Marcos Cardoso

A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Como os fisioterapeutas atuam em casos de Covid-19

Professora e especialista em fisioterapia respiratória fala sobre procedimentos, recuperação, sequelas e a unidade Covid-19 do Hospital Universitário da UFSC, onde trabalha há mais de um ano

Atraída pelo corpo humano desde criança, Michelle Gonçalves Tavares já o teve como ocupação principal de duas formas, paralelamente, em 1999: quando cursava o último ano de fisioterapia na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), foi eleita miss Santa Catarina. Em seguida, especializou-se em fisioterapia respiratória e traumato ortopédica, fez mestrado e doutorado em ciências médicas, trabalhou em clínicas e realizou pesquisa no Hôpital Antoine Beclere, em Paris.

Foi professora da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina) e, hoje, dá aulas na Udesc, além de atuar, há mais de um ano, na linha de frente da unidade de Covid-19 do Hospital Universitário da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Em 2017, ela resolveu empreender com mais seis sócios, abrindo uma clínica multidisciplinar na Capital.

Michelle Gonçalves Tavares, fisioterapeuta e professora universitária – Foto: Divulgação/NDMichelle Gonçalves Tavares, fisioterapeuta e professora universitária – Foto: Divulgação/ND

Por que escolheste atuar na área da saúde?

Enquanto criança e adolescente, eu tinha interesse em estudar o corpo humano (ciências biológicas), e gostava de participar de atividades humanitárias que meus pais organizavam.

Foste miss Santa Catarina em 1999. Era um sonho de infância/adolescência?

Nunca foi um sonho, pois a timidez e autoestima atrapalham muito uma menina de 12 anos e 1,70 metros. Apesar, que depois dos 15 anos, sempre recebia elogios e orientações para participar como modelo em empresas do ramo.

Como foi o teu reinado?

O ano de 1999 foi repleto de boas surpresas. A começar por conhecer uma pessoa extraordinária, que sinto muita falta, o saudoso Moacir Benvenutti. Ele foi meu padrinho nesta etapa de vida e me proporcionava muito carinho e orientação profissional.

Ganhei uma grande amiga, a miss SC 1998, Bárbara Erig, que muito me ajudou a cumprir a agenda e as etiquetas dos compromissos de miss. E guardo com ternura as aventuras dos eventos e viagens para as cidades do Estado com a equipe (Marcos Cardoso, Malú Erig e Giovani Lorenzen).

Conhecer a história de Santa Catarina através de seus eventos e pessoas auxiliou no meu amadurecimento e conhecimento de situações singulares.

Este mundo novo, com a magia de ser bem muito bem produzida e treinada, usando faixa e coroa, aconteceu em meu último ano da faculdade, fazendo parte da comissão de formatura do curso de fisioterapia da Udesc, escrevendo o trabalho de conclusão de curso (monografia) e participando de concurso de beleza (Miss Santa Catarina e Miss Brasil).

Posso dizer que o reinado foi maravilhoso, único e inesquecível!

Misses, da mesma forma que fisioterapeutas, têm como primeira preocupação o corpo, mas com foco na estética. Nem sempre aparência bonita é reflexo de boa saúde. Como um aspecto pode ajudar ou atrapalhar o outro?

Concordo que as misses precisam ter preocupação com a estética, mas o fisioterapeuta vai muito além desse aspecto. Atualmente, há a especialidade fisioterapia dermatofuncional, que utiliza a terapia para tratar disfunções estéticas no corpo humano, no entanto este segmento une o bem-estar físico e estético também dos pacientes com sequelas de queimaduras, cicatrizes e alterações de ressecções de músculos e pele em pacientes oncológicos, promovendo benefícios para o equilíbrio emocional e autoestima.

Aqueles com uma aparência dita “normal” podem apresentar uma autoestima alta, e isto pode contribuir na prática de atividades que promovam a saúde. No entanto, a saúde imaginária pode resultar da articulação entre biopoder e imaginário das mídias.

O biopoder dita a saúde a partir de uma métrica dos pesos e medidas adequados, enquanto o imaginário da mídia pode afetar a saúde com imagens de corpo que promovem magreza com sinônimo de beleza, com saúde, e gordura corporal ou músculos com o feio e/ou doenças. E, tais situações, não necessariamente sejam equivalentes.

Corpos com deficiência, disformes e desproporcionais não podem ser vistos como prova de um modo de viver que negligencia a saúde. Assim como um corpo olimpiano, não pode ser comparado a uma saúde íntegra. Para tal, é necessário iniciar esta discussão com a investigação do histórico familiar/genética e o estilo de vida (alimentação, qualidade de sono, nível de atividade física). Além de ter uma aparência desejável a pessoa comum deve avaliar situações de riscos para uma saúde saudável.

