Agente de saúde é a segunda indígena morta por Covid-19 em Santa Catarina

Nas terras Xapecó e Toldo Imbu, 115 casos da doença já foram registrados entre indígenas; chefe de polo relata dificuldade em manter isolamento

Semira Coito, de 44 anos, foi a segunda indígena catarinense a morrer em decorrência da infecção por Covid-19. Da etnia Kaingang, a agente de saúde morava na Terra Indígena Xapecó, em Ipuaçu, e morreu na madrugada da última sexta-feira (12).

Esta é a segunda morte de indígena registrada em Santa Catarina, sendo ambas na região Oeste do Estado, que compreende as terras Xapecó e Toldo Imbu, distribuídas nos municípios de Abelardo Luz, Ipuaçu e Entre Rios.

Com população inferior a 6 mil moradores, até a tarde desta segunda-feira (15) já foram registrados 115 casos de Covid-19 entre indígenas das localidades.

Semira deixa marido e duas filhas – Foto: Arquivo Pessoal/ND

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Antes de morrer, Semira passou 15 dias internada na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Regional São Paulo, em Xanxerê.

A trabalhadora da saúde sofria de hipertensão arterial e obesidade. Casada, ela deixa duas filhas, entre elas uma menina de 12 anos.

Contágio entre indígenas

De acordo com o polo regional da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) que atende os três municípios, apenas Abelardo Luz não teve registro do novo vírus entre indígenas.

Em Ipuaçu, o primeiro caso de Covid-19 foi registrado em 17 de maio, em uma profissional da saúde – a forma de contágio ainda é desconhecida. Já em Entre Rios, o surto começou por um morador que contraiu o vírus em um frigorífico da região.

Entre os 115 casos confirmados na região até esta segunda-feira, 81 foram registrados em Ipuaçu e 34 em Entre Rios. Neste último, Urukã, de 64 anos, morreu no dia 5 de junho, após passar 11 dias internado também no Hospital São Paulo.

Dificuldade em manter isolamento

Indígenas de quatro etnias (Kaingang, Guaranis, Xoclengues e Xetás) moram em toda a região atendida pelo polo da Sesai. Por questões culturais e sociais, além de problemas de infraestrutura, as equipes de saúde têm dificuldades para conter o vírus entre essa população.

A impossibilidade de manter isolamento domiciliar em famílias grandes que moram em casas pequenas, ou entre pessoas em situação de rua que foram contaminadas, têm sido os principais agravantes, afirma Osana Gonçalves Mendes, chefe do polo da região.

Desde a última semana a Sesai vem buscando ajuda junto a escolas e instituições religiosas, para que concedam espaços para o isolamento de infectados.

Na última sexta-feira (10), o órgão encaminhou pedido para a Coordenação Regional de Educação para utilizar o Colégio Aldeia Cacique Vanhkre, em Ipuaçu.

O pedido foi negado pela Coordenadoria Regional de Educação devido ao fato dos alunos utilizarem a instituição para recolher atividades educacionais durante a pandemia. Agora o pedido será analisado pela Secretaria de Educação Estadual e pela Secretaria de Saúde.

Na tarde desta terça-feira (16), uma igreja evangélica de Ipuaçu cedeu suas dependências para atender os pacientes contaminados com a Covid-19 na região.

Poucos profissionais

As reservas em Abelardo Luz, Ipuaçu e Entre Rios tem 5.804 moradores indígenas. A região é atendida por 104 profissionais da saúde, incluindo médicos, enfermeiros, agentes, motoristas e trabalhadores que prestam serviços gerais.

Pela falta de profissionais e adoecimento dos existentes, as equipes contam com o trabalho voluntário dos indígenas no combate à Covid-19 – fator que também tem contribuído para o aumento de casos.

Doações

Para equipar o novo local para o isolamento dos indígenas com Covid-19, o Polo Base está aceitando doações de colchões, roupas de cama, cobertores e itens de higiene pessoal.

Os itens devem ser entregues na sede do Polo Base de Ipuaçu, localizado na rua Pagnocelli 358, no Centro da cidade. O telefone de contato é (49) 3449- 0552.

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