Apesar de baixa eficácia da Coronavac, SC ainda não planeja revacinar idosos; entenda

Estudo preliminar indica que a eficácia da vacina varia conforme a idade, e é menor entre os mais velhos; infectologista explica os efeitos

Um estudo em fase preliminar publicado na última semana aponta que a eficácia da Coronavac varia de acordo com as idades, e cai para 28% em idosos a partir dos 80 anos. O resultado abriu um debate a respeito da possibilidade de revacinação desse grupo ainda neste ano.

A SES (Secretaria de Estado da Saúde) informou que acompanha os estudos, no entanto, ainda não pensa em planejamentos para esse tipo de ação. Na análise do infectologista e diretor da SBI (Sociedade Brasileira de Imunizações), Renato Kfouri, ainda não é hora de pensar em revacinação.

Idosos acima de 90 anos foram vacinados em casa – Foto: Chaiana Muller/PMFIdosos acima de 90 anos foram vacinados em casa – Foto: Chaiana Muller/PMF

“Nenhuma indicação que haveria essa necessidade. O estudo não fala sobre os casos mais graves, e é isso que nos interessa mais”, comenta Kfouri.

O diretor da SBI destaca que a proteção menor nos pacientes mais velhos já era esperada, e “ainda não há evidências que sinalizam que a aplicação de mais uma dose resolveria”.

A queda na proteção conforme a variação das idades é esperada para outras vacinas também, e não é um caso exclusivo da Coronavac, continua o especialista.

“É a mesma reação de todas as vacinas. Elas têm desempenho pior em pessoas menos resistentes. Os idosos envelhecem em tudo, na pele, nos órgãos, inclusive no sistema imunológico. Eles irão responder pior às doenças, e isso vale também para a Covid-19“, explica Renato Kfouri.

Sem planos de revacinação

A reportagem do ND+ entrou em contato com a SES sobre o tema, e a pasta informou, em nota, que não há planejamentos em andamento para esse tipo de providência.

“A SES acompanha os estudos e segue as orientações do Ministério da Saúde. Neste momento, a recomendação é aplicação de duas doses das vacinas disponíveis, considerando o intervalo recomendado pelos fabricantes.”

O infectologista Renato Kfouri concorda com a posição. “Não há nenhuma sinalização para que esse movimento tenha que ser iniciado, não sabemos com que ordem seria, em que momento, o intervalo, quais seriam as prioridades… Existem muitas variáveis, temos que esperar os estudos”, conclui.

A pesquisa

O estudo, ainda em fase preliminar, foi publicado na plataforma MedRxiv. Ele ainda não foi revisado por outros cientistas.

A pesquisa foi realizada pelo grupo Vebra Covid-19, que reúne pesquisadores brasileiros e estrangeiros de instituições como Fiocruz e Instituto Global de Saúde de Barcelona para avaliar a efetividade das vacinas em uso no Brasil. O projeto tem apoio financeiro da Opas (Organização Panamericana da Saúde).

Os testes de efetividade são considerados os “estudos de vida real”, ou seja, medem a taxa de proteção da vacina quando ela é aplicada em massa na população e fora do ambiente controlado de uma pesquisa clínica.

A pesquisa avaliou o desempenho da vacina em idosos de 70 anos ou mais vacinados no Estado de São Paulo entre janeiro e o final de abril, período em que a variante P.1 já era predominante.

Os cientistas analisaram dados de 15.900 pessoas com suspeita de Covid-19 (tanto testes negativos quanto positivos) para calcular a taxa de proteção, chegando à conclusão de que há redução da efetividade conforme aumenta a idade, o que, segundo os cientistas, ocorre também com o imunizante contra a gripe “e é esperado que ocorra em outras vacinas”.

De acordo com o artigo, a efetividade encontrada foi de 61,8% na faixa etária dos 70 aos 74 anos; 48,9% nas pessoas de 75 a 79 anos e de 28% acima dos 80 anos. A média de efetividade em todo o grupo foi de 42%.

Em comunicado à imprensa, o grupo Vebra esclareceu que os dados de efetividade da Coronavac contra casos graves e mortes em idosos a partir de 70 anos ainda estão em análise.

As taxas de eficácia medidas pelo grupo e citadas no estudo referem-se ao período de 14 dias depois da aplicação da segunda dose. Entre o 1º e o 13º dia após a dose de reforço, a proteção ficou em 18%.

O que diz o Ministério da Saúde

Questionado sobre eventuais mudanças no uso da Coronavac entre públicos prioritários e a eventual necessidade de aplicação de dose de reforço em idosos, o Ministério da Saúde informou que monitora os estudos de vacinas e que segue o que está na bula dos imunizantes.

Como a Coronavac está indicada para idosos, a pasta afirma que manterá a estratégia de vacinação até surgirem novas evidências.

Também procurado, o Instituto Butantan afirmou que a Coronavac “se mostrou segura e eficaz, com indicação de uso para toda a população adulta, incluindo os idosos”. Disse ainda que a vacina “não é barreira para a infecção pelo vírus Sars-Cov-2, mas reduz expressivamente o risco de uma pessoa ter a doença causada pelo vírus, evitando, sobretudo, quadros graves, hospitalizações e mortes”.

Destacou ainda que, nos testes clínicos realizados pelo Butantan no Brasil, a resposta imunológica e a segurança da vacina entre idosos foram semelhantes às verificadas no grupo menor de 60 anos.

Vale lembrar, porém, que a resposta imune é a medição de anticorpos nos vacinados e nem sempre é integralmente confirmada na análise de eficácia da vacina. Os dados de eficácia dos estudos brasileiros da Coronavac não foram divulgados por faixa etária.

Por fim, o Butantan ressaltou que os idosos correm maior risco de agravamento pela infecção e, por isso, devem se vacinar.

“É importante que as pessoas sigam tomando a vacina, conforme os esquemas adotados pelos gestores de saúde, de modo a se prevenirem contra as complicações do novo coronavírus”, destacou o instituto.

*Com informações de O Estado de S. Paulo.

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