Fabio Gadotti

Comportamento, políticas públicas, tendências e inovação. Uma coluna sobre fatos e personagens de Florianópolis e região.


Coronavírus: “Somos seres sociais, por isso o isolamento gera angústias”

Em entrevista à coluna, professor Celso Carminati fala sobre reflexões provocadas pela pandemia da Covid-19

Centro de Florianópolis em tempos de isolamento social – Foto: Anderson Coelho/NDCentro de Florianópolis em tempos de isolamento social – Foto: Anderson Coelho/ND

Ninguém vai passar incólume pela pandemia do coronavírus, que colocou o mundo em quarentena. Segundo o professor de filosofia Celso Carminati, do campus da Udesc em Florianópolis, o momento histórico vai estimular reflexões éticas, morais e comportamentais que devem impactar, de alguma forma, a era pós-Covid-19. 

Celso Carminati, professor da Udesc – Foto: Divulgação/NDCelso Carminati, professor da Udesc – Foto: Divulgação/ND

Quais as principais reflexões motivadas pela pandemia?
Uma delas é nossa relação com a natureza. Além disso, a gente passa a refletir sobre o mundo que cabe na nossa mão: passamos todos a ter medo, nos restringirmos a nossos espaços como condição de proteção e defesa da vida. Também percebemos mais fortemente a interligação e interdependência das pessoas e nações. A pandemia também estimula pensar sobre o lugar que ocupamos no universo, a importância da vida, o ser e o ter. Afinal o vírus, só visto em microscópio, é capaz de atingir qualquer pessoa.

O que mais passa pela cabeça neste momento?
Outra questão importante é pensar sobre a mudança no âmbito dos valores, os desafios nas relações éticas e morais. Já não somos isolados, dependemos sempre dos outros. Somos seres sociais. Aprendemos e crescer na coletividade e, por isso, o isolamento social gera angústias. Existem reflexos também no âmbito afetivo: não podemos abraçar família, amigos, colegas. Isso tem gerado adoecimento para muitas pessoas. Um problema a ser pensado daqui para a frente.

A percepção de que estamos no mesmo barco aumenta o sentimento de humanidade, torna as pessoas melhores?
À medida que as pessoas “voltarem ao normal”, acredito que as pessoas também voltarão ao seu normal, com seus valores e crenças. Apesar de uma perspectiva diferente de reflexão. Talvez a gente perceba uma mudança de pensamento, mas para que haja mudança de atitude e comportamento é importante que as instituições, como escolas e universidades, abram espaço para discussão sobre esse momento histórico.

O pensamento coletivo vai se sobrepor ao individual?
Para uma boa parcela da população, que já tinha essa preocupação com o social e com os excluídos, isso se alarga. E, talvez, a pandemia possa sensibilizar outras pessoas. A sociedade civil precisa ampliar essa rede de solidariedade e o poder público aumentar o papel das políticas públicas nas áreas assistenciais e de saúde. Tem que ter uma inversão: o coletivo se sobrepor ao individual, mas não como uma camisa-de-força, como controle das liberdades.

+ Fabio Gadotti