Vítimas de assédio procuram segurança em transporte de aplicativos para mulheres

Motorista de Joinville foi pioneira no negócio em Santa Catarina. Rose Cuareli, 42 anos, criou o WD após enfrentar situações de assédio em outro aplicativo

REPORTAGEM: Andréa da Luz
EDIÇÃO: Schirlei Alves

Vista como uma oportunidade de trabalhar gerenciando o próprio horário e aumentar a renda familiar, a função de motorista de aplicativo atraiu diversas mulheres.

Embora ainda representem um percentual baixo em relação aos homens ao volante, o cenário vem mudando gradativamente e os aplicativos exclusivos para elas tem um papel relevante nesse sentido, por oferecer mais segurança no transporte.

Por isso, não é de estranhar o recente “boom” no surgimento de empresas de transporte por aplicativo focadas no atendimento das mulheres. Nos últimos dois anos, surgiram negócios como Lady Driver, FemiTaxi, Madame Driver e WD (Woman’s Driver). 

Rose Cuareli transformou as agruras diárias em oportunidade de negócios criado aplicativo exclusivo para transportar mulheres – Foto: Rose Cuareli/Divulgação/ND

Em Santa Catarina, Rose Cuareli, 42 anos, criou o aplicativo WD em Joinville, em 2018. Ela montou o negócio após trabalhar um ano e meio como motorista para outro app de transporte e passar por situações de assédio.

“Cheguei a botar um passageiro embriagado para fora do meu carro depois que ele me convidou para ir a um motel”, conta Rose.

“As cantadas acontecem o tempo todo, muitas motoristas e passageiras relatam isso. Uma cliente inclusive contou que foi assediada quando estava grávida: o motorista disse que tinha tara por gestantes e passou a mão nela”, afirma.

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O objetivo dos APPs exclusivos para mulheres é garantir uma viagem segura tanto para quem dirige quanto para quem se utiliza do serviço.

“É uma opção mais segura e a demanda é crescente. Já temos mais de 22 mil passageiras cadastradas e mais de 600 motoristas somando Joinville, Jaraguá e Florianópolis”, revela a empresária.

No último dia 9 de novembro, a plataforma foi lançada nas cidades de Itajaí e Balneário Camboriú, no litoral Norte de SC.

“As mulheres representam a grande maioria das clientes de transporte privado, mas ainda são poucas as que estão na direção. Para quem acha que o negócio é discriminatório, respondo que ele só existe porque muitos homens não sabem se comportar”, defende Rose. 

No âmbito da segurança, as corridas são monitoradas e a empresa confere os documentos de cada passageira cadastrada no aplicativo antes da liberação do cadastro. Já as motoristas passam por entrevistas e vistorias no veículo antes de serem aceitas.

Empoderamento feminino

A ideia deu certo e é elogiada por outras motoristas que trabalham com vários aplicativos. Inclusive a Janete, que já faz corridas pela WD em Florianópolis.

“Faço transporte por vários apps, mas me sinto mais segura ao transportar mulheres. Além disso, o serviço exclusivo remunera melhor a motorista e tem uma clientela que quer ser atendida por nós: são mães, pessoas idosas, e até pais que querem segurança no transporte das filhas”, afirma.

Após atuar no ramo de transporte escolar por dez anos, Janete optou pelo sistema de aplicativo há uns seis meses. Ela relata vários tipos de situações enfrentadas diariamente.

“O assédio ocorre de várias maneiras, pode ser no jeito de olhar, de falar, mas o pior sentimento é o medo. Nem todas conseguem trabalhar à noite, e quando a chamada parte de um homem a primeira reação é sempre de insegurança. Também me assusta quando a chamada parte de uma mulher, mas quem entra no carro é um homem. Nesse caso, podemos nos negar a atender”,  explica a motorista.

Janete também destaca o preconceito contra mulheres ao volante.

“Alguns passageiros querem dar ordens, até que você se imponha. Na maioria das vezes trata-se apenas de machismo. Eles nunca criticam outros homens no trânsito, mas quando é mulher dirigindo se sentem no direito. Isso é injusto, porque somos tão profissionais quanto eles”, analisa.

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“Não tive nenhum problema grave, talvez porque eu tenha um jeito mais seco. Não dá para ficar dando risada, tem que ser bem profissional, cumprimentar e pronto. Por que muitos acham que se você sorrir, já quer ir para a cama com eles”, lamenta.

Janete diz que alerta suas clientes para que relatem as conversas inadequadas dos motoristas na avaliação da corrida.

“Muitas não denunciam os assédios, por medo de que os motoristas se lembrem onde elas moram e trabalham, mas precisamos denunciar porque eles continuarão a fazer isso ”.

Janete Teixeira defende o empoderamento feminino e a denúncia dos agressores – Foto: Anderson Coelho/ND

“A passageira deveria poder escolher por quem quer ser atendida: homem ou mulher. Já a motorista não deveria ser penalizada ao cancelar corridas por questões de segurança. Ou as empresas se adaptam ou vão perder mercado, pois as mulheres representam cerca de 80% da clientela e elas certamente vão buscar opções mais seguras”, opina Janete.

Dicas de segurança das motoristas

Para quem dirige:

  • Não fique isolada. Participe de pequenos grupos de motoristas no Whatsapp e tente conhecê-los pessoalmente. Todos se monitoram e ajudam no caso de alguma ocorrência;
  • Ao sentir insegurança, sinalize o grupo;
  • Não dê espaço para conversas que não agradam;
  • Não discuta com o passageiro sobre o recebimento da corrida em dinheiro. Se ele não pagar, quem tem que resolver é a empresa;
  • Faça apenas as corridas que achar segura. A vida é mais importante do que ser motorista cinco estrelas.

