“Corônica” de viagem: a volta para casa de um brasileiro na Europa

Jornalista do Grupo ND relata a saga de 40 horas para poder deixar a Europa em meio à pandemia de coronavírus e voltar para casa

Por Diogo Maçaneiro, editor do nd+

Férias planejadas, passagens, hospedagens, passeios, orçamento e um sonho: passear por Espanha e Portugal, apreciar a culinária local, apreciar bons vinhos e reviver a história da Península Ibérica, completamente ligada com a nossa do Brasil. Esse era o meu cenário até o dia 4 de março, quando embarquei, juntamente com minha mulher Letícia, rumo a Madrid, Lisboa e Porto.

Área de conexão no aeroporto Charles de Gaule, em Paris, completamente vazio na quinta-feira (19) – Foto: Diogo MaçaneiroÁrea de conexão no aeroporto Charles de Gaule, em Paris, completamente vazio na quinta-feira (19) – Foto: Diogo Maçaneiro

Mas a programação precisou ser alterada, de forma brusca na capital portuguesa. Quando chegamos lá no dia 12 nos deparamos com uma cidade-fantasma. Uma cidade em vias a emanar para todo o país a situação de emergência e a consequente reclusão das pessoas.

“Lelê, começa a arrumar as malas aí porque vamos para Porto”. Essa frase marca nossa volta para casa. Terça-feira (17) de sol e o noticiário garante: governo português vai decretar situação de emergência do país. Horas antes fui à embaixada brasileira para me informar sobre o procedimento caso tivesse problemas com o voo de volta por um eventual fechamento de espaço aéreo. O botão do pânico foi acionado com as portas fechadas na sede da diplomacia brasileira.

Embarcamos às 19h30 do mesmo dia, de trem, para Porto, onde havíamos planejado passar a semana final de férias. No entanto, antecipamos o trecho, pois, depois de três tentativas, finalmente conseguimos um voo de volta para casa em dois dias. Porém, nossa passagem por lá se reduziu a um quarto de hotel e sem nenhum atrativo por perto. Fim de festa.

Graças ao nosso planejamento de viagem bem feito, tínhamos dinheiro para ficar num bom hotel próximo ao aeroporto de Porto, onde chegamos às 23h30 do dia 17. Com a confirmação do estado de emergência em Portugal nossa apreensão aumentou: “será que vão fechar o espaço aéreo?”.

Tínhamos dois dias pela frente e lidamos com a primeira dificuldade: comida escassa – mesmo no hotel. No saguão, apenas snacks e bebidas na maquininha de moedas. Nada de bar, lanchonete ou restaurante aberto nos arredores, exceto um, com apenas duas opções de petiscos e limitação de clientes no estabelecimento e, separados por dois metros entre casa mesa.

Entrada restrita 

Às 7h30 de 19 de março fechamos as malas e caminhamos até o aeroporto por dez minutos e na entrada começamos a sentir a anormalidade. “Cartão de embarque e passaporte por favor”, disse um segurança ainda do lado de fora do terminal Francisco Sá Carneiro. A mensagem era clara: acesso somente com viagem marcada e voo confirmado. Despedidas de familiares apenas do lado de fora.

“Temos um problema”

No check-in, apreensão. Pessoas à nossa frente eram avisadas que suas reservas haviam sido cancelada. Na nossa vez o susto foi outro. “Temos um problema. Paris está fechada”, disse a atendente da KLM. Nossa passagem previa uma odisseia: Porto – Amsterdã – Paris – Rio de Janeiro – Florianópolis. Ou seja, para chegar ao Brasil, passar pela França era necessário. Após alguns minutos e telefonemas da equipe para a “matriz”, fomos liberados para seguir viagem. Decolamos às 11h15 (8h15 em Brasília).

Painel de decolagens no aeroporto Schiphol, em Amsterdã, mostra quase 100% de voos cancelados numa tarde – Foto: Diogo Maçaneiro/NDPainel de decolagens no aeroporto Schiphol, em Amsterdã, mostra quase 100% de voos cancelados numa tarde – Foto: Diogo Maçaneiro/ND

Aeroportos desertos

Na chegada em Amsterdã, finalmente o choque. Corredores e esteiras de locomoção vazias. Restaurantes, bares, lojas e serviços aos passageiros quase todos fechados. Os poucos abertos isolavam em 1,5 metro atendentes e pessoas. Um deles pedia para que os pagamentos fossem feitos apenas por cartão, para evitar a contaminação por meio das cédulas.

Cinco horas depois, em Paris, a situação era ainda pior. Todos os serviços de alimentação fechados, inclusive o freeshop (tradicional ponto de compras nos aeroportos internacionais, muito procurado por causa de produtos vendidos mais baratos devido a isenção fiscal, como perfumes, bebidas, chocolates etc). Apenas uma pequena conveniência com poucas opções.

Após dez horas de voo, a chegada ao Rio de Janeiro às 6h30 (vídeo acima mostra o pouso visto pela câmera da aeronave) foi, novamente chocante. Diferentemente dos aeroportos europeus, o Galeão estava lotado, mas com muita confusão, pois voos eram cancelados e algumas pessoas não conseguiram voltar para Porto Alegre e Salvador, por exemplo. Houve até um princípio de tumulto entre um grupo de argentinos e agentes de uma companhia aérea.

Enfim, em casa

Sem dormir direito, sem banho, com alimentação ruim – mas sem nenhum sintoma de covid-19 – e a incerteza do que encontrar pelo caminho, a espera na Cidade Maravilhosa foi sem brilho. Mais de oito horas entre a chegada da Europa e o voo derradeiro para casa. Mais uma vez, em Floripa, nenhuma barreira sanitária no dia 20, às 19h.

Foram 40 horas “nessa brincadeira”.

Já em casa, foi  o momento de comemorar o aniversário da Letícia, que só foi possível graças à gentileza da cunhada dela, a Vanessa, que foi ao supermercado e abasteceu a casa antes de chegarmos.

A festa foi em família, mas via chat de vídeo.

Parabéns, Lelê!

Festa de aniversário ao modo “quarentena” – Foto: Reprodução/NDFesta de aniversário ao modo “quarentena” – Foto: Reprodução/ND

IMPORTANTE: Se forem viajar para muito longe, comprem as passagens com uma agência de viagem. Fizemos isso e se não fosse a Fernanda, da CVC, mediar com as companhias aéreas os três cancelamentos que tivemos até conseguir embarcar, certamente o perrengue seria real, não essa crônica até certo ponto leve pela situação em que vive o mundo.

Outra ressalva: espero que as autoridades cuidem de quem não consegue superar os problemas do coronavírus como nós conseguimos. Pessoas humildes que vão sofrer muito com as consequências desse mal.

#fiqueemcasa

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