Covid-19 em SC: Pacientes morreram enquanto aguardavam vagas em UTIs

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ND+ identificou dois casos no interior; dados revelam que 47% dos mortos por Covid-19 não passaram por unidades de terapia intensiva. Governo nega que ausência de leitos tenha relação com óbitos

Na tarde de 31 de julho, no pico da pandemia de Covid-19 em SC, enquanto o governador Carlos Moisés, do PSL, caminhava pelos corredores do Hospital Regional de Araranguá para anunciar a ampliação de 10 novos leitos de UTI para unidade, todos com monitores e respiradores, Isabel assistia a mãe, a 25 quilômetros dali, pelo vidro da enfermaria do Hospital Dom Joaquim, em Sombrio.

A paciente tinha piorado e precisava ser transferida. No auge da pandemia no Estado, os hospitais referência para tratamento da Covid-19 mais próximos, em Araranguá e Criciúma, estavam lotados. “Surgiu uma chance de levar ela para Florianópolis, mas era particular, queriam R$ 25 mil no ato e R$ 1 mil por mês. Nós não tínhamos condição de pagar”, relembra a filha.

A caminhada de Moisés e seus assessores em 31 de julho ocorreu tarde demais para a dona Celina, que morreu horas antes aguardando um leito ne UTI na unidade que poderia tê-la salva da morte por Covid-19 – Foto: Julio Cavalheiro/divulgação SECOM/ND

Isabel Correia de Moraes, 47 anos, ainda busca explicações. “Ela era uma mulher forte, cuidava dos netos e sobrinhos para minha cunhada ir trabalhar. Ia fazer 90 anos, agora, em 21 de novembro, mas ninguém dizia que ela tinha essa idade”, relatou a filha ao ND+. Os documentos e registros públicos afirmam ela estava com 85 anos, mas, na verdade, tinha 89. “E era cheia de força”, diz a filha. O registro da Secretaria de Saúde confirma que ela não tinha comorbidades.

A saga de Celina começou no dia 27 de julho, quando foi internada no Hospital São Roque, em Jacinto Machado, com tosse, dispneia e febre. Apesar de ter sido isolada imediatamente, naquele momento com suspeita de Covid-19, a confirmação da infecção pelo vírus só veio mesmo no dia 31 de julho, após a família pagar pelo teste.

Àquela altura, o quadro clínico de Celina tinha piorado e ela já estava no Dom Joaquim, em Sombrio, onde aguardava pela liberação de um leito de UTI em Araranguá, que é o hospital referência da região. Mas a vaga não surgiu.

Ainda na noite do dia 31, os familiares tiveram uma última esperança para a transferência, novamente em Florianópolis, e desta vez pelo SUS. “Ela não poderia ser transferida de ambulância, seria levada de helicóptero na manhã seguinte”, confirmou o secretário de saúde de Araranguá, Adilson Piva, à reportagem. Foram cinco dias de sofrimento com os sintomas mais agudos da doença e sem contato com a família.

Às 4h da madrugada, já de 1º agosto, os médicos atestaram óbito por Covid-19. A morte da moradora da localidade de Dois Irmãos, no interior de Jacinto Machado, no extremo-sul catarinense, foi a segunda no município, que tem 10 mil habitantes, pelo novo vírus.

O secretário de Saúde de Araranguá confirmou a falta de leitos para transferência de Celina no município. “Nós tentamos em todos os hospitais da região, e quando surgiu em Florianópolis ela acabou não conseguindo ser transferida a tempo”, explica Piva.

Dois dias depois da morte de Celina, a mesma dificuldade por um leito UTI se repetiu em Campos Novos, onde um paciente de 82 anos, internado no Hospital Dr José Athanázio, teve complicações, mas também não conseguiu transferência. A vítima não teve seu nome divulgado pela instituição.

“No dia 03/08 todas as UTIs covid que são referência para o nosso município (Caçador, Concórdia, Curitibanos, Joaçaba, Videira) estavam com 100% de ocupação. O paciente apresentou piora do quadro clínico às 23:00 do dia 03/08, onde imediatamente teve suporte médico, necessitou de ventilação invasiva e cuidados intensivos, o hospital não possui UTI, sendo assim, logo foi pedido leito de UTI via regulação de leitos”, informou a Direção da Fundação Hospitalar Dr José Athanázio.

O paciente foi internado no dia 18 de julho, mas a confirmação da doença só chegou no dia 27, quase 10 dias após a internação. Segundo a direção do hospital, ainda na noite do dia 3 de agosto o paciente foi sedado e intubado, mas necessitava de uma UTI. Às 4h15 ele não resistiu. A reportagem do ND+ segue apurando este caso específico e publicará seus detalhes numa nova reportagem.

