Número de bebês mortos por Covid-19 em SC sobe após correção de erro do governo; entenda

Especialistas ainda não encontraram explicações sobre motivos que levam o agravamento do vírus em bebês; síndrome rara também causa preocupação no pós-Covid

A cada dia, a Covid-19 faz novas vítimas em Santa Catarina. Só em março, o Estado já confirmou 919 mortes devido à doença, de acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde. Desde o início da pandemia, são 8.277 óbitos.

Entre eles, também há uma triste estatística: ao menos 17 crianças, com menos de 12 anos, morreram vítimas da Covid-19. Dessas, nove tinham menos de um ano de idade e dois tinham apenas 1 ano, o que totaliza 11 bebês mortos pela doença.

O número só foi corrigido após o ND+ revelar e questionar a Dive (Diretoria de Vigilância Epidemiológica) sobre três erros na plataforma estadual que contabiliza os casos. A discrepância de dados estava na idade, onde um bebê de apenas meses de vida chegou a ser contabilizado como uma criança de 9 anos.

A última morte foi registrada no início desta semana. Leonardo Schwambach, de apenas 1 ano e 4 meses, morreu em um hospital particular de Chapecó, no Oeste do estado no dia 8 de março.

Covid-19: 17 crianças Ao menos 17 crianças já morreram por Covid-19 em Santa Catarina – Foto: Pixabay/ND

Além disso, a maioria delas não possuía nenhum tipo de comorbidade. As informações são da SES e da plataforma do ND+ que monitora o número de casos em Santa Catarina.

Das crianças, 10 delas eram meninos e sete meninas, com idades entre zero e 9 anos.  A maioria dos casos foram registrados na região da Foz do Rio Itajaí e Oeste (5).

Em seguida vem o Alto Vale do Itajaí (3), Grande Florianópolis e Sul, sendo os últimos com dois casos cada um. Já as demais regiões de Santa Catarina, não tiveram mortes de crianças registradas até esta sexta-feira (11).

Entre as comorbidades, há três doenças crônicas que mais aparecem entre os contaminados: doença cardiovascular, hematológica e a imunodepressão. Também aparecem pacientes com asma, síndrome de down e doença neurológica.

Motivo das mortes ainda é incerto

As mortes de crianças representam 0,2% do total de vítimas no Estado. Mesmo assim, a situação causa preocupação já que não se sabe o que leva os pequenos a desenvolverem o quadro mais grave da Covid-19.

“A verdade é que a gente conhece muito pouco da doença, mas o que já se sabe é que a maioria dos óbitos ocorre em crianças que tinham alguma  comorbidade. Já as que não tinham, ainda buscamos a mesma explicação em relação aos adultos: por que tem jovens morrendo?”, questiona a médica pediatra Marcela Braz.

Pelos dados estaduais, é possível perceber que a maioria das crianças que se tornaram vítimas fatais tinha menos de um ano. O primeiro caso foi o bebê indígena que morreu por Covid-19 em José Boiteux, no Alto Vale do Itajaí em agosto de 2020.

Segundo a especialista, o que poderia explicar as mortes seria o fato da faixa etária contar com um sistema imune ainda imaturo.

“Recém-nascidos, de mães que tiveram a doença, geralmente não apresentam grandes complicações. É difícil saber como será a resposta do bebê, mas a maioria tem sintomas leves ou são assintomáticos. Pode ser que o sistema [imunológico] ainda imaturo contribua para a morte, além da comorbidade e de fatores próprios do vírus que nós ainda desconhecemos”, pontua.

A plataforma da SES não identifica quantos meses a criança tinha no momento da morte em casos onde há idade é zero. O ND+ questionou a Secretaria sobre isso, mas não obteve retorno até o fechamento desta publicação.

Outro fator que pode explicar a evolução de casos graves são as mutações que o vírus sofre. “A Covid-19 é um mundo incerto. No momento em que sofre mutações – e isso está acontecendo de maneira muito rápida -, ele passa a ser mais viável, agressivo e transmissível”, explica o infectologista Martoni Moura e Silva.

Até esta quarta-feira (10), 63.170 casos do novo coronavírus foram confirmados em pessoas com idade entre zero e 19 anos em Santa Catarina. Destes, 19.587 são pessoas com até 9 anos e 43.583 possuem entre 10 e 19 anos.

Síndrome Multissistêmica Inflamatória: a era ‘pós-covid’

Em meio a todos esse números outra preocupação surge na área pediátrica: a Síndrome Multissistêmica Inflamatória, doença associada à Covid-19.

Síndrome Multissestêmica pode surgir se a criança ter contato com o vírus – Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Divulgação/NDSíndrome Multissestêmica pode surgir se a criança ter contato com o vírus – Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Divulgação/ND

Ainda recente e considerada rara, ela é uma doença que se manifesta em crianças até 10 anos cerca de um mês após o contato dela com a Covid-19. No entanto, isto não significa que ela foi infectada com o vírus.

“Não necessariamente a criança vai desenvolver a síndrome após pegar a Covid-19. Ela pode ter tido contato e não ter positivado. Porém, só de conviver com o pai ou mãe confirmados, surge o risco de desenvolvimento da síndrome”, explica Thayane Augusto Damásio, médica intensivista pediátrica e coordenadora das Unidades de Internação do Hospital Infantil de Joinville.

