4 soluções que reduziram em 85% as mortes por Covid em favela do RJ

ND+ entrevistou o infectologista Fernando Bozza, um dos maiores cientistas da Fiocruz e pesquisadores da medicina brasileira

Comunicação + vigilância + atenção + gestão =  menos mortes. Equação encontrada por cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ONGs, empresas apoiadoras e a própria comunidade para reduzir o número de mortes por Covid-19 no maior conjunto de favelas do Estado do Rio de Janeiro: complexo da Maré.

Só a Maré conta com 140 mil moradores, população maior que 96% dos municípios brasileiros individualmente. Manguinhos, comunidade próxima, soma mais 36 mil pessoas.

Em julho de 2020, um projeto chamado “Conexão Saúde: de olho na Covid” começou a atuar de forma coordenada na comunidade com objetivo de conter o avanço da pandemia e salvar vidas em um local de alta vulnerabilidade social. 

No período anterior à implementação do Conexão Saúde, a taxa de mortalidade da Maré era praticamente o dobro da taxa da cidade do Rio de Janeiro, sendo esta uma das mais altas do país.

Após 15 semanas de funcionamento do projeto, essa taxa caiu significativamente, chegando a valores semelhantes à taxa média do país e inferiores à da cidade do Rio de Janeiro. A proporção de mortes por coronavírus caiu de 19% para 2,3% na Maré. 

De julho do passado até agora, a redução na mortalidade na Maré foi de 85,5%, como revela a tabela abaixo. É possível notar também que mais do que dobrou o número de notificações. 

Conexão Saúde é resultado da união de esforços da Fiocruz, Saúde Alegria e Sustentabilidade Brasil (SAS Brasil), Redes da Maré, Dados do Bem e Conselho Comunitário de Manguinhos e União Rio.  

O ponto central disso tudo partiu do entendimento da falta de informação direta e clara à população que vive em áreas vulneráveis. Além das falhas na comunicação em campanhas de saúde, que muitas vezes não chega a quem precisa, há disseminação de fake news. 

cartazes informando sobre covidBanners foram colocados em locais estratégicos, como postos de saúde, para tirar dúvidas da população- Foto: Fiocruz/Divulgação ND

Aí que entra o primeiro eixo do programa: Comunicação.  Em uma linguagem simples, direta, informação de qualidade chega à população de várias formas: influenciadores digitais locais são convidados a dialogar com os moradores; boletins semanais trazem dados sobre a Covid-19 e entrevistas com temas relevantes como variantes e a doença entre jovens; flyers, cartazes, banners, faixas fixados em locais estratégicos da comunidade tiram dúvidas e orientam população. Grupos de whatsapp também são usados para propagar notícia que educa e salva.

O segundo eixo é o de Vigilância. É um aplicativo chamado “Dados do Bem” que usa algoritmos de inteligência artificial para identificar pessoas com sintomas, fazer a gestão da testagem e entregar resultados. 

O morador baixa o aplicativo no celular e preenche os dados solicitados. Se for detectado risco de Covid-19, um QR Code é gerado e a pessoa pode ir ate o local de testagem fazer o exame. Em 24 horas, receberá o resultado  no celular. Quem não tem acesso a celular pode ir diretamente a um posto de testagem. 

O aplicativo ainda gera mapas indicando onde estão os casos positivados e o morador pode indicar até cinco pessoas do círculo próximo para irem fazer o teste de coronavírus.

Todos os casos positivos são notificados e passam a compor os dados oficiais do Painel Rio Covid-19. “Dessa forma, é possível reduzir a taxa de subnotificação e ter um conhecimento mais claro da pandemia na Maré”, explica o infectologista Fernando Bozza, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, integrante do Comitê Gestor do Conexão Saúde e idealizador da iniciativa Dados do Bem.

Chegamos ao terceiro eixo: Atenção. Após testar positivo, o morador é convidado a participar do Programa de Isolamento Domiciliar Seguro. Recebe a visita de uma assistente social que irá checar as condições da moradia e repassar orientações de como fazer o isolamento de forma adequada para não contaminar os outros moradores, visto que a maioria das casas é muito pequena.

