FOTOS: Casal de Joinville larga tudo e viaja o mundo em motorhome

Ex-executivo de multinacional e esposa vendem tudo para realizar o sonho de conhecer o mundo

Quem nunca pensou em largar tudo e sair viajar pelo mundo? Marcelo dos Santos, 46 anos, e Rubiane dos Santos, 47 anos, não só pensaram como meteram literalmente o pé na estrada. Mais um exemplo de vida leve, intensa e desapegada, como outras famílias de catarinenses já adotaram.

Marcelo é joinvilense e trabalhou em empresas software durante toda a carreira profissional. Chegou a ser vice-presidente de Marketing, Vendas e Pós Vendas de uma grande empresa de tecnologia. Rubiane é arquiteta e também tem formação em Ciências Contábeis e Administração. Ela nasceu em Piçarras, mas veio para Joinville aos sete anos.

O casal se mudou de Joinville para São Paulo em 2009. Oito anos depois, os primeiros planos de desbravar o mundo eram desenhados.

Descubra abaixo como foi a decisão de largar casa, emprego, cidade, vizinhos e amigos para realizar um sonho. Eles contam tudo, o investimento, as aventuras e, inclusive, os perrengues que têm passado na estrada. Confira tudo abaixo, na voz dos próprios protagonistas desta jornada única.

O planejamento

“O plano começou no final de 2017 para 2018. Quando nosso filho mais velho (hoje com 27 anos) foi morar fora da nossa casa e tocar a vida dele e quando nosso filho mais novo falou que queria estudar e morar fora do Brasil, percebemos que estávamos sofrendo da síndrome do ninho vazio, mas também percebemos que estávamos encerrando um ciclo muito importante da vida que era ‘encaminhar’ os filhos. Para fechar este ciclo, começamos a pensar em viajar pelo mundo.

Chegamos a pensar em viajar de moto (tanto eu quando Rubiane já tivemos motos e viajamos bastante tanto no Brasil quanto fora), mas  passaríamos muito perrengue, pois nem todos os lugares do mundo têm estrutura adequada. Depois, pensamos em viajar de avião, mas também deixaríamos de ver algumas coisas que gostaríamos e sairia muito caro.

Foi, então, que começamos a estudar como seria viver em um motorhome. Em 2019, fizemos 25 anos de casados e decidimos não fazer festa e sim uma viagem a Portugal. Inicialmente, faríamos de moto, porém a Bia teve uma pequena fratura que impediu a viagem. Decidimos, então, fazer de motorhome e foi uma das melhores experiências que tivemos. Definimos que nossa viagem ao redor do mundo seria de motorhome. Em janeiro de 2020, compramos o veículo e recebemos em dezembro de 2020.

Perdemos algumas pessoas muito próximas e com idades muito parecidas com as nossas. Por isso, pensamos: Até quando vamos adiar um projeto como esse? Nunca sabemos quando vamos morrer e decidimos que estávamos na idade certa para fazer isso, pois ainda tínhamos saúde e disposição para enfrentar alguns poucos perrengues em troca de uma experiência única.

Investimento

Aproximadamente R$ 600 mil. Entregamos a casa e vendemos tudo que tínhamos em março de 2021. Ainda não visitamos muitos lugares. Nosso foco agora está no Sul do país porque nosso filho mais novo, por conta da pandemia, ainda não recebeu o visto para faculdade no Canadá. Por este motivo, não estamos indo muito longe de SP que é a base dele e do nosso filho mais velho.

Já fizemos uma parte do Rio Grande do Sul, rodamos bastante por SC e PR, fomos em algumas cidades interessantes no Estado de SP e mais recentemente fomos para Capitólio em MG. Costumamos dizer que ainda nem começamos direito nosso projeto, pois a ideia é visitar toda a América, Europa, parte da Ásia e provavelmente Austrália. A ideia é fazer tudo com nosso motorhome. Há alguns desafios de transportá-lo entre continentes, mas nada que já não tenha sido feito por outros viajantes e que, graças à internet, deixaram registrado este caminho das pedras.

O desapego

Morávamos em uma casa confortável, de uns 250 m² em um condomínio fechado com toda a infraestrutura, como piscina, quadras de tênis, poliesportiva, academia, etc e atualmente vivemos em pouco menos de 16m².

