantagem no sentido de absorver esse prejuízo que as empresas estão passando. Tentamos postergar o ICMS, a Assembleia aprovou, mas o governo vetou e não há outro benefício do estado.

Cerca de 63% da mão de obra formal de SC foi afetada de uma forma ou de outra por essa pandemia.

Somente o Badesc deu uma linha de crédito no valor de R$ 50 milhões para as micro e pequenas empresas, quando a demanda só no Badesc era de R$ 550 milhões e falta um apoio maior do governo estadual na questão de apoiar a iniciativa empresarial para que possa suportar essa situação tão desagradável.

Então o senhor está me dizendo que o governo do estado está distante da situação empresarial do estado e uma situação dentro de uma crise econômica?

Falta uma ação mais efetiva do governo do Estado no sentido de conversar com o setor produtivo de qual maneira que pode, em conjunto com o setor produtivo, para mitigar os efeitos dessa pandemia. Falta um diálogo mais profundo, reuniões para definir quais ações que, em conjunto, podemos resolver essa crise.

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Falta uma ação mais efetiva do governo do Estado no sentido de conversar com o setor produtivo de qual maneira que pode, em conjunto com o setor produtivo, para mitigar os efeitos dessa pandemia.

Quais seriam os mecanismos ideais para resolver?

Sem sobra de dúvida, a maior demanda no estado é com relação a linhas de créditos para micro e pequenas empresas. Essas empresas não tem sequer suporte financeiro e econômico para suportar uma paralisação como nós tivemos e uma demanda muito baixa como temos agora.

Então, uma linha de crédito voltada para esse público, que é mais de 97% das empresas catarinenses e que empregam muitas pessoas, precisam de um suporte financeiro para suportar essa questão.

Os bancos privados não tem dado atendimento porque essas empresas não tem garantias econômicas para suportar esses empréstimo. Então, precisarão de um fundo garantidor do estado ou um apoio do governo estadual neste sentido

Como a Fiesc está vendo essa crise política que também se estabeleceu exatamente no período da pandemia, com impeachment e CPI?

Nós lamentamos essa situação quando todos em conjunto, sociedade organizada e governo, deveria estar concentrada na busca de soluções, que é problema de todos. Nós, infelizmente, estamos vendo o governo do Estado tendo que se defender daquilo que não sei se são acusações verdadeiras e tirando o foco do principal, que seria dar atendimento à população de Santa Catarina.

É um prejuízo enorme, não é uma situação boa e não é desejável. O desejável seria a harmonia entre a sociedade, governo e poderes, para que pudéssemos entrar em conjunto para achar soluções para um problema que é comum a todos.

O senhor, como presidente de uma federação, que é importante dentro do Estado, defende que já se iniciasse um trabalho para estabelecer a reforma da previdência em Santa Catarina e, em relação ao país, a reforma tributária?

O país precisa de uma reengenharia. Existem várias mudanças e é esse benefício que a crise vai mostrar para a sociedade brasileira. Por exemplo, nós somos hoje um país altamente independente da manufatura chinesa. Nós transferimos boa parte dessa manufatura brasileira para a China.

Era muito mais barato produzir na China que no Brasil e precisamos equacionar isso. Talvez, seja essa a resposta para a taxa de desemprego tão elevada, a baixa industrialização, onde nós exportávamos produtos primários que traziam divisas que usávamos para comprar produtos manufaturados e os empregos estão na manufatura,

Depois do sistema financeiro, é a indústria que paga os melhores salários. Então é importante verificar os problemas que o país tem para que possa desenvolver a atividade econômica, notadamente a indústria, que gera bons empregos, e ela gera riqueza para o país.

Esse modelos de transferir a produção para a China foi equivocado. Na verdade, deve haver no mundo a globalização, que no momento, achamos que era a solução para todos os problemas e, na verdade, foi um equívoco para todos os países colocar as principais indústrias com manufatura na China.

Esse modelos de transferir a produção para a China foi equivocado.

Essa pandemia deve gerar um novo modelo na indústria, tanto quanto um modelo de comportamento entre as pessoas. O senhor acredita que esse é o oxigênio que vamos precisar?

Nós temos grandes desafios e temos que identificar quais as tendências. É certo que o perfil do consumidor vai mudar muito, vai exigir que as empresas compreendam quais as necessidades do novo consumidor e precisamos nos adequar com a mudança comportamental que se nota agora, uma digitalização muito forte e uma dependência das pessoas mais próximas.

É uma mudança forte de comportamento e as empresas precisam rapidamente entender essas tendências e essas serão as empresas que mais rapidamente irão se recuperar.

É certo que o perfil do consumidor vai mudar muito, vai exigir que as empresas compreendam quais as necessidades do novo consumidor.