Bebendo demais? Saiba como identificar se você é alcoolista e a relação com a saúde mental

Dados apontam que abuso de álcool durante a pandemia cresceu, sobretudo, na faixa etária dos 30 aos 39 anos; hospital de SC é referência no tratamento de pacientes alcoolistas com métodos integrativos

Com a pandemia e as restrições impostas pela Covid-19 em todo o mundo, o consumo do álcool migrou dos bares para as casas.

Em um cenário de isolamento social, as bebidas alcoólicas, antes atreladas à socialização na maioria dos casos, passaram a ser ingeridas como forma de lidar com  emoções difíceis como medo, estresse, nervosismo, ansiedade e inquietação, causadas, sobretudo, pelas mudanças e incertezas provocadas pelo coronavírus.

consumo de álcoolAbuso de álcool na pandemia está atrelado à saúde mental, aponta pesquisa da Opas – Foto: Divulgação ND+

Nesse contexto, os dados alertam para a importância de cuidar da saúde mental, e não apenas para quem já tem o vício em álcool. Segundo um estudo da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), entre a faixa etária dos 30 a 39 anos, mais de 35% dos 12 mil entrevistados passaram a consumir doses excessivas em intervalos curtos.

A cerveja foi a bebida alcoólica de escolha da maioria (48,7%) durante a pandemia, seguida pelo consumo de vinho, que aumentou de 21,8% em 2019 para 29,3%.

O estudo também fez perguntas relacionadas à saúde mental. Os entrevistados relataram terem se sentido nervosos, ansiosos ou tensos (18%), com problemas para adormecer (18%) ou relaxar (15%).

“A grande maioria das pessoas que tem contato com álcool e outras drogas psicoativas não desenvolvem problemas decorrentes do abuso dessas substâncias. Mas cerca de 15% das pessoas que entram em contato com psicoativos podem ou desenvolvem problemas decorrentes deste uso”, explica Décio de Castro Alves, psicólogo clínico/institucional, especialista em Gestão de Saúde e em Saúde Mental.

Dados do Ministério da Saúde mostram um aumento de 18,4% nos registros de mortes relacionadas a “transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de álcool”  entre 2019 e 2020.

Só no ano passado, foram 7.612 mortes, com aumento de óbitos a partir de abril, quando a pandemia chegou ao país. Para comparação, em 2019 foram 6.428 mortes.

“A pandemia trouxe a necessidade de estabelecermos o isolamento social como principal medida preventiva e sanitária, além das vacinas, para reduzir a propagação do vírus. Mas isso ampliou o consumo de álcool e de outras drogas na sociedade brasileira. Pesquisas desenvolvidas pela Fiocruz, Universidade Federal de Minas Gerais e Unicamp, realizadas entre abril e maio de 2020, revelaram que 18% dos participantes passaram a beber mais na pandemia”, diz Alves.

“Vários quadros depressivos ou de ansiedade podem aparecer diante do uso abusivo de substâncias. E quem tem doença psiquiátrica já diagnosticada pode ter o quadro agravado quando utiliza algum tipo de droga ou álcool. Pode-se dizer que as doenças mentais estão correlativamente ligadas a esse uso, seja como disparador ou como consequência”, complementa Sandra Lúcia Vitorino, psicóloga que coordenou por 20 anos o serviço de saúde mental de Joinville, e hoje coordena a Comissão Intersetorial de Saúde Mental do Conselho Estadual de Saúde de SC.

Ando bebendo demais. Como identificar se sou alcoolista? 

Segundo o psicólogo Décio de Castro Alves, as drogas por si só não representam ameaça e são utilizadas de diversas formas e maneiras desde o princípio da humanidade, buscando resultados que vão de medicar sofrimento e dor à sensação de euforia.

Segundo o profissional, é preciso olhar para o consumo excessivo de álcool com o propósito de promover educação e não restrição. Difundir  informação de qualidade e estímulo para que as pessoas façam suas escolhas de maneira consciente é o caminho mais assertivo, assim como foi feito nas políticas públicas que ajudaram a reduzir o consumo de tabaco no país.

Ele elenca ainda como é possível identificar comportamentos alcoolistas.

