Manual do solteiro na pandemia: veja dicas para driblar a solidão no isolamento

O nd+ conversou com solteiros e um sexólogo para entender como lidar com a carência e novas formas de se relacionar em tempos em que beijar na boca pode ser fatal

Com o beijo e vida sexual se tornando um meio para contrair um vírus possivelmente fatal, 2020 definitivamente não é o ano dos solteiros. Neste dia 15 agosto celebramos o dia destes românticos – que estão na busca de alguém para dividir o futuro ou apenas um final de semana. Ou que não buscam nada.

Com a pandemia de Covid-19 não há motivos para celebrar, mas restam questionamentos a serem respondidos. Principalmente quando não há perspectiva de melhora.

Afinal, como lidar com a carência nestes tempos de isolamento? E a falta de sexo? Dates virtuais e sexo pela webcam satisfazem? Existe forma de fazer sexo e não contrair a Covid-19?

Como celebrar o dia dos solteiros em tempos de pandemia e isolamento? – Foto: Pxhere/Divulgação/NDComo celebrar o dia dos solteiros em tempos de pandemia e isolamento? – Foto: Pxhere/Divulgação/ND

Definitivamente, é necessário achar novas maneiras de lidar com a esfera sexual da vida. Até porque faz um tempo que a ideia nobre em torno da castidade saiu de moda e a ciência defende a importância da vida sexual para nossa saúde.

Muito além da penetração, do prazer sensorial e do fim reprodutivo, as relações sexuais nos fazem sentir atraentes, geram reciprocidade e contribuem para a formação da nossa personalidade, defende o psiquiatra e especialista em sexualidade humana Kayo Gheno.

Além disso, contribuem para o alívio de quadros de irritabilidade, alteração de humor e perda prazer gerados pelo confinamento.

Protocolos pessoais e a nova paquera

Marcar encontros e achar que está seguro apenas porque o parceiro romântico não apresenta sintomas é bobeira. Com cerca de 80% dos infectados da Covid-19 apresentando quadro assintomático, e mesmo assim transmitindo o vírus, não há como se sentir inatingível mesmo com um parceiro que não relate sentir tosse e febre.

Os decretos municipais e estaduais estabeleceram o fechamento dos espaços de socialização de solteiros, como bares e baladas. Assim os apps de relacionamento (responsáveis pela união de cerca de 30% dos casais norte-americanos, segundo pesquisa da Pew Research Center) tomaram um papel fundamental.

Reflexo disso foi o Tinder, que integra a lista de ferramentas de namoro, ser o terceiro app mais lucrativo do mês de junho – YouTube e TikTok ocuparam as primeiras posições.

Apesar das tecnologias apresentarem recomendações de isolamento nas suas interfaces, nesse terreno não existe regras: o protocolo do corpo é definido por nós mesmos.

Entre as novas usuárias do Tinder está Sônia*, de 23 anos, solteira e graduanda da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).  Devido ao tédio do isolamento, ela instalou o app nos primeiros dias de pandemia, atrás de um “date potencial”. Entre videochamadas com diferentes rapazes vinha a pergunta proibida: ‘vamos sair?’. Ela costumar responder revoltada: “‘Encontro?!? no meio de pandemia??'”.

Quem esteve do outro lado e ouviu uma negativa foi o engenheiro elétrico Douglas, morador da Capital. Mas não foi Sônia que disse o não, e sim Júlia – moradora de uma cidade do interior do Rio Grande Sul, onde Douglas trabalha em regime home office junto aos pais.

“Na época vigorava aqui um decreto em que as pessoas tinham que ficar em casa das 23h às 5h da manhã. Ela não quis sair. Como ela sai do trabalho às 22h, a convidei para dormir aqui. Ela não aceitou e cortou contato, após reatar com o namorado” lembra o engenheiro.

Cuidar-se para si próprio

Os dois concordam num ponto: a rotina do home office contribuiu para o descuido com a beleza. “Não me arrumo, caí no descuido. Desde que ninguém me veja, isso não afeta minha autoestima” conta a estudante.

“Não há expectadores que inflem essa sensação egóica, por isso caímos no descuido”, explica Gheno. “É bom que as pessoas consigam cuidar-se para si e não por outros. É um fator que pode contribuir com a nossa autoestima”, detalha.

Fernanda até que tentou. No início da quarentena, ela conta que se arrumava mais quando precisava ir ao mercado ou à farmácia.”Agora nem rímel, paixão da minha vida, eu passo mais. A máscara dá uma desanimada. Nunca mais saí de casa com aquela sensação de que a cada esquina posso encontrar um conhecido ou um boy gatíssimo”, escreveu a estudante.

