Visão Catarinense: Senador Dário Berger avalia atual escolhas do governo de Santa Catarina

Segundo Dário Berger, donos de grandes fortunas devem pagar pelo prejuízo causado durante a pandemia de coronavírus

Com uma ampla experiência na vida política do Estado de Santa Catarina e, agora, como senador federal, Dário Berger foi o convidado desta sexta-feira (22) para o Visão Catarinense.

Dário Berger agora ocupa cargo no senado Federal – Foto: Geraldo Magela/Agência Senado/ND

Além de expor sua opinião sobre a atual situação da política do Estado e Nacional, Dário avalia que a decisão inicial para combater o contágio do coronavírus foi acertada. Além disso, o senador explicou a dificuldade de cobrar donos de grandes riquezas, neste momento de crise.

Confira a entrevista com Dário Berger:

O senhor já foi prefeito de São José, de Florianópolis, o que o senhor não faria do que está feito em relação ao combate do coronavírus? 

Olha, eu posso afirmar com convicção que o momento é bem difícil. As opiniões são muito divergentes e o país se encontra muito dividido. De um lado, governadores e prefeitos que assumiram uma estratégia de combate ao coronavírus que é voltado para a ciência e recomendação das instituições, tanto nacionais como mundiais de saúde. Do outro lado, o presidente da República que diverge deste encaminhamento.

Conclusão: falta uma liderança nacional, planejamento estratégico a nível de nação, porque esse vírus se propaga rapidamente e por todos os cantos do país, de forma que precisamos ter uma ação integrada, como aconteceu em outros países, e que, infelizmente, não acontece no Brasil.

Se eu estivesse no governo, eu não exitaria entre estabelecer as medidas de proteção mais drásticas possíveis. Eu sei que esse problema é grave, e o pior, não temos remédio para combater, não existe vacina. A única vacina que temos é a do isolamento que vai dificultar a propagação. Então, vamos nos conscientizar, gente.

Nós temos quase 20 mil mortos, no Brasil [à época da gravação]. Felizmente, não chegou em Santa Catarina, Florianópolis, como chegou já em Manaus, fortaleza, Rio de Janeiro, São Paulo e outros locais.

A única vacina que temos é a do isolamento que vai dificultar a propagação. Então, vamos nos conscientizar, gente.

O senhor acha que vai chegar aqui na magnitude desses locais mais atingidos?

Não, eu acho que as medidas que foram tomadas inicialmente foram em tempo real e estão surtindo o resultado neste momento que estamos vivendo. Então, me parece, tanto o governador quanto o prefeito, agiram corretamente.

Uma crise politicamente exatamente dentro de uma pandemia, na situação dos hospitais de campanha, dos respiradores… o senhor não acredita que isso também venha prejudicar a população?

Acredito. É tudo o que nós não precisaríamos, não precisávamos e não precisamos, neste momento. É um conflito de natureza administrativa e política. O nosso inimigo, no momento, é o coronavírus. Ou seja, tudo que vem além disso, atrapalha as ações e o combate ao vírus.

O senhor acha que tem que afastar a discussão de CPI, impeachment, neste momento?

Olha, eu tenho acompanhado pela imprensa esse episódio e me parece que os indícios são graves e a repercussão é muito grande na sociedade catarinense. Eu fiquei satisfeito com a reunião que fiz com a bancada do MDB, que é a maior bancada da Assembleia Legislativa, e me disseram textualmente “nós não somos governo, não estamos no governo, nós não temos cargos no governo, não temos compromisso com o governo”.

Logo, nós somos independentes e vamos agir de forma independente que o caso requer mas, evidentemente que isso é ruim. Eu tenho muito apreço pela democracia e muita responsabilidade e esperança nas pessoas que são eleitas.

Evidentemente que uma situação dessas era tudo que nós não precisamos. Mas essa questão deveria correr paralelamente, ou seja, a cargo da Assembleia Legislativa, do Ministério Público, da Policia Civil, Tribunal de Contas e órgãos de controle que tem que fazer a elucidação e transparência desse episódio lamentável que aconteceu.

Clima no Senado

Senador, em Brasília, esses desencontros constantes estão se reaproximando novamente, mas logo deve distanciar. Esses desencontros constantes entre o planalto e congresso, também não acaba criando uma série de incertezas e prejudicando o país?

Acaba e estamos percebendo isso no dia a dia. Ou seja, uma democracia significa acima de tudo diálogo, entendimento, responsabilidade, humildade, simplicidade para poder sentar numa mesma mesa e encontrar a solução dos problemas que são diversos e que são muito difíceis de ser resolvido.

Leia também: 

É muito difícil ter esse diálogo?

Por parte do que eu percebo é o seguinte, eu tenho, vamos dizer muito gosto pelo presidente da república porque acho que deveríamos, devemos e fomos submetidos a uma ruptura do sistema que não atendia mais os anseios da população.

Dessa forma, o povo deu uma guinada que no meu entendimento, em determinados momentos, a gente busca até essa guinada meio que irresponsavelmente na esperança de que as pessoas que estão aprendendo, que nunca trabalharam diante dessa circunstancias políticas, que não tem essa convivência e experiência que pudessem resolver esses problemas num passe de mágica.

Agora um parênteses: é irresponsável essa guinada, o senhor quis dizer com o governo de Santa Catarina?