O profissional da fisioterapia tem como objeto de estudo o movimento humano, e é ele quem avalia, previne e trata os distúrbios da cinesia humana, sejam decorrentes de alterações de órgãos e sistemas ou com repercussões psíquicas e orgânicas.

Diante disto, o fisioterapeuta trabalha com a promoção da saúde. Neste contexto, a boa aparência nem sempre é um indicador de uma boa saúde, pois um indivíduo magro pode apresentar hipertensão, níveis glicêmicos e colesterol inadequados. Cada um é o maior responsável e grande agente transformador da sua saúde e qualidade de vida.

Michelle foi miss Florianópolis e miss Santa Catarina em 1999 – Foto: Divulgação/NDMichelle foi miss Florianópolis e miss Santa Catarina em 1999 – Foto: Divulgação/ND

Antes da Covid-19, a maior demanda por fisioterapia respiratória era em que casos?

Pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica (enfisema e bronquite), asma brônquica e pré e pós-operatórios de cirurgias torácicas (revascularização do miocárdio, lobectomias e gastroplastias).

Que sequelas em geral a Covid-19 pode deixar no paciente?

A doença causada pelo vírus conhecido como Sars-CoV-2 tem gerado diferentes tipos de complicações e graus de comprometimento funcional em milhões de indivíduos que se recuperam no cenário mundial.

As sequelas pós-Covid-19 podem prejudicar aqueles que desenvolveram a doença de forma moderada, pois podem comprometer a capacidade de realizar as atividades da vida diária e o desempenho funcional em certo grau, porque sentem maior cansaço muscular e falta de ar.

A insuficiência respiratória aguda é a forma grave e o indivíduo pode necessitar de suporte de oxigênio e ventilatório não invasivo e invasivo, necessitando de internação hospitalar. Em situações em que exigem cuidados intensivos, o uso de oxigênio, medicações, a intubação com uso de ventiladores mecânicos e a imobilização no leito podem causar sérios problemas sistêmicos, dentre eles a evolução para a fibrose pulmonar e fraqueza muscular importante e generalizada.

Na atualidade, há uma estratégia para diminuição da mortalidade. No entanto, os serviços de saúde precisam de estratégias a fim de readequar a recuperação física através de programas de fisioterapia respiratória e reabilitação pulmonar.

Fala-se muito de sintomas, prevenção, protocolos e vacinação contra a Covid-19, mas pouco sobre recuperação. O que deveríamos saber?

Há diferentes graus de comprometimento e complicações. É mais comum sequelas em pacientes que tiveram a forma mais grave, que necessitaram de hospitalização, como alterações pulmonares (fibrose pulmonar), cardíacas (arritmias, variações bruscas da pressão arterial), neuromusculares (sudorese, tremores, tonturas, equilíbrios, dor e fraqueza muscular), cognitivas (alteração sono e problemas na memória) e mesmo psicológicas (ansiedade e depressão).

Diante de comprometimentos sistêmicos, a reabilitação gradual já é iniciada em ambiente hospitalar, de forma individualizada, após avaliação por uma equipe multiprofissional (médico, fisioterapeuta, psicólogo, terapeuta ocupacional), para amenizar e/ou reverter tais comprometimentos. Na alta hospitalar, a reabilitação não pode ser interrompida mesmo que realizado em ambiente domiciliar em pessoas mais debilitadas.

É importante ressaltar que a reabilitação pulmonar favorece a recuperação da capacidade de realizar as atividades do dia a dia, e levar em consideração a necessidade de cada indivíduo. Por isso, o programa de exercícios respiratórios, de ganho de força muscular, de equilíbrio e mobilidade deve ser feito de forma individualizada, podendo ser em ambulatório e/ou clínica. Mas, com a questão do distanciamento social, pode ser realizado além do domicílio, por telerreabilitação.

Michelle Gonçalves Tavares (à dir.), com colegas formandas do curso de fisioterapia da Udesc – Foto: Divulgação/NDMichelle Gonçalves Tavares (à dir.), com colegas formandas do curso de fisioterapia da Udesc – Foto: Divulgação/ND

Os casos mais graves levam à UTI, com possibilidade de intubação. Quais são os procedimentos do fisioterapeuta?

O fisioterapeuta já atua na emergência, quando o paciente chega trazido pela família ou ambulância. É o fisioterapeuta que avalia, juntamente com o médico, as condições do paciente se manter sem oxigenioterapia, a necessidade de pronar (ficar de bruços) ou se precisará de suporte de oxigênio ou ventilação mecânica.

Todas essas avaliações são realizadas através de análise de ausculta pulmonar, esforço de respirar do pacientes e índices de oxigenação. Na necessidade de intubação, é o fisioterapeuta que avalia e ajusta os parâmetros de volume de ar, frequência respiratória, necessidade e quantidade de oxigênio e pressões geradas no ventilador mecânico para a intubação e segurança do paciente.

