Covid-19 avança em pequenos municípios de SC, que deverão pagar a conta por vacinas

Municípios com até 10 mil habitantes, que somam 166 cidades, respondem por 56% dos registros; especialistas apontam falta de fiscalização e monitoramento como razões do avanço da doença

Faz pouco mais de noves meses que Santa Catarina convive com a pandemia da Covid-19. Depois de se disseminar pelas grandes cidades, o coronavírus avançou sobre os pequenos e médios municípios.

mostrar a visão aérea do pequeno município de tunápolis Município de Tunápolis, no Extremo-Oeste de Santa Catarina tem 4.525 habitantes – Foto: Governo de SC/Divulgação/ND

A progressão da Covid-19 nas cidades pequenas revela uma situação preocupante em razão da menor disponibilidade e capacidade de seus serviços de saúde.

Quanto mais casos são confirmados nos pequenos e médios municípios, mais pressão sofre o sistema de saúde, uma vez que o avanço da doença está ligado ao fluxo de mais pessoas que precisam de atendimento especial.

“É um efeito cascata. O número de casos sobe no Estado todo, como vemos hoje. Com isso, há também o aumento de casos graves e, como consequência, a alta na ocupação dos leitos de UTI”, alerta o professor de Saúde Pública da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) Fabrício Augusto Menegon.

Evolução do número de municípios

Os boletins divulgados semanalmente pelo Necat (Núcleo de Estudos de Economia Catarinense), vinculado à UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), vem apontando o avanço dos casos nos pequenos e médios municípios de Santa Catarina.

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O último boletim, publicado no dia 30 de dezembro, analisa a situação dos casos da Covid-19 entre os dias 17 de dezembro e 28 de dezembro.

De acordo com o documento, do ponto de vista do movimento dinâmico da doença, observa-se que o contágio se iniciou pelas grandes cidades do Estado e se expandiu, posteriormente, para as cidades pólos regionais.

A partir daí, passou a se disseminar pelos pequenos municípios do interior. Tal movimento também foi observado em outros estados.

Segundo o Necat, verifica-se que, passados nove meses do primeiro registro, essa seria a terceira fase de espraiamento da doença no território catarinense, movimento que acabou atingindo todo o Estado.

Aumento de casos por número de habitantes

Outra forma levantada pelo Necat para analisar a evolução da doença no Estado é através da quantidade de casos por número de municípios, de acordo com os estratos populacionais, ou seja, o número de habitantes.

Conforme o gráfico, as treze cidades com populações acima de 100 mil habitantes mantiveram a sua participação em 52,82% do total de casos registrados no Estado.

Entre os dias 17 de dezembro e 28 de dezembro houve um aumento de 8% do número de casos nesse estrato populacional.  Isso indica que, hoje, as cidades mais populosas do Estado apresentam um ritmo de contágio acima da média estadual (7,5%).

Com relação ao estrato populacional entre 50 mil e 100 mil habitantes, verificou- se que a participação no agregado estadual se reduziu para 14,21%, em função do aumento percentual no período considerado de 7,5%.

Quanto ao estrato populacional entre 20 mil e 50 mil habitantes, o percentual de participação se manteve em 15,69%, com o aumento do número de casos nesse estrato de 7,5% no período da pesquisa.

No estrato populacional entre 10 mil e 20 mil habitantes, o percentual de participação no total estadual se reduziu para 9,49% ao final do período considerado, enquanto o número oficial de registros da doença aumentou em 7%.

Nas cidades que têm entre cinco mil e 10 mil, o percentual de participação no total estadual se reduziu para 4,40% ao final do período considerado. Já o número absoluto de registros da doença aumentou em 7%.

Os pequenos municípios, com estrato populacional de até cinco mil habitantes ampliaram sua participação no agregado estadual para 3,39%. O número absoluto de registros da doença aumentou em 8,5%, a maior taxa dentre todos os estratos considerados.

A partir dessa análise, verifica-se que as duas primeiras faixas populacionais (0001 até 10 mil habitantes), que somam 166 cidades, respondem por 56% dos municípios com registros.

Porém, o número de casos é relativamente baixo quando comparados aos demais estratos, sendo 7,79% do total de registros.

De acordo com o boletim, ao se somar o número total de municípios com os estratos populacionais de até 20 mil habitantes com casos registrados, verifica-se que, embora esses estratos detenham apenas 17,50% do total de pessoas infectadas com a doença no Estado, eles representam 76% de todos os municípios que já registraram a presença da Covid-19.

