Pandemia coloca a telemedicina como a grande inovação do setor

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Medidas de distanciamento impostas obrigaram os profissionais a inovar nas formas de atendimento. Pesquisas apontam que pelo menos 80% das pessoas que tiveram consultas virtuais pretendem continuar

“Eram duas opções: uma era parar tudo e a outra era a telemedicina. Se todos optassem por fechar, o colapso teria sido contínuo, e não pontual como foi. Portanto, obviamente, ela ajudou muito nesse momento. Eu mesmo atendi 2.800 pessoas com Covid, a imensa maioria a distância”, explica o pneumologista Antônio César Cavallazzi.

O aprimoramento foi forçado, mas o empurrão pode gerar frutos positivos para o futuro da medicina. “A telemedicina teve avanço muito grande na pandemia, em função de uma necessidade circunstancial. Ela vinha engatinhando no nosso país. Mas com a pandemia, se tornou inviável consultórios que recebem pessoas com infecção respiratória”, pondera. Mesmo com muitos pontos positivos, Cavalazzi aponta limitações que, pelo menos até agora, não conseguem ser superadas pelo atendimento remoto.

“São duas as principais: a interação médico-cliente, olho no olho, e o exame físico. Se você chega com uma dor abdominal, eu ainda não consigo decidir se o que você tem é uma abdominal aguda, ou uma simples cólica. A mão do médico faz toda a diferença”, esclarece o especialista.

Com a rotina dos profissionais de saúde completamente transformada por causa dos perigos que o contato humano passou a representar, o diagnóstico de doenças respiratórias foi reinventado. Na avaliação de Cavalazzi, apesar de estar longe de substituir a interação do médico com o paciente, a telemedicina foi uma resposta. “Aquilo que vinha engatinhando, deu um salto gigante.”

“Nada substitui a interação do médico com o paciente. Um exame físico elaborado é fundamental”, destaca. O profissional esperava ansiosamente pela volta dos atendimentos presenciais. Conversamos com o paciente antes de ele marcar a consulta, se houver a possibilidade de ser Covid seguimos pela telemedicina. Se ficar claro que não, atendemos ele presencialmente”, afirma.

“Estava morrendo de saudades de atender presencialmente, voltei no momento que teve uma baixa nos casos de Covid. Mas estou fazendo uma forma híbrida, por enquanto. ”

Antônio César Cavalazzi, médico pneumologista

O pneumologista destaca, ainda, que caso o acompanhamento pessoal da Covid-19 fosse possível, o combate à doença poderia ter sido facilitado.
“Essa doença em especial nos faz sentir muita falta do atendimento presencial, porque nós temos fases distintas: uma de replicação viral, outra de inflamação importante, etc. Com um acompanhamento de perto, o médico teria uma possibilidade muito melhor de tratar o paciente”, pontua.

Médico Antônio César Cavalazzi usa os recursos tecnológicos disponíveis no atendimento aos pacientes, mas sabe que nenhum contato virtual substitui o “olho no olho” – Foto: Anderson Coelho/NDMédico Antônio César Cavalazzi usa os recursos tecnológicos disponíveis no atendimento aos pacientes, mas sabe que nenhum contato virtual substitui o “olho no olho” – Foto: Anderson Coelho/ND

Em um mundo pós-pandemia, a telemedicina não será descartada, ressalta o pneumologista. “Não tenho dúvidas que isso deve ser aprimorado e virar uma tendência para o futuro”.
Entre vários exemplos de formas que a ferramenta pode ajudar o setor, o pneumologista cita o funcionamento já avançado no exterior como um espelho do que deve ser visto nos próximos anos.
“Nos EUA existem centrais de telemedicina, é um plantão, e acaba dando pareceres de pacientes que estão em UTI em locais a 500 km, 1000 km, tem toda uma parafernalha de comunicação (não é um simples Whatsapp), onde o médico, super especializado, discute casos com os outros médicos presentes naquela terapia intensiva. Acho que esse é o futuro, tudo isso vai ser aprimorado”, conclui Cavalazzi.

“A telemedicina foi a grande inovação no setor da saúde no último ano.”,

André Machado, CEO da AsQ, empresa que atua no setor de gestão de saúde

Conforto para pacientes e solução em meio à pandemia

A pandemia de Covid-19 acelerou a digitalização em todos os setores. Atualmente, a base de dados da instituição realiza, em média, 100 mil ligações de telemedicina por mês e, segundo André, 80% dos usuários desejam continuar usando o recurso.

Além do conforto para os pacientes, a telemedicina propicia soluções eficientes para o setor da saúde. É o que explica Rafael Figueroa, CEO e cofundador do Portal Telemedicina, plataforma presente em 400 cidades brasileiras e na África, em Angola e Ruanda.

“Cerca de 80% dos pacientes podem ser monitorados via telemedicina, portanto, de 15 a 20% dos casos realmente deveriam estar no hospital. Isso reduz filas de espera, a pressão sobre o sistema de saúde e os custos. E agora, em uma pandemia, diminui os riscos de contaminação”, lembra o empresário.

Pacientes da saúde mental também recorrem ao atendimento

A procura por atendimento médico na área de saúde mental aumentou durante a pandemia. É o que conta Rafael Amorim, psiquiatra que passou a usar o recurso das consultas on-line no ano passado.

“Houve um aumento importante de transtornos mentais, depressivos e ansiosos. Por causa disso, a procura por atendimento profissional também aumentou e acredito que a telemedicina tenha ajudado nesse ponto”, comenta o psiquiatra.

Como funciona a telemedicina:

  • AGENDAMENTO: Paciente entra em contato (por telefone, e-mail ou WhatsApp) e agenda a consulta.
  • CHAMADA DE VÍDEO: Paciente relata sintomas. Médico pede exames e já pode prescrever medicamentos.
  • RECEITAS: As receitas são enviadas por e-mail (ou WhatsApp) e o paciente adquire e utiliza os remédios conforme a prescrição.
  • EXAMES: Médico recebe de forma virtual o resultado dos exames do paciente
  • ACOMPANHAMENTO: Médico avalia os exames e acompanha evolução do quadro clínico do paciente.

Fonte: Conselho Regional de Medicina SC