Para as passageiras:

  • Sente atrás do motorista, onde você fica fora do campo visual dele;
  • Se o motorista ficar ajeitando muito o espelho interno, provavelmente está tentando ver você e vai te assediar;
  • Compartilhe sua corrida em tempo real pelo whatsapp com amigos e parentes; isso garante que, se o motorista finalizar a viagem no meio do caminho, você continue com algum tipo de rastreio;
  • Quando o motorista começar alguma conversa inadequada, tente gravar ou finja que está ligando para alguém e conte sua localização, para onde está indo e previsão de chegada;
  • Se sair em grupos, desçam todas no mesmo lugar, não deixem a última sozinha
  • Comunique ao app porque negativou o motorista, especialmente se houve algum tipo de assédio ou até mesmo uma conversa inadequada.

O que dizem as empresas

Por meio de nota, a 99 informou que investe em sistemas preventivos, ferramentas de proteção e atendimento humanizado para passageiros e motoristas, especialmente mulheres, que são a maioria das passageiras da plataforma.

Entre as ações preventivas está a inteligência artificial. Por meio de machine learning, que vasculha padrões de comportamento suspeitos em poucos segundos no ato da chamada – como o histórico do usuário na plataforma, horário e local da chamada, forma de pagamento, entre outros – são adotadas medidas automáticas, como bloqueios e confirmação de dados.

Segundo a empresa, em situações de risco, o motorista pode cancelar a corrida caso não se sinta seguro. Desde 2018, começou a implementar câmeras de segurança nos veículos, conectadas à Central de Segurança da empresa.

O apoio, segundo a empresa, ocorre quando motoristas acionam o botão físico integrado à câmera ou passageiros acionam o botão virtual no app. Quando os alertas são gerados, a câmera garante acesso às imagens em tempo real e os dados são mantidos em confidencialidade.

Além disso, condutores podem acionar o kit de segurança do aplicativo, que compartilha a rota com parentes e amigos em tempo real. A inteligência artificial também ajuda a combater casos de assédio na plataforma.

Por meio de um rastreador de comentários, as avaliações das usuárias ao fim das corridas são vasculhadas para identificar casos de assédio ou violência sexual. Atualmente, cerca de 350 palavras e contextos que podem estar relacionados a esse tipo de conduta são mapeados.

Após a detecção pelo algoritmo, uma equipe especializada faz uma segunda checagem sobre detalhes da ocorrência. A 99 afirma ainda que não tolera esse tipo de violência e adota medidas que podem incluir o bloqueio definitivo do motorista ou passageiro, o suporte para investigação policial e informações sobre suporte psicológico e jurídico, caso necessário. Em caso de assédio a uma mulher, o atendimento é feito exclusivamente por mulheres. 

Outros recursos incluem:

  • opção de o motorista escolher não receber pagamento em dinheiro, e receber informações sobre o destino, a nota e frequência de chamadas do passageiro. 
  • O app pede ao passageiro que inclua CPF ou cartão de crédito antes da primeira corrida.
  • Oferecimento de cursos online e presenciais para todos os motoristas, com módulos sobre combate ao assédio e à LGBTQfobia
  • Câmeras de segurança durante as corridas, disponível para motoristas das cidades de São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Goiânia, Salvador, Fortaleza e Manaus. Deve ser expandido para todo o Brasil. 
  • Central telefônica emergencial com profissionais especializados, 24 horas por dia, 7 dias por semana para atendimento pós corridas. Pode mandar um veículo para alguém que tenha sido deixado em uma região remota, por exemplo. 
  • Motoristas e passageiros estão cobertos por um seguro contra acidentes pessoais, desde o aceite até a finalização das corridas.
  • Em casos de assédio, o atendimento é feito exclusivamente por mulheres.
  • Passageiros e motoristas assediados devem comunicar a empresa, por meio de seu app, ou no telefone 0800-888-8999.

Já a Uber, também por meio de nota, afirma que considera inaceitável e repudia qualquer ato de violência contra mulheres. Recentemente, reforçou o compromisso de fortalecer ações de enfrentamento à violência contra a mulher, destinando R$ 5 milhões nos próximos cinco anos a projetos junto a ONGs que são referência no assunto na América Latina.

Atualmente, a empresa está presente em mais de 100 cidades brasileiras, com mais de 600 mil motoristas parceiros. Desses, apenas 6% (3.600) são mulheres. O número de usuários do sistema ultrapassa 22 milhões de pessoas.

De acordo com a plataforma, o atendimento a motoristas parceiras e às usuárias vítimas de violência foi revisto, tornando-os mais empáticos e eficientes e incentivando o encaminhamento de casos às autoridades competentes. Os números de denúncias não foram divulgados. 

No mês passado, a empresa também anunciou a ferramenta U-Elas, que permite que mulheres motoristas recebam somente chamadas de passageiras. O recurso está sendo testado em Campinas, Curitiba e Fortaleza, e deve ser expandido em 2020.

Entre as ações voltadas à segurança, estão o registro das viagens por meio de GPS, o compartilhamento do trajeto com amigos e familiares, e uma equipe de resposta a incidentes disponível 24 horas, diariamente, direto do app ou por telefone.

Novos recursos anunciados no início de novembro:

  • ferramentas de gravação de áudio no aplicativo e verificação de documentos de usuários
  • recurso de senha/ultrassom para ajudar o usuário a verificar sua viagem
  • aprimoramento no recurso de selfie do motorista, que pede a ele que realize movimentos antes de checar a foto de identidade
  • ferramenta de checagem de rota, que dispara mensagens quando há uma parada muito longa não prevista na viagem
  • opção de reportar um problema ainda durante a viagem.

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