Nesta quinta-feira (7), o painel de dados da Covid-19 da Secretaria de Estado da Saúde apontava que, dentre os cinco primeiros municípios com mais casos confirmados da doença para cada 100 mil habitantes, quatro deles tem menos de cinco mil habitantes.

São eles:

  • Presidente Castello Branco: segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2019, o município do Meio-Oeste de Santa Catarina tem 1.547 habitantes e 18.367 casos confirmados para cada 100 mil habitantes;
  • Tunápolis: segundo o IBGE, o município do Extremo-Oeste tem 4.525 habitantes e 13.625 casos confirmados para cada 100 mil habitantes;
  • Entre Rios: segundo o IBGE, o município do Oeste tem 3.218 habitantes e 12.988 casos confirmados para cada 100 mil habitantes;
  • São Martinho: segundo o IBGE, o município do Sul catarinense tem 3.171 habitantes e 12.893 casos confirmados para cada 100 mil habitantes.

Isso consolida a tendência de espalhamento do novo coronavírus em direção aos pequenos municípios, ainda que o número absoluto dos casos registrados continue concentrado nas médias e grandes cidades do Estado (de 20 mil habitantes ou mais).

Essas cidades representavam apenas 24% dos municípios com registros, porém, 82,5% de todos os casos oficialmente confirmados.

Falta de fiscalização e monitoramento

Para o diretor-executivo da Fecam (Federação Catarinense de Municípios), Dionei Walter da Silva, a forte presença da Covid-19 nos pequenos e médios municípios do Estado se dá por dois motivos.

Primeiro, a falta de condições de fiscalização da propagação do vírus. A infecção nessas regiões, segundo Dionei, se dá, principalmente, pelo núcleo familiar.

É o caso de parentes que chegam de outras cidades e até mesmo o deslocamento para o trabalho. Nessas situações, a pessoa acaba levando o vírus para dentro de casa.

A fiscalização, portanto, se torna bem mais difícil. A segunda razão apontada por ele é que, uma vez que uma pessoa infectada é identificada, não há monitoramento. Ela continua circulando e espalhando o vírus.

Essa dificuldade também foi levantada pelo professor Fabrício Menegon. Ele explica que esses locais não têm a mesma estrutura de vigilância epidemiológica de um grande centro.

“O município tem 15 casos ativos. Aos olhos de cidades como Florianópolis e Joinville parecem muito pouco, mas para um município com poucos habitantes é muito. As vezes, só uma pessoa na Secretaria de Saúde faz a vigilância e o monitoramento desses casos. Não dá conta”, diz.

Sendo assim, para o professor, o ideal seria que o governo do Estado auxiliasse na formação de uma estrutura de saúde mais apta a lidar com situações como essa, para que os casos pudessem ser rapidamente identificados, isolados e monitorados.

Movimento para o trabalho

Fabrício Menegon diz ainda que os municípios de pequeno porte, sobretudo, aqueles que se localizam próximos a cidades que atuam como pólos produtivos apresentam surtos de Covid-19.

Isso porque existe um movimento de pessoas que se deslocam da pequena cidade para trabalhar nos grandes centros e retornam para o seu núcleo familiar no final da jornada.

“Se esse trabalhador teve contato com um caso positivo, tem probabilidade alta de ser contaminado e vai levar o vírus para dentro de casa. Consequentemente, o vírus vai acabar se espalhando e infectando outros moradores da pequena cidade.”, explica.

Neste sentido, para o especialista, a maioria dos casos que são registrados nas pequenas cidades vem de fora.

Esse contexto se dá, também, pela dificuldade que o morador da pequena cidade tem em colocar em prática o distanciamento social. Sem a opção do trabalho remoto, como se vê nos grandes centros, esse morador acaba se expondo mais à doença.

Para barrar o avanço da Covid-19 nos pequenos municípios, Menegon sugere que as empresas devem monitorar os casos positivos nas suas unidades produtivas.

“Se a empresa tiver uma estratégia boa de testes em massa, isolar os casos positivos e mesmo auxiliar o sistema de saúde a monitorar esses casos. Já seria de grande ajuda. Até porque a indústria tem mais capacidade financeira de fazer isso.”, argumenta.