“O reconhecimento do vício é percebido na medida em que as pessoas vão perdendo capacidades práticas como se manter no trabalho, manter as relações sociais com a família e com os amigos e uma preponderante necessidade de estar continuamente sob efeito dessas substâncias. A maneira correta de chegar a este diagnóstico é a partir de uma avaliação psicossocial elaborada por uma equipe multidisciplinar que inclua psicólogos, enfermeiros, médicos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, entre outros profissionais”, finaliza Alves.

Em SC, hospital é referência no tratamento de saúde mental com práticas integrativas

No Hospital Santa Luzia, em Ponte Serrada, Oeste catarinense, a maior parte (80%) dos pacientes internados na ala de saúde mental são alcoolistas e/ou dependentes químicos.

Hospital do Oeste de Chapecó é referência no tratamento de distúrbios de saúde mental, bem como alcoolismo e dependência química – Foto: Divulgação Hospital Santa LuziaHospital do Oeste de Chapecó é referência no tratamento de distúrbios de saúde mental, bem como alcoolismo e dependência química – Foto: Divulgação Hospital Santa Luzia

“Observa-se também que no período da pandemia aumentou a procura pelo tratamento, não somente pelo SUS, mas também através dos convênios de saúde”, diz Laísa Mendes, coordenadora da Ala de Saúde Mental.

Mas foi-se o tempo em que o tratamento da doença se resumia à ingestão de medicamentos e isolamento social por meio da internação. Hoje, hospitais e clínicas que se adequaram à Reforma Psiquiátrica no Brasil, lançam mão de práticas terapêuticas integrativas, com auxílio de equipes multidisciplinares e atividades que fazem bem para o corpo e a mente dos pacientes.

Entre elas estão meditação guiada, dança circular, musicoterapia, aromaterapia, arteterapia, prática corporal chinesa Lian Gong e cultivo de horta com plantas medicinais.

“Evidências científicas têm mostrado os benefícios do tratamento integrado entre medicina convencional e práticas integrativas e complementares. Elas não substituem o tratamento tradicional, mas fazem parte de uma estratégia para tornar o atendimento mais qualificado, efetivo e seguro para o paciente”, explica Alessandra Fischer psicóloga clínica/institucional, especialista em Saúde Mental e Atenção Psicossocial e voluntária do Hacking Health.

Arteterapia no Hospital Santa Luzia – Foto: Divulgação Hospital Santa Luzia 2Arteterapia no Hospital Santa Luzia – Foto: Divulgação Hospital Santa Luzia 2

Essa nova forma de trabalho eleva a qualidade da assistência e possibilita o alcance de melhores resultados nos tratamentos. No Hospital Santa Luzia, uma das poucas instituições de Santa Catarina totalmente adequadas à Reforma Psiquiátrica, a equipe busca a melhor abordagem e terapia para cada paciente e com a participação do mesmo – ele se torna o protagonista e corresponsável por seu tratamento enquanto estiver internado.

As mudanças, que vêm sendo realizadas há cerca de dois anos, desde que a atual gestão assumiu o Hospital e o transformou em uma associação, são percebidas pelos pacientes.

“Antes, as  acomodações não eram boas e quase não tinha acompanhamento com outros profissionais. Eu ficava muito medicado. Hoje, sem tanta medicação, o cara consegue participar das atividades, ficar consciente e pensar em como estava antes de chegar aqui, e como quer sair daqui”, comenta o funcionário público V., de 25 anos. Usuário de drogas e álcool desde a adolescência e que está em sua terceira internação no Santa Luzia – a primeira foi há sete anos.

“É comum recebermos pacientes mais de uma vez. O preconceito e a desinformação de que o alcoolismo e o uso de substâncias psicoativas é uma doença sem cura dificultam o processo de aceitação ao tratamento.

Os principais fatores de recaída são a pressão social, os conflitos familiares, falta de apoio familiar, situações de estresse como desemprego, morte de familiares, separação conjugal, sintomas de depressão e de ansiedade, influências negativa dos amigos, frequentar locais onde se consome bebida alcoólica como bares e festas, a dependência fisiológica e psicológica.

Mas vale ressaltar que a recaída faz parte do processo de mudança e, muitas vezes, é essencial para que a pessoa possa aprender com a experiência e recomeçar de uma forma mais consciente”, finaliza Alessandra.

*Com informações de Yasmine Holanda Fiorini, assessora Hacking Health

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