Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


A desinformação de grife

Uma usina de manchetes criativas vai substituindo candidamente, dia após dia, a ciência pela propaganda

A seita do vacinismo segue avançando com grande ferocidade e sem vestígios de inibição. Uma usina de manchetes criativas vai substituindo candidamente, dia após dia, a ciência pela propaganda. Tudo normal.

No fim de semana que passou, por exemplo, o Twitter estava trazendo a seguinte “notícia”: “Mesmo quem já teve covid-19 precisa se vacinar, alertam especialistas”.

Rio promove o Dia D da Campanha de Multivacinação em crianças e adolescentes. – Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil/NDRio promove o Dia D da Campanha de Multivacinação em crianças e adolescentes. – Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil/ND

É muito bom ter sempre especialistas à mão – assim mesmo, no plural genérico, que é o estado da arte das fake news de grife. Trata-se de uma entidade que serve para esquentar “cientificamente” qualquer refrão que eu queira espalhar. Por que eu quero? Porque sim.

As santidades ocultas por trás desses especialistas que o Twitter ofereceu à sua comunidade, por exemplo, querem vacinar geral sem ter que pedir a bênção da ciência. Sem ter que prestar contas à medicina. Sem ter que falar sério sobre imunidade. Sem ter que contemplar riscos ainda em estudo. Por que querem? Porque sim, e você não tem nada com isso.

Não existe nada nem próximo de um consenso científico atestando que qualquer das vacinas de covid em aplicação no mundo proporcione uma imunidade superior à imunidade natural de quem passou pela doença. A maioria dos estudos com referências acadêmicas reconhecidas – não dos “especialistas” –indica que a imunidade natural do ser humano para covid tende a ser superior a qualquer imunidade induzida.

O senador norte-americano Rand Paul interpelou em audiência no parlamento o chefe do serviço nacional de Saúde, Xavier Bezerra, sobre essa questão.

O senador perguntou ao representante do governo se ele queria pedir desculpas aos cidadãos norte-americanos por ter classificado de forma pejorativa (“terraplanistas”, etc) aqueles que já haviam passado pela covid e escolheram não se vacinar.

Paul, que é médico, perguntou a Bezerra, que é um burocrata, se ele tinha conhecimento dos estudos indicando no mínimo a equivalência e eventualmente a superioridade da imunidade natural sobre a induzida. O burocrata silenciou. Mas se figuras de altas patentes como Xavier Bezerra agem com tal desinibição ao arrepio da ciência, não serão os propagandistas de rede social que terão algum tipo de constrangimento.

A “notícia” no Twitter prosseguia assim: “A vacina contra acovid-19 é recomendada para todas as pessoas, inclusive quem já teve a doença, declaram especialistas. Uma pessoa infectada com a doença deve esperar um mês para poder se imunizar”.

Como você notou, o verbo “imunizar” ganhou um significado novo. Os seus bons e velhos anticorpos naturais caíram em desuso. Saíram de moda. Mas essa desinibição ostensiva do lobby ainda terá serventia – especialmente quando chegar o dia de identificar quem pagará essa conta.

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