‘Prefiro dormir em vez de transar’: quanto tempo é normal ficar sem sexo nos relacionamentos

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Sexólogas debatem frequência com a qual um casal consegue manter sua vida íntima e casual mesmo sem a prática de atividades sexuais

“Por ele vir até mim, fazemos mais sexo do que talvez faríamos se ele não buscasse por isso”. O relato de Amélia*, 34 anos, não é incomum. Após 15 anos de casamento e três gestações, ela sente que transar não é mais uma das principais prioridades em seu casamento.

“Tenho uma questão complicada com sexo. Não estou sempre pensando nisso, então preciso que ele [seu companheiro] me chame para fazermos, porque eu não consigo lembrar”. Ela conta que, durante a semana, ao menos duas vezes realiza práticas sexuais com o parceiro.

Intimidade a dois pode ser posta em xeque dentro de relacionamentos quando a falta de sexo passa a interferir no convívio do casal – Foto: Pexels/Reprodução/NDIntimidade a dois pode ser posta em xeque dentro de relacionamentos quando a falta de sexo passa a interferir no convívio do casal – Foto: Pexels/Reprodução/ND

Entretanto, a frequência era maior no início do relacionamento, quando eram mais jovens e, como cita Amélia, menos sobrecarregados durante o dia. “Às vezes eu prefiro dormir ao invés de transar, é muito mais prioridade dele do que minha”.

“Tem momentos em que eu inclusive não me sinto bem com meu corpo, não me sinto desejável, e isso faz com que eu fique na retranca”. Apesar disso, ela comenta que seu parceiro “realiza uma ótima função” ao fazer com que não pense dessa maneira sobre si mesma.

Diálogos como caminho para resolução de problemas

Para a sexóloga da plataforma Sexo sem Dúvida, Gabriela Daltro, manter conversas dentro do relacionamento é essencial. “É importante se comunicar bem. É sempre o melhor caminho para se ter compreensão e entender tudo o que está acontecendo”.

Amélia comenta que nunca teve problemas para se relacionar sexualmente dentro do casamento, apesar de muitas vezes o companheiro estar com mais vontade do que ela. “O que me faz querer mais ou menos é esse companheirismo de vida, cuidar das tarefas da casa, das crianças, da empresa que temos juntos”, relata.

Já para Mariana**, que aos 21 anos mantém um relacionamento de dois anos e sete meses com seu companheiro, o sexo “é muito bom para os dois”. “Ser parceiro me faz ter tesão. Quando isso não ocorre me sinto negligenciada e com menos vontade. Eu gosto de transar, mas não é o que mantém meu relacionamento em pé”.

“É algo que significa uma troca de carinhos, com sentimento”, disse a jovem. Entretanto, a situação nem sempre é encarada desta forma. “Já houve dificuldades por questão de preguiça. Os dois se acomodaram. Quando percebemos isso, conversamos sobre o que podíamos fazer para melhorar”, conta Mariana.

No momento, Mariana e o namorado transam aos fins de semana, que é quando têm tempo para se dedicar a isso.

Mas por mais recente que o relacionamento possa ser, quando comparado ao de Amélia, a mestre em psicologia e especialista em Sexualidade da plataforma Sexo sem Dúvida, Carolina Freitas, ressalta que a situação pode ocorrer entre qualquer casal, independente da orientação sexual ou há quanto tempo estão juntos.

“É normal, o que precisa ser cuidado é quando isso começa a afetar a relação que os dois têm entre si, como sua intimidade”, destacou a psicóloga.

Em casos assim, quando o relacionamento é afetado diretamente pela lacuna que existe na vida sexual entre os parceiros, há pequenos esforços que podem ser feitos para que a situação “volte ao que era”, se for de interesse mútuo.

“A relação sexual não vem do nada. É preciso passar tempo de qualidade com o seu parceiro. Seria importante esse casal ir para um encontro ao menos uma vez por semana, ou até mesmo de 15 em 15 dias, para que esse contato possa voltar a acontecer”, explica Carolina.

“O que acontece atualmente é que o casal não tem mais tempo para o casal. Por isso é importante pensar o que pode ser feito pelos dois para que eles consigam uma brecha durante o dia para que tenham tempo de realizar saídas como namorados”, ressalta.

