Agência da ONU alerta sobre linguagem ‘racista e homofóbica’ sobre varíola dos macacos

Fenômeno é semelhante ao que ocorreu no início da epidemia de HIV/AIDS, alerta médico de família

A UNAIDS, programa da ONU ao combate do vírus HIV, expressou neste domingo (22) preocupação sobre linguagem “racista e homofóbica” utilizada em reportagens e comentários públicos sobre a varíola dos macacos. De acordo com a organização, a particularidade está no uso de retratos de pessoas LGBTI e africanas, que “reforçam estereótipos e exacerbam o estigma”. O discurso, segundo o médico de família e comunidade Ronaldo Zonta, já foi reproduzido antes, no surgimento do HIV/AIDS.

UNAIDS relatou preocupação com discursos usados para tratar a doença – Foto: Reprodução/NDUNAIDS relatou preocupação com discursos usados para tratar a doença – Foto: Reprodução/ND

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), as evidências sugerem que correm risco de contrair a doença quem teve contato físico com algum infectado. Ou seja, o risco não se limita a homens que fazem sexo com homens ou ao contato com pessoas africanas, mas a todos os infectados com o vírus.

“O estigma e a culpa minam a confiança e a capacidade de responder efetivamente durante surtos como este”, disse Matthew Kavanagh, vice-diretor executivo do UNAIDS a serviços de saúde. Ele reforça ainda que este tipo de comportamento impede esforços para identificar casos e incentiva medidas punitivas ineficazes.

Solidariedade mundial

Ainda em seu anúncio, publicado no site da UNAIDS, a entidade explica que o surto de varíola do macaco ilustra que as comunidades continuarão a enfrentar ameaças de vírus. Para eles, a coordenação e a solidariedade internacionais são essenciais para a saúde pública, pois os vírus só podem ser superados globalmente.

“Este surto destaca a necessidade urgente de os líderes fortalecerem a prevenção da pandemia, incluindo a construção de uma capacidade mais forte liderada pela comunidade e infraestrutura de direitos humanos para apoiar respostas eficazes e não estigmatizantes aos surtos”, disse Kavanagh. “O estigma machuca todo mundo. A ciência compartilhada e a solidariedade social ajudam a todos”.

A ciência compartilhada e a solidariedade social ajudam a todos, definiu UNAIDS – Foto: Prefeitura de Criciúma/Divulgação/NDA ciência compartilhada e a solidariedade social ajudam a todos, definiu UNAIDS – Foto: Prefeitura de Criciúma/Divulgação/ND

Rotular algum grupo pode afastar de tratamento

“Quando se começou a traçar os primeiros casos de HIV, estes casos foram relacionados a uma rede de contatos de pessoas gays ou que faziam sexo com homens. Essa relação continuou mesmo depois da descoberta de que era por qualquer relação sexual, o que reforça o preconceito. Hoje muita gente ainda acredita nisso”, explica Zonta.

O médico alertou que esse preconceito afasta as pessoas de cuidados com a saúde. Isso porque há quem creia que a doença é restrita a um grupo específico e, se elas não são deste grupo, não têm a ver com a doença.

Este comportamento faz com que muitas pessoas não busquem tratamento ao HIV, explicou o médico.

Pessoas podem não fazer tratamento adequado por discurso ligado a preconceitos – Foto: Arquivo/Divulgação/Daiane Mayer/Age/UFSCPessoas podem não fazer tratamento adequado por discurso ligado a preconceitos – Foto: Arquivo/Divulgação/Daiane Mayer/Age/UFSC

É preciso conhecer

Zonta explica que é importante esclarecer que a varíola do macaco é transmitida por gotículas respiratórias no contato prolongado com as pessoas. A transmissão também pode ser feita por contato de outros fluidos corporais.

De acordo com o profissional, a prevenção se dá com as mesmas medidas que para Covid-19. Isolamento até que saiam todas as bolhas, uso de máscara e higienização das mãos, por exemplo. Ele alerta ainda que a varíola também pode ser transmitida por roupas e lençóis usados pelas pessoas infectadas.

+

Saúde

Loading...