Esta é a mais uma reportagem da série “Covid-19 em Dados”, uma iniciativa do ND+ com o patrocínio do Google sobre a pandemia do novo coronavírus. Clique aqui e confira a página especial do projeto com todas as reportagens.

Os dois relatos colhidos pela reportagem revelam apenas uma fração da situação dos leitos de UTIs em Santa Catarina no momento crítico da pandemia. Os dados sobre a letalidade do Covid-19 no Estado mostram que 47,1% das 2.515 mortes registradas até 12 de setembro, quando foi feita esta análise, ocorreram fora das UTIs.

Foram 1.090 pessoas que morreram em leitos básicos e 96 que sequer chegaram a uma unidade de saúde. As informações fazem parte do conjunto de dados sobre a Covid-19 que são divulgadas diariamente pela Secretaria de Estado da Saúde.

O que os dados não podem confirmar, no entanto, é quantas dessas mortes efetivamente ocorreram por falta de leitos de UTI. A reportagem questionou a Secretaria de Saúde sobre as circunstâncias dessas mortes fora das unidades intensivas e também se seria possível atestar que esses pacientes não necessitaram de transferências.

Também questionamos sobre os protocolos para transferência de pacientes de unidades distantes dos hospitais de referência e citamos o caso de Campos Novos e do sul do Estado, onde os pacientes morreram antes de conseguirem uma vaga em UTI. 

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde apenas informa que não reconhece mortes por falta de UTIs. “Em nenhum momento, durante todos os seis meses de enfrentamento da pandemia, o Estado registrou óbito decorrente de falta de atendimento ou de leitos, tanto de enfermaria, quanto de UTI”, respondeu a pasta. 

Sobre as transferências de pacientes em regiões distantes das unidades de terapia intensiva, a Secretaria afirmou que “é uma prática comum e determinada pela Central de Regulação Estadual, que executa todo o planejamento e ações para que os pacientes sejam transferidos, quando a situação clínica permite”.

A Secretaria de Saúde ainda destacou que desde o início da pandemia, o Estado aumentou em 127% a capacidade hospitalar, estratégia essa adotada justamente para que parte dos novos leitos estejam disponíveis à população após a pandemia. 

Os novos leitos de UTI anunciados pelo governador Moisés para o Hospital Regional de Araranguá, em 31 de julho, eram para estar em atividade desde o início daquela semana —quando Celina deu entrada no hospital de Jacinto Machado—, mas, segundo o secretário de saúde Adilson Piva, os leitos não foram ativados antes por falta de profissionais capacitados.

Das 10 posições prometidas, o secretário disse que oito foram ativados. “A situação hoje é melhor, mas enfrentamos um período de dificuldades naquele momento”, disse Adilson Piva, por telefone, no último dia 14 de setembro, quando a situação no hospital já era mais tranquila.

Metade das mortes ocorreu entre julho e agosto

O período de 30 dias, entre 6 de julho e 6 de agosto, SC registrou mais da metade de todos os óbitos em seis meses de pandemia.

No final de julho e início de agosto, todas as regiões catarinenses apresentavam ao menos uma unidade de saúde com lotação máxima para leitos destinados ao tratamento da Covid-19. Em 1º de agosto, 25 hospitais registravam lotação máxima, incluindo todos da região da Foz do Rio Itajaí. Os dois meses também coincidem com o período de maior registro de óbitos de pessoas que não passaram por UTIs.

Das 1.113 mortes registradas em julho, 505 óbitos ocorreram fora das UTIs (45% dos registros) e 608 mortes foram de pessoas internadas na terapia intensiva. Entre essas mortes, 467 ocorreram em leitos comuns, sem tratamento intensivo.

Em agosto, o percentual de mortes fora das UTIs aumentou em relação ao total de registros. Dos 741 óbitos naquele mês, 51,9% —ou 385 pessoas— não passaram por unidade intensiva. Desses, 355 óbitos ocorreram em leitos comuns e 30 não têm registros de nenhum tipo de internação. 

Desde o início da pandemia, segundo os registros, 2.804 pessoas passaram pelas UTIs de Santa Catarina, dessas, 1.329 morreram na terapia intensiva. Já nos leitos comuns, foram 9.011 internações.

A falta de UTIs nos meses de julho e agosto não era mais novidade em Santa Catarina. No final de maio e início de junho, o Estado já tinha experimentado situações de colapso no sistema de saúde quando unidades na Foz do Rio Itajaí relataram superlotação —de lá pacientes precisaram ser transferidos às pressas para outras regiões no início de junho. 

Também registraram lotação máxima, na sequência, UTIs na Capital e no Sul do Estado, no mesmo Regional de Araranguá onde Celina aguardou a vaga que não veio. Até final de julho a lista de hospitais que atingiram 100% de ocupação para Covid-19 só cresceu.