Um encontro virtual acompanhado a burrito (prato mexicano) foi a primeira investida dela no campo da paquera virtual. O parceiro detestou. Ela achou tedioso, e concluiu que a dinâmica necessita de mais intimidade. Os encontros seguintes foram todos pessoais.

Existe forma de ter relações sexuais e não contrair o vírus?

Teve apenas um momento em toda a pandemia no qual Sônia desrespeitou a própria regra de celibato provisório. Era 30 de julho, dia do amigo. Ela estava na lavanderia de casa e, após algumas, cervejas recebeu uma mensagem bem humorada de um antigo caso: “feliz dia do amigo ausente”.

A mensagem desencadeou uma conversa passional. “Eu escrevi ‘vou te visitar, mas cada um fica no seu canto’. Não sei o que aconteceu, até porque tinha ido com a minha pior roupa, tava toda descabelada. Eu, que criticava quem não respeitava o isolamento, acabei pagando a minha língua – com a língua!”, lamenta a estudante.

E é na língua que se encontra o perigo, como destacou a própria OMS (Organização Mundial Da Saúde), ao alertar sobre os riscos do beijo. “Os casais devem evitar o beijo, já que o vírus está presente na saliva e no muco”, ressalta Gheno.

Sobre as outras regiões do corpo, conforme o psicanalista, pesquisas recentes não identificaram a presença do coronavírus na região peniana e vaginal, mas foi detectado na região anal. “Sempre há troca de secreções no sexo, principalmente nas carícias e na boca”, ressalta.

“Se der para evitar o sexo, é sempre o melhor. Mas se a pessoa se sente impelida, e às vezes o impulso sexual é muito forte e desencadeia uma necessidade física irracional, a sugestão é que o sexo ocorra com moderação”, afirma Gheno.

Mas o que seria ‘moderação’ na vida sexual? Gheno sugere aos pacientes que atende no bairro Trindade, em Florianópolis, a diminuição de parceiros sexuais – caso a pessoa decida manter a vida sexual ativa. E também evitar contato com amigos e familiares, para não contaminá-los.

Explorar a sexualidade virtualmente também pode ser prazerosa

Agora, aos solteiros e solteiras firmemente éticos há outras alternativas para explorar a própria sexualidade, mesmo à distância. Trocar fotos nuas e vídeos sensuais pela internet, por exemplo, pode ser prazeroso. Foi inclusive uma orientação do departamento de saúde de Nova York (EUA), divulgada no início da pandemia.

“A tendência é que a exploração da sexualidade no meio virtual se torne cada vez mais habitual, e a pandemia está acelerando esse cenário. Temos a necessidade de sentir que somos atrativos e ver pessoas atrativas” afirma o psiquiatra e especialista em sexualidade humana.

Mas ainda estamos em um processo de transição, por isso as pessoas tem que tomar cuidado.  A exposição pode às vezes  gerar respostas negativas. “Por exemplo: pode compartilhar fotos e vídeos pessoais, mas não precisa se identificar ou expor a face. Cuide”, alerta.

Outro ponto para se ficar atento é achar que as relações com os parceiros virtuais serão duradouras. “Percebo que existe a expectativa que existam encontros e vínculos posteriores, como  namoro e casamento. Mas as vezes são expectativas que não se cumprirão. Os vínculos vão se formando naturalmente”, afirma.

A regra geral é a seguinte: deve-se explorar a imaginação, mas não tomar atitudes que comprometam o indivíduo e nem criar expectativas.

A quarentena pode ser uma opção para conhecer melhor o próprio corpo

Para as pessoas solteiras que almejam vivenciar sua sexualidade, mas temem a infecção e exposição, a sugestão de Gheno é partir para o terreno das ideias, a prática do autoerotismo e a descoberta de novos prazeres.

“A sexualidade começa principalmente entre as duas orelhas, na imaginação, na fantasia. Claro que queremos afeto, a troca. Mas hoje essa sexualidade pode trazer insegurança, infectar familiares e pessoas do trabalho, podendo infectar por alguns minutos de prazer”.

A pornografia, de forma moderada, pode ser saudável, assim como a literatura erótica. Para apimentar a imaginação, Gheno sugere também recorrer a memórias e às vivências sexuais. Talvez as imagens de um tempo não muito longe, quando o contato humano era mais viável e não apresentava tanto risco, ajude.

*A reportagem manteve um nome fictício para preservar a identidade das pessoas que contaram suas experiências.

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