Mesmo escolhendo um modelo de motorhome que nos dá bastante autonomia, não temos mais o espaço de casa. Porém, temos muito mais liberdade e um “quintal” muito maior. Sempre repito que nossa casa é pequena, mas o quintal é gigante. Algumas coisas dão um pouco mais de trabalho, como, por exemplo, encher a caixa d’agua com água para tomar banho, cozinhar, lavar louça, etc; tirar o esgoto. Também ficar de olho para que as baterias da casa não descarreguem e nos permitam ter todos os eletrodomésticos funcionando e coisas deste tipo que em uma casa você não se preocupa.

Entretanto, temos a liberdade de ir para onde tenha sol. Já planejamos ir para um lugar, porém no dia que iríamos estava chovendo e decidimos: vamos ver onde tem sol e ir pra lá. Outro privilégio importante é você poder mudar os planos de acordo com a necessidade sem se preocupar com reservas de hotel, avião, etc. Há dias que começamos sem saber onde vamos dormir naquela noite e aproveitamos muito mais. Para mim, que sempre fui megaplanejado, tem sido um aprendizado bem rico (nem sempre fácil).

Perrengues

Perrengue nesta vida nômade é o que não falta. Acho que o maior perrengue que tivemos foi bem no início da viagem. Estávamos em um camping em uma praia de SC, e precisávamos esvaziar o esgoto do motorhome. O esgoto do camping que usaríamos para decarregar o nosso estava a 20 metros e onde estávamos. O correto seria recolher o toldo, recolher o slideout do motorhome, posicioná-lo perto do esgoto do camping e, usando nossa mangueira (que tem 5 metros), esgotar o tanque de esgoto.

Acontece que ficamos com preguiça de “desmontar o acampamento” e fizemos uma gambiarra, usando um tipo de mangueira conhecida como conduíte usada para passar fios elétricos em uma casa. Compramos 20m desta mangueira e gastamos algo como R$ 50. Até pensamos: ‘nossa, com R$ 50 vamos resolver o problema.’

Enquanto eu operava a válvula elétrica que fica no painel do carro, a Bia ficou cuidando para que a emenda não desprendesse e derramasse água de esgoto pelo camping. Quando abri a válvula e liguei a bomba, descobrimos que a mangueira que compramos tinham alguns microfuros perto de onde estava a Bia e com a pressão feita pela bomba acabamos fazendo um chafariz justamente onde a Bia estava segurando a emenda da mangueira. Ela ordenou que eu desligasse a bomba. A encontrei toda molhada e rindo muito. Ela teve de tomar uns três banhos. O aprendizado: não tente fazer gambiarra que a chance de dar errado e o resultado ser desastroso é gigante. Este é apenas um dos vários perrengues que passamos.

O segredo é sempre encarar qualquer perrengue com bom humor e refletir qual aprendizado que aquela experiência trouxe.

Dicas para viajantes

Sempre digo para os meus filhos: faz o certo que dá certo ou, ainda, faz o certo e não o fácil. Outra dica é: tudo não terás. Para viver uma experiência dessas, algumas renúncias precisarão ser feitas. Outra dica é que não existe momento ideal para fazer. Tem que partir para a ação. Tenho vários amigos que dizem que têm o sonho de fazer algo parecido, mas ainda não é o momento ideal. Se for esperar o momento ideal, talvez nunca faça. Eu tenho 46 anos e a Bia, 47.

Muita gente acha que somos muito novos; outros acham que somos muito velhos para viver uma vida assim, ou seja, não se baseie no que os outros acham. Mais de uma centena de pessoas que encontramos na estrada e que descobrem que vendemos tudo para viver viajando nos dizem que é seu sonho de fazer. Algumas ainda têm tempo para isso, mas o que mais me dói é que a grande maioria não fez e agora está ou com uma doença que não o permite fazer ou ainda está com uma idade que não permite fazer algumas das aventuras que fazemos.

Sempre que me despeço de alguém, me pergunto: será que ela realizou todos os sonhos da vida? Acho que a vida só vale a pena se realizarmos nossos sonhos. Eu quero que quando chegar a minha hora de ir para outro plano as pessoas saibam que realizei todos os sonhos.

Tenho uma lista de coisas que quero fazer antes de morrer e estou riscando uma a uma.

O que fariam de diferente?

