Mosquito Aedes aegypti é o inimigo número um das autoridades de saúde

O coordenador do Programa de Controle da Dengue da Vigilância Epidemiológica de SC, João Fuck, fala sobre o combate a dengue, zika e chikungunya

Flávio Tin/ND

João Fuck afirma que a população precisa ser “muito parceira” para combater o mosquito

João Fuck é formado em enfermagem pela Udesc, em 2009. Tem mestrado em planejamento territorial e desenvolvimento socioambiental, também pela Udesc. Atuou como enfermeiro em programa de saúde da família nos municípios de Lages e Canelinha. É coordenador do Programa de Controle da Dengue da Vigilância Epidemiológica de SC desde o início do ano passado. 

Nos últimos meses, o Aedes aegypti virou o inimigo número um das autoridades de saúde do país. Além da preocupação com os casos de dengue, há agora um risco triplo, que também envolve a Zika e a Chikungunya. Com 28 municípios considerados infestados, de acordo com critérios técnicos que levam em conta a identificação de focos do mosquito, Santa Catarina está bem melhor do que outros Estados, mas não imune a disseminação das doenças. Nesta entrevista, João Fuck, coordenador do Programa de Controle da Dengue da Vigilância Epidemiológica de SC, fala sobre o trabalho preventivo que vem sendo realizado no Estado, os principais desafios e a necessidade de parceria da população.

Qual a prioridade da Vigilância Epidemiológica neste momento?
Implantamos nossa sala de situação no dia 16 de dezembro e montamos um plano de ação. Já vínhamos desenvolvendo ao longo do ano algumas ações de rotina, mas chegou um momento em que precisávamos intensificar o trabalho, justamente em função do aumento dos casos de microcefalia e introdução de duas novas doenças: a Chigungunya e a Zika. Esse plano de ação é para trabalhar com os 28 municípios infestados, aqueles que têm a presença do vetor maior em seu território, que permite a sustentação de transmissão das doenças. O objetivo nessas cidades é fazer dois ciclos de visitas neste início do ano – dois até a meta de março e, depois, dois ciclos bimestrais, justamente para reforçar a orientação à população como a eliminação de depósitos. O mosquito precisa de água para se reproduzir. A ideia é que os municípios, com ajuda estadual e federal, possam eliminar esses depósitos para que o mosquito não tenha os locais para fazer a reprodução.

Como chegaram a esse número de 28 municípios infestados?
Em 2015, detectamos a presença do Aedes aegypti em 147 municípios. Este ano, até o dia 19, data do nosso último boletim, já foi detectado em 55 cidades. Temos como rotina no Estado trabalhar com vigilância entomológica, com o objetivo de identificar o mosquito. Armadilhas são instaladas estrategicamente nos municípios para que se consiga desencadear ações de controle, como a visita de imóveis daquela área para a eliminação de todos os depósitos e ele não tenha mais locais para se reproduzir. Temos dois indicadores para mostrar se o município passou a ser infestado, que é a disseminação e a manutenção. Quando o município identifica outros focos do mosquito daqueles identificados na armadilha, há a disseminação. Se no retorno das visitas de fiscalização, as equipes identificarem focos do mosquito em residências, a gente diz que há a manutenção do vetor.

Esse trabalho está sendo feito pelos 28 municípios infestados então
Fizeram. Isso é quando acontece a detecção do Aedes aegypti. Todos os municípios fazem essa vigilância. Se nesse trabalho forem identificados outros focos daqueles encontrados na armadilha, a gente fala que houve disseminação. Se nesse retorno, eles acharem focos do mosquito em residências, a gente diz que há manutenção do vetor. Tendo manutenção e disseminação a gente considera que aquela área é infestada. E isso é o que aconteceu em 28 municípios catarinenses. E isso também não quer dizer que todo o município é infestado.

O surgimento dos casos de doenças transmitidas pelo Aedes aegypti em todo o país significa que os municípios se preocuparam menos com a prevenção, se omitiram?
Santa Catarina ainda tem uma situação bastante diferenciada em relação a outros Estados do país, que têm todos os municípios infestados. Há anos o Estado vem fazendo um trabalho de vigilância. Mas a pressão era enorme, a gente não tinha como impedir que o mosquito chegasse a Santa Catarina. Ele chegou. E isso era inevitável. Embora a gente tenha as barreiras administrativas, não existe nenhuma barreira física. Já tem uma mudança de situação hoje em Santa Catarina, que mostra um risco de transmissão, uma preocupação maior, mas o Estado foi o último do país a ter epidemia de dengue, por exemplo.