Eu quis dizer o sistema como um todo. Isso não aconteceu só agora, aconteceu no passado e também com o Collor e olha o que houve com ele. Aconteceu com a Dilma, olha o que aconteceu com a Dilma.

Agora com o Carlos Moisés e com o próprio presidente (Jair Bolsonaro) e estamos vendo o que está acontecendo. Ou seja, ao invés de fazer um plano de desenvolvimento nacional, regional e que possa coibir firmemente nossas diferenças sociais, nossas desigualdades que são muitas.

Nós temos 70 milhões de brasileiros que não se alimentam corretamente, além de 100 milhões que não tem saneamento básico. Além disso, nós temos 36 milhões que não tem acesso à água potável em pleno século XXI.

São esses problemas que temos que discutir, a questão política, o rame rame, o dia a dia, o vai lá, o Fla-Flu, a população e nem nós suportamos mais isso. Nós não queremos mais isso.

Queremos o seguinte: plano de metas, objetivos comuns e entendimento, resultados práticos, rápidos. O Brasil e Santa Catarina tem pressa e precisamos avançar neste sentido.

Planos para o futuro

Nós temos o pós pandemia, mas já estamos convivendo com o colapso na economia. O senhor está falando que o Brasil tem pressa e que precisa resolver, isso seria o encaminhamento das reformas, o encaminhamento do diferencial do Brasil para o futuro?

Olha, eu enquanto senador da República, tenho contribuído com tudo que é possível para que o governo Bolsonaro dê certo e aprovei tudo, não votei nada contra na esperança que as coisas pudessem tomar um caminho. Bem, elas não avançam como deveria exatamente por isso que conversamos, pelo Fla-Flu, pelas picuinhas políticas que são muito menores do que o Brasil, do que Santa Catarina e temos que pensar grande.

Isso quer dizer que temos que olhar para o futuro com o pé no chão e respeitando as pessoas para que a vida dela possa melhorar e não piorar como está acontecendo. Agora, com relação ao futuro do Brasil evidente que a crise, que a pandemia, no meu entendimento, nos últimos meses, semanas, alterou completamente a nossa forma de relacionarmos na sociedade.

Ela nos isolou e talvez isso seja um recado de uma sociedade que se construiu ultimamente pelo radicalismo, insensatez, desequilíbrio, falta de cooperação, pela amizade que não estamos vendo mais, pela valorização da família, dos encontros com a mãe no fim de semana e pelo dialogo permanente. Eu espero que isso possa servir de uma reflexão para nos readaptarmos e construir um novo futuro para o mundo, para o Brasil e Santa Catarina.

Esse futuro é nós que vamos construir. E com relação às finanças, na minha opinião só tem um jeito: Quem tem que pagar essa conta é quem pode, ou seja, os mais ricos. Nós não vamos poder tirar dos pobres que não tem mais. A miséria e a fome vão aumentar e isso pode se transformar numa convulsão social no futuro. Temos que ficar atentos a isso.

Eu espero que isso possa servir de uma reflexão para nos readaptarmos e construir um novo futuro para o mundo, para o Brasil e Santa Catarina.

Além disso, o momento é muito sério. No entanto, isso requer muita responsabilidade, precisa ter uma liderança muito forte. Temos que criar um fundo nacional ou internacional para que possamos também buscar, colher e receber recursos do exterior, mas um fundo de desenvolvimento estratégico das comunidades carente e mais vulnerável que não tem o que comer e nem comer no futuro.

Isso é muito grave e não tem outra forma. Mas se tirar do funcionário público, ele também já está exaurido, a não ser os grandes salários que dai eu acho que dá para pensar. Agora, as grandes fortunas, o lucro dos bancos… imagina chegar na metade do ano e verificar que o setor bancário teve R$ 80 bilhões de lucros no momento de pandemia como esses que estamos vivendo. Não é possível conviver no Brasil com isso.

Por que o senhor acha que isso não acontece, sendo que vocês estão no senado e não acontece isso?

Assim, não é por minha causa, já fiz uns 300 discursos dizendo que o maior problema do Brasil são as diferenças sociais e está expresso no artigo terceiro da constituição, são direitos fundamentais do estado brasileiro e erradicar a pobreza, marginalização, construir o desenvolvimento regional e nacional.

Onde esbarra isso?

Então, esbarra no sistema, que é um sistema ainda imperialista dominado. Qual o maior poder que existe no mundo? O poder do dinheiro, quem tem dinheiro, tem poder e quem não tem, não tem poder.

Por isso, quero ser a voz dos descamisados, aqueles que não têm no dia a dia a comida na mesa. Além disso, daqueles que não precisam autorizar o auxílio emergencial, o presidente queria dar R$ 200 de auxílio emergencial para as pessoas ficarem isoladas, comer e sobreviver.

Como? Aí naquela confusão, vem a luta contra o congresso, vem a crise contra o Congresso, ai o Congresso aumentando isso para os mais vulneráveis, o que acontece? As provas e pautas bombas.

Então, eu quero aprovar todas as pautas-bombas para socorrer as pessoas de bem desse país. Entre elas, as mais simples e mais vulneráveis e que passam muita necessidade hoje e que passaram no passado. Além de passar ainda mais no futuro.

Mais conteúdo sobre