Ainda estamos pouco tempo na estrada, mas, às vezes, tenho a impressão que poderíamos ter comprado um motorhome menor que nos daria mais flexibilidade. Com o nosso, não conseguimos, por exemplo, chegar em uma cidade muito pequena e estacionar como um carro normal na praça central da cidade e dormir por ali mesmo. Nossa casa tem 7,5m de comprimento, 3,3m de altura e 2,65m de largura e ainda tem um slideout que é um mecanismo que aumenta a sala em 70cm quando estamos parados.

Motivação, filhos e amigos

Realizar nossos sonhos de conhecer o que conseguirmos deste mundo, ir riscando os itens da nossa lista de desejos e deixar bem claro o fim de um dos ciclos mais importantes da vida de um casal que é ver seus filhos ficarem independentes e tomando o rumo da vida deles.

O filho mais velho, com 27 anos, é designer e artista e desde os 24 já mora sozinho e toca a vida. O mais novo está indo para o Canadá fazer faculdade e com planos de fazer a vida dele naquele país. Eles sempre nos apoiaram muito. O mais velho até já falou que tem vontade de ter um motorhome, menor que o nosso e também ter esta liberdade.

Sentimos bastante falta dos amigos e familiares. A internet nos dá uma ajuda muito grande, pois por meio de videoconferência conseguimos falar e vê-los com frequência. Talvez hoje falamos com eles mais do que antes, inclusive, porque tínhamos uma vida super corrida.

Planos após a viagem

Quando voltarmos, nosso plano é ter uma casa pequena e prática em uma praia, mas manter o motorhome para poder viajar sempre que quisermos. Não sabemos onde será, pois temos a certeza que nossas cabeças serão completamente diferentes e que vamos encontrar algum lugar onde um vai olhar para o outro e dizer: aqui faz sentido morarmos.

Essa foi uma das razões pelas quais decidimos não manter nada nem em SP nem em Joinville ou mesmo em alguma praia próxima a Joinville. Queremos ter a liberdade de, quando essa jornada terminar, não ter nenhuma amarra para escolher um lugar onde morar e ser feliz

Antes de saírmos para a viagem estávamos morando em um bairro bem residencial próximo a SP chamado Tamboré. Talvez a Bia volte a trabalhar com arquitetura e eu faça consultoria empresarial ou mesmo volte para a vida de executivo. Não estamos pensando muito em o que vamos fazer depois, mas sabemos que alternativas é o que não faltam.

A lição que fica

Que uma vida mais simples e menos corrida é mais saudável e, por mais que alguns não acreditem, é muito melhor que a vida que levávamos. Acreditamos que ter uma casa grande, confortável e uma vida corrida é importante por um determinado tempo. Agora, queremos aproveitar a vida e usar o pouco que juntamos para realizar nossos sonhos.”

Toda a jornada é narrada também em um canal que o casal mantém no Youtube.

CONFIRA AS FOTOS:

Foz do Iguaçu-PR – Cataratas – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
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Foz do Iguaçu-PR – Cataratas – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
Urubici-SC – Parque Cascata do Avencal. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
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Urubici-SC – Parque Cascata do Avencal. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
Capitólio- MG – Cachoeira do Trovão. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
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Capitólio- MG – Cachoeira do Trovão. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
Urubici-SC – Serra do Corvo Branco – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
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Urubici-SC – Serra do Corvo Branco – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
Ponta Grossa-PR – Parque Vila Velha – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
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Ponta Grossa-PR – Parque Vila Velha – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
Parque Vila Velha. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
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Parque Vila Velha. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
Ponta Grossa-PR – Buraco do Padre – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
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Ponta Grossa-PR – Buraco do Padre – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
Gramado-RS – Parque Vale das Olivas – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
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Gramado-RS – Parque Vale das Olivas – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
Monumento a Nossa Senhora em Itaipulândia-PR. O casal encontrou esse lugar sem querer quando estava procurando um ambiente para dormir. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
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Monumento a Nossa Senhora em Itaipulândia-PR. O casal encontrou esse lugar sem querer quando estava procurando um ambiente para dormir. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
Monumento a Nossa Senhora em Itaipulândia-PR. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
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Monumento a Nossa Senhora em Itaipulândia-PR. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
Ponta Grossa-PR – Fenda da Freira. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
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Ponta Grossa-PR – Fenda da Freira. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
Ilha do Mel -PR – Fortaleza. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
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Ilha do Mel -PR – Fortaleza. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
Ilha do Mel – PR – Por do Sol – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
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Ilha do Mel – PR – Por do Sol – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND
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