‘A espera é angustiante’, diz filho de catarinense que morreu no ES

Corpo de Devenildo Simão dos Santos saiu do ES de carro na manhã desta sexta-feira (26) e deve levar mais de 24 horas para chegar a Chapecó

A última vez que Gelson Simão dos Santos, de 32 anos, viu o pai, Devenildo Simão dos Santos, de 67 anos, foi em um leito improvisado na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) em Chapecó, no Oeste de Santa Catarina. “Ele me pediu para tirar a máscara de oxigênio dele porque não aguentava mais aquilo”, lembrou o filho.

Devenildo Simão dos Santos, de 67 anos, morreu na última quarta-feira (24), no Espírito SantoDevenildo Simão dos Santos tinha 67 anos. – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

Devenildo deu entrada no UPA, com sintomas da Covid-19, pela primeira vez no dia 24 de fevereiro. Foi atendido, mas liberado para voltar para casa. No dia 25 retornou novamente com febre, dor no corpo e falta de ar.

Foi internado e permaneceu na Unidade de Pronto Atendimento por 8 dias, até ser transferido, no dia 4 de março, para o Hospital Estadual Dr. Jayme Santos Neves, no município da Serra (ES), região da Grande Vitória, onde deu continuidade ao tratamento contra a Covid-19. Ele foi o segundo catarinense a ser transferido para o estado capixaba.

No período em que esteve na UPA, teve alguns contatos com a família por vídeo chamada. “Ele viu e falou com os três netos e cada vez que os via se emocionava. Era muito apegado com eles. As crianças tentavam motivá-lo e diziam que logo ele voltaria para casa e ele estava confiante nisso, sempre foi um homem forte”, contou o filho.

Quando a família recebeu a notícia da transferência para o Espírito Santo, o sentimento foi de esperança afinal, Devenildo receberia todo o suporte e atendimento em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva). “Até ficamos aliviados porque ele estava em um leito improvisado. No dia que ele foi intubado na UPA ele quase teve uma parada cardíaca. Então, sabíamos que lá o atendimento seria melhor”, afirmou.

Quadro de saúde apresentava melhora

Durante os 21 dias em que esteve no Hospital Estadual Dr. Jayme Santos Neves, as informações sobre o estado de saúde eram repassadas por ligações telefônicas. “Sempre que falávamos com os médicos eles diziam que ele estava evoluindo bem e que o pulmão dele estava quase limpo. Não entendemos como de uma hora para outra ele morreu”, lamentou Santos, que é filho único.

Devenildo foi transferido para o Espírito Santo no dia 4 de marçoDevenildo chegou ao Espírito Santo no dia 4 de março. – Foto: CBMSC/Divulgação/ND

A morte ocorreu na última quarta-feira (24), por volta das 5h da manhã, mas a informação só chegou aos familiares por volta das 14h30.  A causa da morte, de acordo com o filho, foi uma parada cardíaca.

“Nós ligamos para o hospital era 8h30 da manhã e não nos informaram que ele havia falecido, apenas nos disseram que ligariam mais tarde. Ficamos sabendo da morte dele apenas às 14h30”, relatou.

Segundo ele, um dia antes da morte do pai, na terça-feira (23), os familiares não receberam notícias sobre o estado de saúde. “Chegamos a ficar dois dias sem informação alguma, mas nós sempre ligávamos para tentar saber como ele estava. Temos certeza que os médicos fizeram de tudo para salvar, mas em alguns momentos ficamos sem saber o que estava acontecendo por lá”.

Corpo volta a Santa Catarina de carro

O corpo de Devenildo deixou o estado capixaba na manhã desta sexta-feira (26), dois dias após a sua morte, com destino a Chapecó. O translado  está sendo feito por um carro funerário contratado pela SES (Secretaria de Estado da Saúde).

O percurso do município da Serra até Chapecó é de 1.852,4 km e deve levar cerca de 25 horas. A previsão é de que o corpo chegue ao município do Oeste catarinense na noite deste sábado (27) ou, ainda, no domingo pela manhã (28). Ele deve seguir diretamente ao Cemitério Jardim do Éden para o sepultamento.

“Não aguentamos mais essa angústia pela espera. Já foi difícil ele morrer longe da gente e agora ainda temos que aguardar tanto tempo para podermos nos despedir”, comentou o filho.

Segundo a SES, o translado do corpo ocorre via terrestre porque a aeronave Arcanjo 02, do CBMSC (Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina), está em outras operações e com alta demanda, por isso não poderia trazer o corpo para Santa Catarina.

Mesmo assim, a família não se conforma com a situação e não compreende os motivos para o translado ocorrer de carro. “Chega a ser injusto. Na hora de levar ele foi de avião e em quatro horas estava no Espírito Santo, mas agora vai demorar mais de 24 horas para chegar aqui. Já estamos há dois dias vivendo essa dor, queremos apenas dar um descanso merecido ao meu pai”, disse.

“Um homem batalhador e íntegro”

Devenildo era natural de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, mas há mais de 40 anos escolheu Chapecó como lar. Aposentado há cerca de 8 anos, Devenildo trabalhou por 23 anos na BRF (Brasil Foods) e sempre ensinou ao filho, e a família, os valores da vida.

“Ele era um homem batalhador e íntegro. Sempre ensinou a fazer o certo, era justo e correto. Honesto e dedicado à família. Jamais vou me esquecer tudo que ele ensinou. Nada poderá apagar o que ele fez aqui na terra, foi uma pessoa muito boa”, relatou o filho.

Devenildo deixa um filho, a nora, a esposa e três netosFilho único de Devenildo, Gelson Simão dos Santos com a esposa e dois de seus filhos. – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

Pescar e estar em contato com a natureza, no interior, eram as grandes paixões de Devenildo, depois, claro, da família, que foi o maior amor de sua vida.

Além do filho, Devenildo deixou a esposa Divercinda Ramos dos Santos, de 65 anos, uma nora, os três netos, dois meninos de 11 e 3 anos e uma menina de 8. Ele também deixa 8 irmãos.

Apesar de toda a dor e sofrimento causados pela falta que ele deixará, a família tem certeza do legado que será eternizado. “O que fica é a saudade da presença dele, mas só temos boas lembranças, o amaremos para sempre”, finalizou Santos.

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