“Mostramos que dá para fazer isolamento na favela”, atestam os responsáveis pelo Conexão Saúde. 

Kits de higiene e saúde são entregues a moradores da comunidade  – Foto: Fiocruz/Divulgação NDKits de higiene e saúde são entregues a moradores da comunidade  – Foto: Fiocruz/Divulgação ND

O morador também recebe kits de higiene (com máscara álcool em gel) e limpeza. Ainda disso, terá à disposição o serviço de telemedicina, atendimento online que permite tirar dúvidas, acompanhar a evolução dos casos, evita agravamento e, quando necessário, direcionar o paciente para serviços de maior complexidade.

Na telemedicina, ainda há oferta de outras 17 especialidades médicas, respondendo às demandas reprimidas em função da redução do atendimento nas unidades de saúde por conta da pandemia. 

Além de médicos, há psicólogos que ajudam a cuidar da saúde mental. E quem precisar ainda recebe alimentação (marmita).

Entrega de quentinhas a moradores que tiveram de ficar em isolamento sem poder trabalhar  – Foto: Fiocruz/Divulgação NDEntrega de quentinhas a moradores que tiveram de ficar em isolamento sem poder trabalhar  – Foto: Fiocruz/Divulgação ND

Alguns números

  • Mais de 12 mil pessoas testadas.
  • Mais de 6 mil quentinhas distribuídas.
  • Mais de 300 professores testados.
  • 2.400 consultas de saúde mental.
  • 3 mil consultas de Covid-19 via telemedicina (pacientes em acompanhamento)

O quarto eixo é Gestão, que reúne e delibera sobre as informações de todas as instituições que participam do Conexão Saúde e faz uma ponte com o Sistema Único de Saúde (SUS), com objetivo de fortalecer, apoiar e complementar suas ações, além de formar uma rede de cuidados integrada.

“Informações da Vigilância, por exemplo, são repassadas para a telemedicina e a saúde de atenção primária da Prefeitura. Com esse conjunto de ações, aumentamos a testagem e conseguimos deixar as pessoas em isolamento”, acrescenta Bozza.

As escolas também são parte ativa desse grande projeto, replicando informações e o conceito dos quatro eixos. Materiais de orientações são preparados e divulgados dentro e fora das salas de aula. Professores foram testados, houve escola fechada por surto de Covid-19, mas sempre com uma rede de apoio e muita informação.

“Criamos esse modelo para mostrar como pode ser feito, como as coisas podem funcionar de forma integrada. Queremos dividir esses ensinamentos com o SUS  como a capacitação dos agentes comunitários, práticas de testagem dentro dos postos usando aplicativos, telemedicina, entre outras ações”, pontua o pesquisador da Fiocruz.

“Há soluções possíveis e factíveis e dependem de comunicação clara, direta, baseada em informações científicas. Essas ações incluem testagem em massa e acesso a condições de isolamento, além de suporte social.”

Lições que podem ser replicadas

Como a pandemia continua, o Conexão Saúde quer ampliar as ações e garantir o aprofundamento dos eixos de atuação, buscando atingir públicos e perfis que ainda não tiveram contato com o projeto.

Fato é que a iniciativa foi capaz de criar respostas para o período da pandemia em um território com uma grande população e com muitas complexidades. Por isso, essa experiência tem potencial de ser replicada em outras localidades brasileiras, servindo de inspiração para a criação de modelos de vigilância em regiões de vulnerabilidade social. 

“Se existiu um denominador comum nas várias ações desenvolvidas pela Redes da Maré durante a pandemia, este foi o envolvimento de moradores, parceiros e trabalhadores em uma resposta conjunta aos desafios impostos pelo momento. Foi desta sinergia que a organização resolveu buscar apoio para um projeto voltado para a área da saúde. A Fiocruz, parceira histórica da organização e importante ator na construção da atenção primária na Maré, reuniu um conjunto de organizações que, de forma coordenada, pudesse desenvolver ações de controle, testagem e atenção à saúde e responder às necessidades impostas pela pandemia no território.” Projeto Conexão Saúde

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