Tendência é a busca por equilíbrio entre produtos naturais e industrializados

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De um lado a tecnologia impulsiona a industrialização, de outro a busca por bem-estar demanda itens mais saudáveis

De acordo com especialistas, o futuro da alimentação segue duas tendências bem distintas, mas com o mesmo objetivo: qualidade na alimentação.

Ao tempo que as pessoas voltam o olhar para o passado e incluem na dieta alimentar uma variedade de ingredientes saudáveis e naturais, de outro lado a indústria tem se reinventado para atender consumidores cada vez mais preocupados com a saúde, com o impacto ambiental e a sustentabilidade. 

De um lado a tecnologia impulsiona a industrialização, de outro a busca por bem-estar demanda itens mais saudáveis – Foto: Fabio Abreu/NDDe um lado a tecnologia impulsiona a industrialização, de outro a busca por bem-estar demanda itens mais saudáveis – Foto: Fabio Abreu/ND

“Dessa forma, os dois segmentos, o natural/saudável e o processado/industrial estarão no mercado, pois cada um deles oferece vantagens interessantes e terão um público cativo. O mercado de naturais/saudáveis crescerá e deve se solidificar como sinônimo de saúde e vida saudável. Já o industrializado é reconhecido pela praticidade e temporariedade e terá que modificar/adaptar o seu processo e seus ingredientes para competir com a questão do saudável, que será pauta do binômio saúde-nutrição”, enfatiza a mestre em extensão rural e doutora em alimentos e nutrição, Suzi Barletto Cavalli. 

Ardenghi observa que o futuro da alimentação segue na direção do natural.

“E como toda a grande revolução – e a gente está vivendo uma revolução digital – a indústria vai de alguma forma se transformar para oferecer um produto o mais próximo do natural possível. Então, eu acredito que vai caminhar em direção ao natural com uma grande transformação da indústria”.

Barbosa também acredita que a tendência está focada na industrialização, mas buscando a produção mais natural com redução no uso de corantes, aditivos e produtos artificiais.

 “O consumidor está mais exigente quanto à origem dos alimentos, quais aditivos estão sendo utilizados. Então a indústria está se adaptando aos poucos a essas novas demandas, passando a utilizar fontes mais naturais de insumos, como foi, por exemplo, a necessidade em reduzir o sódio dos alimentos, oferecer alimentos light e diet. O alimento pode ser industrializado, porém ainda assim manter a pegada natural ou menos artificial”, conclui.

Inovação e redução de produtos químicos

Para garantir alimentos de qualidade para as próximas gerações será necessária muita inovação. A agrônoma Lenita Agostinetto pensa que precisamos dar alternativas ao consumidor.

“Temos a agricultura convencional que leva a produção em grande escala, que é responsável pelo PIB (Produto Interno Bruto) e pelo crescimento do país. Mas também precisamos levar em consideração a questão da segurança alimentar e oferecer essas alternativas. A agroecologia e a agricultura orgânica estão tendo visibilidade e o consumidor está mais exigente neste aspecto. Também temos outras tecnologias que estão sendo utilizadas justamente para tornar o sistema produtivo mais sustentável e, ao mesmo tempo, tentar garantir segurança alimentar e nutricional. Precisamos inserir dentro do nosso sistema produtivo cada vez tecnologias mais limpas, mais sustentáveis”. 

Lenita também reforça a preocupação sobre o uso de agrotóxicos e pensa que é necessário levar conhecimento para o agricultor, porque ainda hoje somos os maiores consumidores de agrotóxicos mundialmente.

“Precisamos levar conhecimento ao campo, ao agricultor, que está trabalhando diretamente com a produção de alimentos. Pois muitas vezes o uso excessivo, inadequado ocorre pelo desconhecimento ou falta de conhecimento de que são produtos tóxicos que, se mal manejados a longo ou curto prazo, podem trazer problemas reais à saúde e também ao meio ambiente”, argumenta a agrônoma.

Crescimento do mercado vegano e vegetariano 

Não podemos pensar no futuro da alimentação sem observar ao nosso redor as dietas alimentares que uma grande parcela da população aderiu, seja por opção ou por causa de alguma intolerância ou alergia alimentar.

No Brasil 14% da população se declara vegetariana, segundo pesquisa do Ibope Inteligência conduzida em abril de 2018. A pesquisa foi encomendada pela Sociedade Vegetariana Brasileira

A nutricionista Suzi Barletto Cavalli acredita que as dietas veganas, vegetarianas e outras com diminuição de alimentos de origem animal são uma tendência importante e seguem para um cenário bem ampliado.

“Será necessário desenvolver ingredientes, compor cardápios com produtos saudáveis e sustentáveis para que essa dieta possa ser diversificada. Do ponto de vista nutricional, deverão ser atendidos os preceitos de qualidade da alimentação”.

Cozinhar é um ato de amor

A pandemia que isolou as pessoas do mundo externo também levou muitas para a cozinha. Especialistas acreditam que o futuro da alimentação também volta o olhar para o passado, compartilhando receitas e ensinamentos.

E foi neste contexto que renasceu a Cozinhe.Me, uma startup que surgiu para inspirar o mundo a cozinhar.

“Por que a gente acredita que não existe tecnologia mais sólida, profunda, robusta e limpa do que cozinhar. Acredito que a tecnologia exponencial que mudou completamente o futuro da humanidade foi o ato de cozinhar, foi quando nós descobrimos a cocção e passamos a cozinhar o nosso alimento”, destaca o mestre em antropologia e co-fundador da startup, Paulo Ardenghi.

A Cozinhe-me foi criada em 2017, mas teve um boom em 2020 com o surgimento da pandemia.

As pessoas estão cozinhando mais, se preocupando com a origem dos ingredientes, comendo juntas à mesa e compartilhando novas memórias.

Ardenghi acredita em uma revolução no mercado da alimentação a partir do ato de cozinhar. E é esta a proposta da startup: foco na experiência do usuário, resgatar o hábito de cozinhar e utilizar a tecnologia para construir uma jornada melhor. 

“O nosso negócio está muito focado na questão da educação, ensinar novas receitas, novas práticas, tudo sobre os alimentos. Não é só cozinhar e depois lavar a louça. Tu cozinha, fica sabendo sobre a receita, que comer juntos tem um significado simbólico trazidos pelos astecas e pelos maias. Tem todo um conhecimento, uma profundidade e um foco muito forte nos produtos frescos, na curadoria dos ingredientes”, conclui.

Pós-pandemia aponta para consumo saudável

Não basta apenas aumentar a produção, será necessária uma transformação na produção e consumo consciente.

O antropólogo Paulo Ardenghi acredita que a indústria já está passando por uma grande revolução, que está sendo impulsionada por essas novas gerações, que mais sofreram com o impacto do Covid.

“Então, se antes a gente tinha uma tendência de mudança de hábito, isso foi radicalizado, foi de fato exponencial. As crianças vão ingerir menos açúcar, menos produtos industrializados, mais comidas frescas. Os pais já estão buscando isso, as próximas gerações também vão buscar e isso vai mudar radicalmente a indústria. A gente vai viver e vive a revolução do Agro. E a revolução tem desde a produção de sementes e alguns alimentos que são consumidos massivamente como a soja, a produção de carne, do trigo, milho, que são semente hegemônica e que, sim, vão ter a produção cada vez mais de alta performance. Mas tem uma série de outras sementes que foram sendo esquecidas ao longo da jornada”, afirma o antropólogo Ardenghi.