A síndrome começa a se manifestar por meio da febre alta, que perdura por mais de 72 horas. Em seguida, os sintomas são: vermelhidão pelo corpo, conjuntivite, inchaço das mãos e dos pés, além de ínguas.

Para tratamento, é necessário a internação da criança, já que só dentro da unidade hospitalar é possível fazer a administração do medicamento (imunoglobulina). O tratamento dura aproximadamente 12 dias.

Além disso, se não for descoberta cedo, a criança pode evoluir para um caso mais grave, tendo risco de levar a morte.

No Hospital Infantil de Joinville, desde o início da pandemia, ao menos 10 crianças já foram diagnosticadas com a síndrome. O primeiro caso foi registrado em junho de 2020, em um bebê de três meses. Segundo Thayane, em todos eles os pacientes foram tratados e curados.

O ND+ também questionou a SES sobre o número de casos da síndrome em Santa Catarina, mas também não teve retorno até a publicação.

A médica reforça que, para evitar a doença, existe apenas uma alternativa: “uso de máscara, distanciamento e álcool em gel. Só assim para prevenir. A porcentagem ainda é pequena, mas o risco existe”, reforça a profissional de saúde.

Casos são poucos, mas cuidado é fundamental

Apesar de raros, é preciso ficar atento a possíveis complicações em crianças, principalmente porque ainda não há vacinas que as possam proteger contra o vírus.

“Por enquanto, há estudos [de vacinas] com limite mínimo para três anos. Porém, estamos vendo que há crianças com idade inferior a isso que estão sendo infectadas e vindo a óbito, o que é uma dor tremenda. Por isso é fundamental manter o cuidado”, explica o médico Martoni Moura e Silva.

Outra orientação para os pais é redobrar a atenção ao aparecimento de qualquer sintoma, já que o diagnóstico nas crianças costuma ser mais difícil, como salienta a pediatra Marcela Braz:

“Em criança é bem complicado, porque qualquer infecção pode dar tosse, febre, coriza. Por isso a orientação é que em caso de qualquer sintoma ela seja avaliada. A partir daí podemos chegar na conclusão se é um quadro grave, se merece internação ou o tratamento”.

Erro nos dados estaduais

Ao menos 17 crianças já morreram por Covid-19 em Santa Catarina. Porém, erros dentro da plataforma do governo estadual apontam inconsistência nas estatísticas.

Tabela mostra a quantidade de óbitos de crianças em Santa Catarina – Foto:Reprodução/SESTabela mostra a quantidade de óbitos de crianças em Santa Catarina – Foto:Reprodução/SES

Um levantamento realizado pelo ND+ identificou ao menos três erros na idade das vítimas. Os dados da Secretaria de Estado da Saúde não correspondem aos repassados pelos municípios à reportagem.

Os casos em questão seriam:

Em nota, a Dive (Diretoria de Vigilância Epidemiológica) informou que o erro foi identificado no cruzamento de dados dos sistemas.

“Estávamos trazendo do SIVEP-GRIPE a informação de idade com unidade de contagem em ‘anos’. Já fizemos a alteração para que o ajuste específico seja corrido nesses casos para idade em ‘meses'”, explicou o órgão em nota.

Além dos erros identificados pelo ND+,  a Dive confirmou mais um erro na plataforma: uma bebê de oito meses, de Criciúma, que aparece com 9 anos na plataforma. Segundo a Dive, a atualização será feita ainda nesta quinta-feira (11).

Veja o perfil das mortes registradas em Santa Catarina:

  • Bebê de 0 meses, de José Boiteux – 03 de agosto de 2020;
  • Bebê de 7 meses, de Itajaí – 25 de outubro de 2020;
  • Bebê de 3 meses, de Morro da Fumaça – 20 de novembro de 2020;
  • Bebê de 0 meses, de Navegantes – 11 de janeiro de 2021;
  • Bebê de 1 mês, de Chapecó – 21 de fevereiro de 2020;
  • Bebê de 10 meses, de Quilombo – 23 de fevereiro de 2021;
  • Bebê de 0 meses, de Florianópolis – 23 de fevereiro de 2021;
  • Bebê de 13 dias, de Indaial – 26 de fevereiro de 2021;
  • Bebê de 10 meses, de Criciúma – 03 de março de 2021;
  • Bebê de 1 ano, de São José – 29 de junho de 2020;
  • Bebê de 1 ano, de Chapecó – 8 de março de 2021;
  • Criança de 3 anos, de Palmitos – 14 de novembro de 2020;
  • Criança de 3 anos, de Balneário Camboriú – 05 de dezembro de 2020;
  • Criança de 3 anos, de Navegantes – 14 de janeiro de 2021;
  • Criança de 3 anos, de Passos Maia – 15 de fevereiro de 2021;
  • Criança de 4 anos, de Porto Belo – 28 de agosto de 2020;
  • Criança de 9 anos, de Mirim Doce – 31 de dezembro de 2020.

* Nos casos dos bebês citados com 0 anos, a reportagem solicitou a idade em meses das vítimas à Secretaria de Estado da Saúde e aguarda retorno do órgão.

O que diz a Secretaria de Estado da Saúde

O ND+ questionou a SES se há o acompanhamento do número de mortes de crianças por Covid-19. Porém, até a publicação ainda não havia recebido retorno.

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