A ideia é direcionada inclusive aos casais que já estão casados há anos, afinal. Às vezes o problema é com apenas um dos parceiros, mas por mais que a questão seja individual, ela diz respeito ao casal, pois ocorre dentro do relacionamento, relembra Gabriela.

Afastamento pessoal e as crises cotidianas

Tanto Gabriela quanto Carolina concordam que há diversos fatores para que um casal não tenha mais a mesma frequência sexual que possuíam no início do relacionamento, quando a paixão ainda não havia se tornado amor. Entre elas, podem ser citados:

  1. Estresse;
  2. Utilização de medicamentos anticoncepcionais;
  3. Medo de engravidar;
  4. Cansaço físico e mental;
  5. Sobrecarga de trabalho;
  6. Utilização de aparelhos celulares.

A falta de privacidade também pode ser um desafio. Mariana** conta que somente consegue ficar a sós com seu namorado nos fins de semana, que é o momento em que as relações ocorrem.

Isso deve-se ao fato de não morarem juntos, o que faz com que alguém de ambas as famílias sempre esteja por perto, tornando um percalço para a vida sexual dos dois. Indo além, casais que estão juntos há mais de dez anos podem também ter essas dificuldades, devido aos filhos, por exemplo.

“Essas questões podem atrapalhar e fazer com que as pessoas pensem que não possuem mais desejo sexual pelo parceiro, ou vice e versa. Mas a questão é que é necessário entender o próprio corpo e também quem está ao seu lado”, diz Gabriela.

A sexóloga indica que, quando problemas desse tipo começam a aparecer e atrapalhar a vida sexual, muitas vezes é apenas questão de construir um script melhor. “A abordagem não vai ser a mesma do que no início do namoro, pois a parte sexual não é imutável. Esse afastamento pode ser também por causa da falta de sintonia entre os parceiros. Nós mudamos ao longo dos anos, o que também muda nossa percepção sexual. O casal precisa olhar quem eles são hoje e explorar isso, ver o que gosta ou não”.

Dos problemas à resolução da situação

As sexólogas concordam que um bom primeiro passo para resolver o porquê de um casal não realizar atos sexuais com a mesma frequência que costumava é identificar o que está acontecendo com cada um deles, pois são diferentes pessoas e cada caso é individual.

Uma questão a ser considerada é a do desejo sexual. “Quando as pessoas entram num relacionamento estável, passamos do desejo espontâneo para um desejo responsivo, que é quando ele não aparece de cara, precisando ser estimulado pelo companheiro e aí essa pessoa vai decidir se há disposição ou não para isso e só então o desejo de continuar aparece”, comenta Gabriela.

Entretanto, Carolina alerta que a situação não deve ser negligenciada se a pessoa tiver, por exemplo, suas tentativas de aproximação negadas. Neste caso, é necessário pensar como a situação pode não ser levada para o lado pessoal por uma das partes, assim como a outra deve-se questionar como ela pode passar a aceitar essas carícias gradativamente para que ambos cheguem num consenso sobre a frequência com a qual passarão a fazer sexo.

Brinquedos sexuais são boas escolhas para casais que desejam aumentar sua frequência sexual – Foto: Pexels/Reprodução/NDBrinquedos sexuais são boas escolhas para casais que desejam aumentar sua frequência sexual – Foto: Pexels/Reprodução/ND

Carolina comenta que investidas com brinquedos sexuais também podem ser uma forma de apimentar a relação.

Caso nenhuma das opções acima citadas resolva o problema, Gabriela alerta que chegou então a hora de buscar por ajuda especializada, como terapias individuais ou de casal, para que um profissional da área auxilie nessas questões.

A questão central, também entendida de maneira igual pelas sexólogas, é que não há uma frequência correta para se realizar relações sexuais.

“Vai depender do casal e do ciclo de vida deles”, comenta Carolina. “Não existe um tempo normal, cada um tem certo período que suporta ficar sem contato físico. Tem que olhar para dentro de si para entender isso. A diversidade é o padrão”, destaca Gabriela.

*/**A reportagem optou por não divulgar os nomes das mulheres entrevistadas