Com ‘laranjas’, Veigamed lucrou R$ 16,5 milhões na venda de respiradores a SC

Relatório do Coaf aponta que empresa teve lucro de 100% na operação com o governo do Estado; investigação aponta que nomes vinculados à empresa têm incompatibilidades

A empresa fluminense Veigamed teve lucro de 100% na transação da venda dos 200 respiradores ao governo de Santa Catarina. A constatação foi mostrada em relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), anexado ao processo da Operação Oxigênio.

Processo cita casa simples na cidade de Nilópolis (RJ) que seria a sede da Veigamed – MPSC/ReproduçãoProcesso cita casa simples na cidade de Nilópolis (RJ) que seria a sede da Veigamed – MPSC/Reprodução

O relatório de inteligência financeira apresenta uma série de irregularidades cometidas pela empresa de Nilópolis (RJ), incluindo a tentativa de remessa ao exterior no valor de R$ 16,5 milhões.

Habilitada a importar no máximo US$ 50 mil por semestre, a empresa demonstrou interesse em realizar, em uma única operação, a importação de respiradores no valor de R$ 16,5 milhões. Para isso, teria utilizado falsificação do invoice, documento de faturamento no exterior apresentado ao banco.

A partir disso, o Coaf constatou “atipicidade” na operação milionária. O valor, advindo da venda dos respiradores, foi depositado em duas parcelas de R$ 16,5 milhões pelo governo de Santa Catarina.

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O Conselho exigiu, então, explicações sobre os valores e teve da Veigamed a resposta de que o primeiro pagamento era relativo à compra dos ventiladores mecânicos.

Já o segundo seria a margem de lucro da negociação, representando 100% do valor na prestação do serviço. A manobra foi classificada pelo Coaf como “situação incomum no mercado”.

Infográfico explica relação entre os acusados e e a empresaVeigamed – Foto: Rogério Moreira Jr/NDInfográfico explica relação entre os acusados e e a empresaVeigamed – Foto: Rogério Moreira Jr/ND

Dona da empresa tem patrimônio incompatível

O MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) pediu a prisão temporária de quatro pessoas diretamente ligadas à Veigamed – pedido que foi negado pela desembargadora Vera Lúcia Ferreira Copetti, do TJSC (Tribunal de Justiça de Santa Catarina).

São eles: Pedro Nascimento Araújo (apresentado como CEO da Veigamed), Rosemary Neves de Araújo (sócia da Veigamed), Gilliard Gerent (representante da Veigamed) e Fábio Deambrósio Guast (representante da Veigamed).

As investigações apontam, no entanto, que Pedro e Rosemary, que aparecem como representantes legais da empresa, podem ser laranjas.

Registrada como dona da Veigamed, Rosemary tem patrimônio incompatível com os valores movimentados pela empresa. Segundo a investigação, ela reside em um modesto apartamento no bairro Irajá, na periferia da Zona Norte do Rio de Janeiro. Com nível de instrução médio, ela não possui veículos registrados em seu nome, nem linha telefônica.

Apesar do perfil, desde 2010 ela também é sócia na empresa Delta T Consultoria Empresarial, com atuação no ramo de gestão empresarial. Atividade que, segundo a investigação, é comumente usada para “dissimular a origem de ilícitos em manobras de lavagem de dinheiro”.

Outra incompatibilidade mostrada pelo MP é que, embora apareça como sócia da empresa, entre 2011 e 2012 Rosemary trabalhou como motorista em duas empresas de transporte urbano. Tais elementos, aponta a investigação, indicam que ela não é a real proprietária da Veigamed, tratando-se de uma ‘laranja’.

Pedro Nascimento de Araújo, por sua vez, é apresentado como CEO da Veigamed. Além disso, ele também é sócio da mesma consultoria atribuída a Rosemary, além de uma empresa de representações, a MB&AC, que também é investigada pela força-tarefa.

Por esta relação, o MP aponta a necessidade de apurar as atividades também destas duas empresas, para verificar se Rosemary e Pedro são ‘laranjas’ e identificar com quem mantiveram relacionamentos ilícitos.

Vereador no RJ tentou comprar kits de empresa de Joinville

Outro alvo da investigação do Ministério Público é Davi Perini de Vermelho, presidente da Câmara de Vereadores de São João do Meriti, município da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Apontado como comprador da Veigamed, Davi seria o responsável pela tentativa de compra de 100 mil kits de diagnóstico para Covid-19 junto à empresa Oltramed, de Joinville, ao custo de R$ 11,1 milhões.

O valor foi pago em seis parcelas, mas o negócio foi desfeito assim que o sócio proprietário da empresa catarinense soube das investigações sobre a Veigamed.

Confira os contrapontos dos citados pelo MP:

A reportagem do nd+ tenta localizar os envolvidos na investigação para contrapontos desde a tarde desta terça-feira.

Veigamed – Por volta das 19h desta segunda-feira (11), a assessoria de imprensa da empresa emitiu uma nota.

Sobre o processo # 5010352-88.2020.8.24.0000/SC do Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, cujo sigilo foi liberado hoje, a VEIGAMED informa que, conquanto seus advogados ainda estejam analisando o processo em tela, pode adiantar que os senhores Gilliard Gerent e Fábio Deambrósio Guasti não respondem pela empresa. A empresa reforça ainda que, neste momento, os seus esforços estão direcionados para garantir a entrega dos 200 ventiladores pulmonares invasivos Shangrila S510 para o governo do Estado de Santa Catarina o mais rápido possível e informa que o primeiro lote com 50 respiradores já saiu da China e tem previsão de chegar ao Brasil amanhã [12].

Por fim, a VEIGAMED reitera que continuará colaborado com a Justiça do Estado de Santa Catarina, à qual prestará todos os esclarecimentos necessários.

Douglas Borba – No início da noite desta segunda-feira (11), a defesa do ex-secretário se manifestou, por meio de nota.

A defesa de Douglas Borba se manifesta no sentido de que está acessando o processo para conhecer o seu inteiro teor; que Douglas Borba tem colaborado espontaneamente com as investigações e permanece à disposição das autoridades para o pleno esclarecimento dos fatos, certo de que sua conduta a frete da Secretaria da Casa Civil sempre se pautou pela legalidade e transparência.

Helton Zeferino – a reportagem tentou contato nesta tarde e início da noite, mas as ligações não foram atendidas e tampouco retornadas.

Fabio Deambrosio Guasti – a reportagem conseguiu o contato de uma de suas cinco empresas – a Meuvale Gestao Administrativa Ltda – onde, segundo repassado, ele não está mais no local. Deve emitir um posicionamento nesta terça-feira (12).

Davi Perini Vermelho – É vereador em São João de Meriti pelo DEM, não foi localizado. A reportagem tentou contato no seu gabinete, no Legislativo, mas o telefone não foi atendido nem retornado.

Leandro Adriano de Barros – a reportagem tentou o seu celular, em mais de uma oportunidade, e o telefone só foi registrado como desligado.

Samuel de Brito Rodovalho – Até a atualização da matéria não havia sido localizado.

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