Carnaval sem festa não anula riscos de infecções transmitidas pelo sexo, alerta médico

Ginecologista da UFSC lembra que encontros que acontecem durante o Carnaval chamam a atenção para formas de prevenção, apesar do cancelamento do feriado

Embora o feriado de Carnaval tenha sido suspenso em Florianópolis, com o cancelamento de festividades e aglomerações por conta da pandemia da Covid-19, o risco para a transmissão de ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) deve ser lembrado durante o período, de acordo com especialista.

O ginecologista do HU (Hospital Universitário) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Luiz Fernando Sommacal, alerta que os encontros e festas que acontecem durante o Carnaval chamam a atenção para formas de prevenção relacionadas a casos de IST.

Sommacal ressalta que, na prática, muitas destas doenças são subnotificadas.

Especialista alerta para riscos de ISTs no Carnaval, mesmo sem festividades – Foto: James Tavares/Secom/NDEspecialista alerta para riscos de ISTs no Carnaval, mesmo sem festividades – Foto: James Tavares/Secom/ND

Mesmo com o cancelamento das festas e as medidas de distanciamento impostas pela pandemia, os cuidados e as medidas de prevenção devem ser mantidos, conforme explica o ginecologista.

“A minha opinião é que em todos os feriados festivos, em que há este apelo ao sexo e à exposição do corpo, nós temos este incremento natural, mas cientificamente não encontramos artigo que possa endossar esta relação”, explicou.

Público mais atingido

De 60% a 80% de casos de ISTs ocorrem em população jovem, considerando a faixa de 15 a 25 anos.

Se for considerado uma faixa ampliada, dos 15 aos 49 anos, a frequência é maior, com prevalência de notificação para cada dois homens, uma mulher.

Ou seja, o dobro da frequência masculina, provavelmente por este público se expor mais a uma sexualidade de risco.

Segundo o especialista, também houve um aumento no número de adultos e idosos afetados por ISTs.

Atualmente, no Brasil, há 4,4 milhões de casos de tricomoníase, 1,9 milhão de casos de clamídia, 1,5 milhão de gonorreia e 931 mil de sífilis.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) estima que há 340 milhões de casos de sífilis, gonorreia, clamídia e tricomoníase, e um milhão de novos casos por dia de infecções de transmissão essencialmente sexual, exceto o HIV e hepatites, que vêm crescendo na mesma frequência. Para Sommacal, estes dados têm causa multifatorial.

Ele aponta, por exemplo, no caso dos idosos, o comportamento sexual de risco, a insegurança sobre a sexualidade, o baixo índice de uso de preservativos (somente 47% dos homens usam e o percentual de adesão por parte das mulheres é baixo), o uso de álcool e drogas que reduzem a inibição e, como dado relevante, o surgimento de medicações para tratamento de disfunção erétil.

“Esta população mais idosa, que não tem ou não viveu uma cultura de tanta informação sobre estas ISTs, acabou sendo usuária destes medicamentos para tratar disfunção erétil, que trouxeram novas possibilidades de contatos sexuais”, analisou o especialista, ressaltando que houve aumento no caso de adultos e idosos acometidos por infecções sexualmente transmissíveis. “Foi um aumento exponencial e não aritmético”, acrescentou.

ISTs e pandemia

O professor Luiz Fernando Sommacal acha que ainda é cedo para falar sobre o impacto da pandemia no número de infecções transmitidas por via sexual.

Para ele, o que é notório, é que está havendo uma subnotificação devido à dificuldade de acesso ao sistema de saúde, que está em boa parte focado no combate à pandemia (situação que vale para várias enfermidades).

Assim, está havendo uma redução em níveis relativos, que não reflete provavelmente os números absolutos destas ISTs. Outro dado importante neste cenário é que, segundo a OMS, aumentou o número de encontros por aplicativos.

Por outro lado, um estudo realizado no Acre apontou uma redução de 27% dos casos durante a pandemia. “Objetivamente, há uma tendência de esperarmos esta redução, mas é um viés de interpretação, como é chamado em epidemiologia. O fato de aglomerarmos menos, poderia gerar esta redução, mas, particularmente, não acho que isso sirva para todas as infecções. De qualquer forma, acho prematuro” ressaltou.

Casos de ISTs em Santa Catarina

O fato de Florianópolis receber turistas de todo o Brasil e de países vizinhos, por ser uma cidade litorânea, com população jovem, além de ter cidades vizinhas que costumam atrair turistas em busca de festas, como Itajaí e Imbituba, por exemplo, torna razoável esperar que haja um aumento no número de casos de notificações de IST em datas festivas.

Sommacal aponta dados da pesquisadora Adele Schwartz Benzaken, que apontam que no Brasil há 112 mil pessoas que têm HIV e não sabem, 260 mil pessoas com o vírus e que não tratam e 827 mil pessoas que convivem com a doença.

O especialista aponta que a sífilis congênita (aquela em que a criança nasce com os estigmas da doença não rastreada e não diagnosticada e não adequadamente tratada na gravidez) aumentou em 200%.

“Sim, é de se esperar que haja um aumento de ISTs em cidades onde há praias e onde o apelo ao turismo se dá pelo atrativo das pessoas, baladas, locais de festas com uso de drogas”, afirmou.

De acordo com Sommacal, o indivíduo deve procurar o posto de saúde toda vez que se expõe a uma atividade sexual insegura ou de risco para realizar os testes mínimos, sendo que para cada IST, há uma metodologia de rastreio e uma janela chamada silêncio sorológico.

“No caso do HIV, o resultado já dá positivo em 14 dias após a exposição ao vírus. Para sífilis, cerca de três semanas. Para clamídia, sete dias. Gonorreia, quatro dias. Então, temos um tempo necessário para que se torne positivo”, finalizou.

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