Nos municípios que têm mais dificuldades no processo, o entrave maior é financeiro?
Não só financeira, mas tecnicamente também. No Estado, além da esfera central, temos 20 secretarias regionais com estrutura de vigilância epidemiológica. Em todas elas, temos ou biólogo ou profissionais capacitados para fazer a supervisão aos municípios.

O que preocupa mais neste momento? É o Zika vírus?
Não dá para restringir a uma doença. O perigo é triplo. No passado se falava muito que o problema era o mosquito “da dengue”. Hoje não é mais isso, é o mosquito Aedes egypti, que transmite dengue, Chigungunya e  Zika. Cada doença tem suas complicações. A dengue, por exemplo: podemos ter casos hemorrágicos, inclusive com óbitos. No ano passado, foram quase 900 mortes de dengue no país. É uma doença que ainda mata. A Chigungunya provoca dores articulares muito intensas e ela cronifica. Seis meses depois, a pessoa pode voltar a ter o sintoma, as dores, e isso vai demandar uma sobrecarga no sistema de saúde. E a Zika se mostrou associada aos casos de microcefalia.

Os casos de zika detectados nesse início de 2016 já são bem representativos em relação aos diagnosticados no ano passado. Há algum motivo de preocupação para a população?
Começamos a monitorar os casos em outubro do ano passado, até porque os primeiros casos do país surgiram em abril. Este ano temos quatro casos de Zika, todos importados. Acho que é muito cedo para fazer uma avaliação de que houve um aumento. Mostra que as vigilâncias estão sensíveis. Pelas campanhas feitas, a rede assistencial está bastante sensibilizada para detectar os casos. E isso é importante para desencadear ações de controle vetorial.

Quais as principais recomendações para a população e prefeituras para evitar a proliferação do mosquito?
Para se reproduzir, o mosquito precisa de água parada. A população tem que ser muito parceira neste momento. Não adianta o poder público fazer a sua parte – achando, por exemplo, que a situação de Santa Catarina é bastante tranquila – e não eliminar adequadamente os depósitos. E além dos pequenos depósitos, verificar, por exemplo, as caixas d’ água, que têm que estar vedadas adequadamente.

A população está mais consciente ou ainda falta informação?
Informação tem, mas a população tem que interiorizar esses cuidados. Se tinha uma ideia, e ainda se tem, que Santa Catarina não tem esse problema. É como eu falei antes: embora tenha uma situação um poucos mais favorável e tranquila em relação a outros Estados, a situação já mudou e já tem um risco de transmissão. O Estado não está livre do problema. Existe um risco.

E o Estado está preparado para enfrentar este novo quadro?
Santa Catarina vem se preparando há muito tempo, adquirindo equipamentos e capacitando pessoal. Os planos de contingência ajudam muito também, com detalhamento de todo o plano de ação no caso de chegarmos ao nível de transmissão.

Como funcionam as salas de situação?
O objetivo é integrar diversas áreas. A dengue não o é um problema, exclusivamente, da área da saúde. Demanda outros setores. A sala de situação hoje no Estado inclui Defesa Civil, Educação, Exército, bombeiros, várias áreas da secretaria de estado da saúde. E a gente tem orientado que essa mesma composição seja também replicada nos municípios, envolvendo também as secretarias de obras e meio ambiente.

A temporada de verão dificulta um pouco esse trabalho de prevenção?
É um risco a mais. Há uma chegada muito grande de turistas, pessoas que podem chegar doentes em Santa Catarina. Há uma circulação maior de pessoas. O trabalho tem que ser intensificado, tanto das visitas domiciliares quanto da orientação. Não é porque essas pessoas estão fora do seu domicílio, por exemplo, que não devem tomar cuidados.

Quem deve procurar as unidades de saúde? Quais os sintomas mais importantes?
Tendo qualquer sintoma da doença a unidade deve ser procurada. Qualquer automedicação tem que ser evitada, especialmente quando se fala em dengue, porque alguns medicamentos favorecem manifestações hemorrágicas. No caso da dengue, os principais sintomas são febres e dores musculares. No caso da Chigungunya, febre e dores articulares muito intensas. A febre não é tão comum na Zika, pode ou não aparecer: os principais sintomas são manchas avermelhadas pelo corpo, que causam bastante coceira, olhos avermelhados e dores articulares, com inchaço.

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