Em Itajaí, segundo a diretora de Vigilância Epidemiológica, Suzany de Fátima Henchoste Olibone, houve dificuldades para transferências de casos graves: “Em algumas situações, nós chegamos a aguardar mais de 12 horas para conseguir leito em outra região”, contou.

Itajaí registrou 156 mortes, segundo dados do Estado. Desses registros, 40 pessoas passaram por Unidade de Terapia Intensiva e 116 não tiveram esse tipo de internação. Sendo que 113 pessoas que tiveram óbito registrado deram entrada em leitos comuns.

Suzany avalia que, apesar da superlotação e das dificuldades para conseguir vagas de UTIs no pico da pandemia, não foram registradas mortes em Itajaí por falta de leitos. “Temos respiradores nas duas UPAs e mesmo com dificuldades conseguimos fazer as transferências necessárias”, disse.

MPSC investiga uso de recursos para UTIs em Joinville

Em 22 de julho, Santa Catarina registrou 52 óbitos por Covid-19. Em um dos dias com maior número de mortes, naquela quarta-feira, o Ministério Público de Joinville instaurou Notícia de Fato para apurar “possível divulgação enganosa pela Secretaria Municipal de Saúde no que diz respeito à disponibilidade de leitos em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs)”, além de má utilização de recursos destinados à ampliação de vagas para atendimento hospitalar intensivo. O caso ainda tramita na 13ª Promotoria de Justiça de Joinville.

Na maior cidade do Estado, que também tem o maior número de casos confirmados e mortes  por coronavírus, 51,3% das pessoas que morreram não passaram pelas UTIs. Foram 153 mortes, das 298, fora das unidades intensivas.

Segundo assessoria da Prefeitura de Joinville, o objetivo da administração era disponibilizar até 100 leitos para o tratamento da doença, mas não conseguiu alcançar esse número.

A expectativa do município era que houvesse maior investimento do Estado na ampliação de leitos da UTI do Hospital Regional Hans Dieter Schmidt, que atualmente tem 20 leitos e havia previsão de mais 20, totalizando 40. Porém esse processo não se confirmou, frustrando a previsão de 100 leitos públicos que estava sendo projetado pela Secretaria da Saúde do município”, informou, por meio de nota. Ainda segundo a municipalidade, durante a pandemia, nenhum paciente ficou sem leito em unidades de terapia intensiva. 

Sobre os investimentos de recursos públicos no tratamento da pandemia, a Prefeitura de Joinville informou que divulga no próprio site os “dados de todos os processos de compras envolvendo investimentos à Covid-19”. 

No início da pandemia, o Prefeitura chegou a pedir a liberação para um empréstimo no valor de  100 mil dólares ao Ministério da Economia para criar um local adequado no atendimento de infectados, mas o empréstimo internacional até hoje não foi liberado.

Sobre a notícia de fato instaurada pelo MP, a Prefeitura informou: “O Município já prestou todos esclarecimentos necessários ao Ministério Público, que cumpre o papel de fiscalizar os investimentos dos recursos públicos”.

Estado negou ampliação de leitos em Rio do Sul

A demanda por leitos também levou o MPSC em Rio do Sul a instaurar um inquérito civil para cobrar a instalação de 10 novos leitos de UTIs no Hospital Regional Alto Vale. No processo instaurado pela 6ª Promotoria de Justiça, a promotora Caroline Sartori Velloso Martinelli apura possível omissão do Estado em não atender aos pedidos para ampliação de leitos.

Ao ND+, a promotora adiantou que o Estado já respondeu ao pedido de informação no âmbito do inquérito e comunicou que não vai promover a ampliação dos leitos no hospital do Alto Vale.

Em Rio do Sul, MPSC ainda avalia ação do estado na ampliação de UTIs – Foto: Divulgação/ND

“O inquérito foi instaurado para apurar as razões pelas quais a instalação de 20 leitos estava demorando. Na época, foi uma decisão do município bancar a infraestrutura para essa ampliação, foram investidos R$ 4 milhões, foi iniciada a contratação de pessoal, mas era preciso que o Estado fornecesse os respiradores”, explicou Caroline Sartori.

Segundo a promotora, quando o inquérito foi instaurado, Santa Catarina enfrentava o pior momento da pandemia. A notificação do inquérito cobrando posicionamento do Estado ocorreu em 27 e agosto e a justificativa, segundo a promotora, para o não atendimento ao pedido seria o fato de a curva de novos casos estar em queda. “Viram o pedido como um capricho da nossa região”, disse.

Caroline Sartori pediu uma análise técnica para verificar se ainda há necessidade dos 10 leitos para avançar no inquérito. “De qualquer forma, nada do que já foi feito ou será realizado vai se perder. É um patrimônio público para toda a região de Rio do Sul, que abrange mais de 20 municípios”, completou.