Após intubação, o fisioterapeuta reavaliará, mediante exames como gasometria arterial e ausculta pulmonar, os parâmetros necessários do ventilador mecânico no uso de sedação, estabilidade clínica e drogas utilizadas durante o período que for necessário da internação nos cuidados intensivos.

Diante da melhora clínica e decisão da equipe médica em diminuir sedação e drogas, o fisioterapeuta ajusta a forma como o ventilador auxiliará na respiração do paciente. Quanto menos sedação e mais estável o paciente se encontrar, menores serão os parâmetros, auxílio do ventilador mecânico e as atividades motoras deverão ser estimuladas de forma ativa (ou ativa assistida) pelo paciente sob orientação, realização e monitorização do fisioterapeuta.

Durante o período em que o paciente está em intubação, manobras de higiene dos brônquios, terapias de expansão pulmonar e mobilização (passiva, ativo-assistiva ou resistida) das articulações e músculos são necessárias, e estas atribuições são também do fisioterapeuta.

Após testes que a fisioterapia realiza e discussão com equipe, é papel do fisioterapeuta extubar o paciente e manter uma monitorização criteriosa durante a permanência dele na terapia intensiva. Pode ser necessário para uma boa manutenção do bom padrão da respiração e diminuir esforço do paciente o uso de ventilação não invasiva, máscara com reservatório com oxigênio ou sonda de oxigênio e, é o fisioterapeuta que avalia a melhor forma de manter o paciente bem ventilado e oxigenado.

E, é mantida  a continuidade aos exercícios de higiene brônquica, expansão pulmonar e motores (sentar no leito, na poltrona e caminhar) após extubação até a alta da UTI.

Na enfermaria, este trabalho de reabilitação tem continuidade de forma individualizada e diante das necessidades de cada um, com outra equipe de fisioterapeutas.

Trabalhas há mais de um ano na unidade Covid-19 do Hospital Universitário da UFSC. O que mais te impressionou?

Eu tenho muito orgulho de fazer parte da equipe de fisioterapia do HU, uma equipe altamente qualificada e experiente, que se posiciona e não mede esforços para se manter atualizada, sem perder o lado humano do ofício.

Durante este período, vi muitos pais e mães fazerem a última ligação para seus filhos antes de uma intubação. A equipe se emociona a cada adeus ou um até breve que é dado. Ouvimos diariamente: “eu tenho que voltar para meus filhos” ou “tenho medo de não voltar” ou “segura minha mão”.

Já atendemos amigos de amigos, pais de amigos, filhos de amigos e vibramos a cada mínimo indício de recuperação e nos entristecemos a cada retrocesso que pode acontecer. Cada óbito é uma família que não terá a chance de ver seu familiar para se despedir.

Pelos relatos de pacientes e familiares, percebes que as pessoas não estão se prevenindo por relaxamento, descuido, desinformação?

Eu sou mãe e filha, e sei o quanto foi e está sendo difícil manter os relacionamentos há mais de um ano em distanciamento social, durante a pandemia. Não há opção de se manter em casa quem precisa ir ao trabalho, cuidar de um parente ou amigo.

Tivemos relatos de pacientes/parentes que foram a festas e agrupamentos políticos. Houve casos de pai, mãe e filho internados na UTI no mesmo momento.

Acredito que há má fé em “desinformações” em algumas mídias, como notícias/relatos em grupos de WhatsApp, mas o principal é o descuido em não realizar a aglomeração e não utilizar os cuidados, como máscara e limpeza adequada das mãos.

Por que resolveste empreender? A ideia é, aos poucos, deixar de dar aulas e o serviço público para atuar somente na inciativa privada?

Profissionais que trabalhavam na academia e pesquisa, mas mantinham a sua atuação assistencial, sempre me inspiraram, como os doutores Emílio Pizzichini, Marcia Pizzichini, Darlan Matte, Anamaria Mayer, Leila Steidle, Alberto Cherpinski.

Acredito que há importância na decisão clínica quando o profissional está atualizado e conhece a relevância clínica de algum tratamento e procedimento, assim como há necessidade de não se afastar da assistência no intuito de se manter próximo das realidades do paciente.

Diante do meu histórico profissional, recebi o convite em fazer parte de uma equipe que proporciona a verdadeira importância da interdisciplinaridade. Há neste grupo a preocupação da integração entre as diferentes profissões, com troca contínua de experiências e visões terapêuticas em busca do melhor resultado clínico.

Além do consultório, mantenho meu vínculo no curso de fisioterapia da Udesc, em cursos de pós-graduação e na linha de frente no HU/UFSC-EBSERH. A ideia é manter a mente ativa e levar o conhecimento, seja como servidora pública ou na iniciativa privada, aos acadêmicos e pacientes.

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