Avanço de casos de varíola do macaco pode indicar início de pandemia, diz epidemiologista

Antoine Flahault afirma que nenhum cenário pode ser excluído; é possível que a transmissão entre humanos seja facilitada por uma maior adaptação do vírus

Apesar da multiplicação de casos de varíola do macaco, ainda é “um pouco cedo” para falar de uma epidemia, embora seja necessário manter a vigilância, segundo o epidemiologista Antoine Flahault, diretor do Instituto de Saúde Global da Faculdade de Medicina da Universidade de Genebra.

Sintomas da varíola do macaco podem durar até quatro semanas – Foto: DIVULGAÇÃO/CDC (CENTROS PARA CONTROLE E PREVENÇÃO DE DOENÇAS) DOS EUASintomas da varíola do macaco podem durar até quatro semanas – Foto: DIVULGAÇÃO/CDC (CENTROS PARA CONTROLE E PREVENÇÃO DE DOENÇAS) DOS EUA

“Estamos assistindo ao surgimento de um processo inusitado que ainda não está claro se vai se tornar uma explosão epidêmica ou se limitar a uma disseminação mais contida. O número de casos notificados dobrou nos três ou quatro últimos dias, o que pode indicar o crescimento exponencial de uma onda epidêmica.

Mas também cabe questionar se a recente cobertura da mídia sobre o fenômeno não encorajou os pacientes a consultar os médicos e estes a falar mais sobre o diagnóstico e notificar os casos detectados.

Portanto, ainda é um pouco cedo para falar em epidemia, mas o início de uma epidemia seria semelhante ao que se observa atualmente.”

Está surpreso e preocupado com a propagação da doença?

“O aparecimento desse fenômeno, que é novo fora da África Equatorial, deve nos deixar em alerta. Seria muito mais eficiente do ponto de vista sanitário e muito menos impactante do ponto de vista social e econômico isolar os poucos casos detectados por três semanas e solicitar uma quarentena para contatos altamente suspeitos.

Agora podemos tentar desmantelar todas as cadeias de transmissão porque temos apenas algumas, em vez de esperar ser sobrecarregados por um possível afluxo de casos para os quais temos pouco conhecimento, poucos tratamentos ou vacinas disponíveis.

No momento, o que se sabe sobre o vírus não nos faz temer a contaminação massiva da população em geral, a menos que o vírus tenha evoluído.

“Sabe-se, há mais de 50 anos, pela experiência africana, que esse vírus requer um alto grau de contato pessoa a pessoa com alguém contagioso para permitir a infecção.”

Existe risco de pandemia mundial?

“Neste momento, nenhum cenário pode ser excluído, e a possibilidade de uma pandemia não pode ser totalmente descartada. No entanto, existem outros cenários menos pessimistas que são pelo menos tão viáveis.

Até agora, nenhuma cadeia de mais de seis infectados foi reportada. A taxa de reprodução na África sempre foi inferior a 1, ou seja, sem potencial pandêmico.

É possível que agora existam as condições para que a transmissão entre humanos seja facilitada por uma maior adaptação do vírus, e também por redes de comunidades humanas que vivem em locais densamente povoados e com grande mobilidade.

A pandemia de HIV/Aids também começou com a infecção de determinados segmentos da sociedade, como comunidades homossexuais masculinas e pessoas que trocam seringas. A pandemia então se espalhou para outros grupos populacionais, como pacientes transfusionais, profissionais do sexo, casais heterossexuais e recém-nascidos de mães infectadas.

Mas, por enquanto, nada sugere que o vírus da varíola do macaco seja sexualmente transmissível. O contágio ocorre pelo contato próximo e prolongado com uma pessoa infectada com lesões na pele, não havendo razão para que se limite [a transmissão] à comunidade homossexual masculina.”

Padrão diferente de sintoma clássico

O atual surto de varíola do macaco, que atinge principalmente a Europa, tem uma mudança no padrão do principal sintoma da doença: as erupções na pele. A informação foi relevada pela secretária de varíola do Programa de Emergências Sanitárias da OMS (Organização Mundial da Saúde), Rosamund Lewis.

“Temos a imagem do passado, mas temos [agora] uma proporção maior de casos em que as erupções cutâneas podem começar mais localmente e permanecer mais locais, possivelmente por causa da natureza do contato. Estamos vendo mais casos em que as erupções cutâneas começam na região genital – o que não é novo, sempre houve – e com mais frequência tendem a permanecer nela”, detalhou.

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