Estrutura de saúde

Nas cidades de pequeno e médio porte a estrutura da rede de atenção à saúde, sobretudo, de alta complexidade que envolve os leitos de UTI, é regionalizada.

Isto é, as grandes cidades que possuem hospitais com leitos de UTI devem atender também os municípios menores do entorno. A regulação dos leitos de UTI do SUS é feita pelo governo do Estado.

Se determinado caso de Covid-19 evolui para um quadro grave e requer internação em um leito de UTI, o paciente é internado na cidade de seu consórcio regional que possui um hospital referência.

Sendo assim, se há um aumento do número de casos da doença em cidades de pequeno e médio porte, mais casos podem necessitar de internações em UTI.

O resultado é a sobrecarga e o colapso no sistema de saúde, que não possui estrutura suficiente para atender uma demanda tão alta.

Não bastam mais leitos, é preciso frear

O especialista em Saúde Pública da UFSC ressalta que para evitar um colapso no sistema de saúde não basta que o Estado disponibilize mais leitos de UTI. O ideal seria frear o contágio pela Covid-19.

Para Menegon, o sistema de saúde do Estado de Santa Catarina vem operando no limite de sua capacidade. A taxa de ocupação de leitos de UTI há tempos gira em torno dos 80%.

Nesta quinta-feira, apontava 78,98%, no painel da Secretaria de Estado da Saúde. Ele conta que tal contexto é negativo sob dois aspectos.

Primeiro, porque o profissional de saúde está sobrecarregado. Segundo, porque os leitos de UTI se voltam ao tratamento de pacientes com a Covid-19. Cirurgias eletivas, por exemplo, deixaram de ser realizadas.

Sob esse contexto, o mais adequado, para Menegon, seria frear o avanço do contágio com a adoção de medidas de proteção que reforcem o distanciamento social e não permitam a aglomeração de pessoas.

Recursos para ações de enfrentamento 

A Secretaria de Estado da Saúde informou que atua desde o inicio da pandemia para o fortalecimento das estruturas hospitalares em todas as regiões.

A Saúde disse ainda, que os municípios catarinenses, independente do porte receberam recursos para o enfrentamento da pandemia.

Os municípios de Presidente Castello Branco, Tunápolis, Entre Rios e São Martinho – citados anteriormente na reportagem – receberam um total de R$ 507.991,92, R$ 1.099.151,97, R$ 650.144,87 e R$ 577.421,58, respectivamente.

Município de Presidente Castello Branco, no Meio-Oeste de SC, tem 1.547 habitantes – Foto: Governo de SC/Divulgação/NDMunicípio de Presidente Castello Branco, no Meio-Oeste de SC, tem 1.547 habitantes – Foto: Governo de SC/Divulgação/ND

Contudo, para o diretor-executivo da Fecam, a aplicação desses recursos nos pequenos municípios ficou “vaga”.

Sem condições de habilitar leitos de UTI, o recurso vai para a atenção básica, mas não há eficácia na garantia da prevenção e contenção do vírus.

“Tem município pequeno que tem pouquíssimos policiais militares e que, aos finais de semana, ainda seguem para fiscalizar praias na cidade grande. O agente de saúde não tem condições de fiscalizar, monitorar e impedir a aglomeração em um bar de uma cidade pequena, por exemplo.”, diz Dionei.

Sendo assim, além do fortalecimento da fiscalização, para Dionei, falta ainda uma campanha efetiva por parte do Executivo alertando a população da situação grave na qual o Estado se encontra.

Vacinação preocupa

A questão da vacinação nos pequenos municípios também preocupa. A Fecam, que já fechou parceria para a reserva de vacinas da Coronavac, diz que o ideal seria que o Ministério da Saúde tomasse a frente na imunização da população.

Conforme publicado em reportagem do ND+ de 9 de dezembro, a entidade espera iniciar a imunização dos catarinenses contra a Covid-19 no mês de fevereiro.

Porém, uma vez que ainda há indefinição por parte do governo federal sobre a aquisição de vacinas e o início da vacinação, os pequenos municípios, possivelmente, terão que arcar com os custos para imunizar suas populações.

“Os pequenos municípios fazem parte de consórcios de saúde. Esses consórcios nasceram porque o Estado não cumpriu seu papel na alta e média complexidade, que são os exames e consultas especializadas. Hoje, os consórcios evoluíram e alguns, inclusive, já estão se movimentando para garantir a vacina”, revela Dionei.

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