“Aplausos não derrotarão o vírus”: mais dois médicos morrem em Santa Catarina por Covid-19

Até o momento, 510 médicos já foram afastados de suas funções por casos confirmados e suspeitos de Covid-19 no Estado

A ACM (Associação Catarinense de Medicina) comunicou a morte de mais dois médicos neste final de semana em Santa Catarina. Eles perderam a vida após complicações da infecção pelo novo coronavírus (Covid-19).

Foram eles o intensivista Nelson Luiz Barichello, 71 anos, do Hospital Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí, e a obstetra Vera Lúcia Machado Nunes, 75 anos, de Balneário Camboriú.

Nelson Luiz Barichello trabalhava na UTI do Marieta – Foto: Simesc/Reprodução

Barichello estava internado há quase um mês na UTI. Ele era professor da Univali na disciplina de Internato de Clínica Médica, além de atuar como intensivista no Marieta.

“Um grande amigo de um caráter fora de qualquer medida. Perdemos uma pessoa maravilhosa e querida por todos. Que Deus conforte a família”, disse a colega Anamar Lúcia Brancher, do Simesc (Sindicato dos Médicos do Estado de Santa Catarina).

Vera Lúcia Machado Nunes ajudou na implementação do serviço de saúde à mulher de Balneário Camboriú – Foto: Simesc/Reprodução

Vera Lúcia Machado Nunes, por sua vez, atuava como ginecologista e obstetra em Balneário Camboriú. Ela estava internada há 19 dias na UTI e, no dia 29 de julho, não resistiu à doença.

Vera trabalhou de 1994 a 2006 na rede municipal de saúde de Balneário Camboriú e ajudou na implementação do serviço de saúde à mulher na cidade.

Quatro mortos e mais de 500 infectados

Eles somam-se a outros dois médicos que morreram por Covid-19 no Estado: o geriatra Jonas Coelho Lehmkuhl, de 56 anos, do Hospital e Maternidade Tereza Ramos, em Lages, e o pediatra Gastão Dias Junior, de 52 anos, do hospital Ruth Cardoso, em Balneário Camboriú.

De acordo com a CESP (Coordenação Estadual de Segurança do Paciente), da Superintendência de Vigilância em Saúde, até o momento 510 médicos já foram afastados de suas funções por casos confirmados e suspeitos de Covid-19, desde o início da pandemia no Estado.

Muitos deles já voltaram às atividades, enquanto outros foram substituídos nas suas atividades. O relatório diário realizado pelo setor reúne dados dos hospitais da rede estadual (15), filantrópicos (68) e particulares com atendimento para a Covid-19 (42), além de outros Estabelecimentos Assistenciais – EAS (184).

“Os óbitos e os casos da doença entre médicos são motivos de imensa preocupação da ACM, que desde os primeiros pacientes do novo coronavírus, vêm lutando para proteger os profissionais da saúde, assim como a busca por condições adequadas de trabalho diante da guerra da pandemia”, disse o presidente da ACM, Ademar José de Oliveira Paes Junior.

“A segurança dos profissionais deve ser prioridade. Sem os médicos, não adianta respiradores, nem leitos hospitalares. É preciso estar atento permanentemente àqueles que estão na linha de frente do atendimento”, completa.

O Simesc denuncia a sobrecarga de trabalho dos médicos, remuneração baixa e falta de equipamentos. ”

Abrir leitos sem contratar novos médicos abre a chance de os médicos estarem mais expostos ao vírus e serem eles os responsáveis por ampliar a contaminação cruzada. Necessário enfatizar a importância de termos equipes distintas para setores distintos – e não os mesmos para tudo e todos”, diz em nota. “Somente aplausos não derrotarão o Coronavírus”, reforça.

Falta de cuidado em todo o país

O estudo “A Pandemia de Covid-19 e os Profissionais de Saúde Pública no Brasil” apresentou mais um resultado no dia 30 de julho, demonstrando que a cada três profissionais de saúde, apenas um foi testado para Covid-19 em todo o país.

A cada três profissionais de saúde, apenas um foi testado – Foto: Divulgação

A pesquisa é realizada mensalmente pelo Núcleo de Estudos da Burocracia da Fundação Getúlio Vargas junto às categorias profissionais que estão expostas, diariamente, a um alto risco de contágio da doença.

Tais números podem ser relacionados a outro índice também preocupante: o que mensura o nível de temor quanto à Covid-19.

Ao todo, 89% de agentes comunitários de saúde e agentes de combate à pandemia reconheceram sentir medo da doença, mesmo sentimento compartilhado por 83% dos profissionais da enfermagem, 79% dos médicos e 86% de demais profissionais da área de saúde.

A preocupação é justificada não só pelo contexto geral, mas porque sentem que a infecção se avizinha, já que 80% dos entrevistados declararam ter ao menos um colega contaminado pelo novo coronavírus nessa segunda fase da pesquisa.

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