Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


A pandemia do cleptovírus

O mundo se revela impotente, desarmado e desorientado, diante de um vírus como o corona que aterroriza a humanidade e espalha o luto por todo o planeta

Toda vez que o homem sucumbiu ao vício da corrupção, Deus enviou alguma praga para fazê-lo reconhecer suas fraquezas e a fugacidade da própria vida – espécie de “concessão” por tempo limitado. Houve época em que a besta do Apocalipse foi a peste bubônica, assombrando as cidades pecadoras de Sodoma e Gomorra.

Novo coronavírus – Foto: PixabayNovo coronavírus – Foto: Pixabay

Houve a peste negra na Roma de Nero e a febre espanhola no Brasil da Primeira República. Já a “febre” dos contratos superfaturados, dizem, começou com a construção de Brasília. Com a superinflação, chegou a praga da “aditivite”.

Não há contrato entre o poder público e seus contratados que não traga, “embutido”, o xarope do “estica-e-puxa”, fermentando a conta da obra e a indefectível “propina”. Que doença é essa que invade o organismo dos que lidam com dinheiro público? Seria uma comichão? Uma urticária? Uma febre deformadora do caráter? Uma gripe roedora de carteiras?

De repente, o mundo se revela impotente, desarmado e desorientado, diante de um vírus como o corona, microorganismo que aterroriza a humanidade e espalha o luto por todo o planeta.

Tão grave quanto esse vírus letal é a pandemia de corrupção, desvio de caráter que se aloja na célula de certos poderosos dos executivos, do legislativo e da administração da justiça. Comprar qualquer coisa dentro desta atmosfera – seja um respirador ou um tubo de oxigênio – inaugura o “regime” da mão boba.

Uma tabela de preços vigora desde sempre: se é para um particular, pessoa ou empresa, é um preço “normal”. Se o cliente é o governo, pronto: é superfaturado. A “terceira mão”, que paga o ágio, é a mesma que recebe o vil metal da propina.

Desde que Alexander Fleming descobriu a penicilina, em 1928, a ciência de Hipócrates imaginava ter encontrado o caminho para todas as curas – e o próprio atalho para a imortalidade.

A engenharia do gene é a mais desenvolvida do mundo. Mas por que a medicina não consegue isolar todos os tipos desse vírus e suas variantes, deles extraindo uma vacina eficaz e universal? Talvez porque os vírus sejam tão mutantes quanto o caráter dos cleptocratas do Brasil. Nem todo o esforço da sociedade, ameaçada por essa nova doença, o “cleptovírus”, parece ser capaz de erradicá-la.

Se nem todas as vacinas existentes resolvem, neutralizando esse vírus, o paciente chamado “Brasil” ainda passará muito tempo – talvez anos – tendo que conviver com os males do bicho virulento, cujos principais sintomas são: A compulsão para apropriar-se do que é público e ainda administrar a mais misteriosa das sociedades “dos contratos secretos”, comandados pela propina, em cujas estufas germina a mais nova “febre” dos governos perdulários. O “coronavírus” da corrupção.

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