Crianças e jovens são 30% dos infectados por Covid-19 em Santa Catarina

- +
Faixa de idade de 0 a 29 anos apresentou 12 mil novos casos entre 1º e 26 de agosto; levantamento não inclui novos casos inseridos nesta segunda, 31, e que não haviam sido contabilizados oficialmente

Apesar de a Covid-19 ser considerada menos agressiva nos mais novos, desde início da pandemia, 25 mortes de crianças, adolescentes e jovens foram registradas no Estado.

“Mamãe, por que estão me machucando?”, perguntou Thomas em estado febril ao levar a quinta agulhada na noite de 20 de julho no Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis. A mãe Fabiana Rodrigues não tinha resposta. Nem o médico tinha uma explicação. É raro uma criança de 7 anos sem doença preexistente chegar ao limite da vida por conta do coronavírus.

A tentativa de entender as agulhadas foi uma das últimas palavras que o garoto esboçou naquele dia. Thomas já não falava mais, nem tinha forças para mexer o corpo quando a enfermeira chamou Fabiana para conversar. “Infelizmente, ele não consegue mais manter a oxigenação no sangue. Ele não está mais conseguindo respirar sozinho, então a gente vai ter que sedar ele. E a senhora vai ter que ir pra casa”. Eram duas da manhã quando ele foi entubado, o dia mais difícil da vida de Fabiana.

O drama vivido por Thomas não é comum, pois crianças e adolescentes são mais resistentes à Covid-19. “Eles têm o mesmo risco de contrair a doença, mas na imensa maioria dos casos têm quadros mais leves”, diz Tatiana de Andrade Lemos, médica pediatra do Sistema Único de Saúde (SUS) em São José e da Diretoria de Ações Comunitárias e Sociais da Sociedade Catarinense de Pediatria (SCP).

O menino seguiu internado após ser curado da Covid-19, pois sofreu uma infecção hospitalar causada por uma bactéria – Foto: Anderson Coelho/ND

Apesar de menos agressiva em jovens, a análise dos números mostra que esse grupo concentra alto índice de contaminação. O nd+ analisou a base de dados do Governo do Estado e identificou 40.852 registros de contaminados por Covid na faixa de 0 aos 29 anos até o dia 26 de agosto, quando os dados para esta reportagem foram coletados. 

Entre junho e julho, quando o Estado teve um boom de novas infecções diárias e passou de 22.352 para 64.958 infectados entre todas as idades, os jovens foram os que apresentaram maior crescimento de novos casos.

O ritmo  de contaminações triplicou. Enquanto no mês de junho foram registrados 582 novos casos de Covid-19 nas crianças de 0 a 9 anos, em julho, foram 1.822 novas ocorrências, o que representa um aumento percentual de 213%. Na faixa de 10 a 19 anos, em julho foram 1.080 novos casos, enquanto em julho, o número de novos adolescentes contaminados chegou a 3.563, aumento de 229%. Já nos jovens entre 20 e 29 anos, o número aumentou de 5.118 para 13.786, um acréscimo de 169%.

Em agosto, o número de novos casos de Covid recuou no Estado em todas as faixas etárias, no entanto, o percentual de jovens infectados sobre o total cresceu 1% este mês. Foram 12.122 novos registros entre 1º e 26 de agosto nesta faixa de 0 a 29 anos, o que representa 30,5% do total de 39.639 registros. Em julho, os jovens representavam 29,5% do total de infectados.

Os 39.639 registros de novos casos no mês de agosto representam uma queda de  38% em relação aos novos casos em julho (64.957 registros). Mesmo assim, entre os jovens essa redução foi mais tímida: entre 0 a 9 anos o saldo de casos ficou -26% negativo e de 10 a 19 anos a redução foi -27%. Só na faixa dos 20 aos 29 que a queda foi maior que a média estadual, com um resultado de -40,8%.

Motivo do avanço de contaminação 

Desde meados de maio, o professor Lauro Mattei, coordenador do Núcleo de Estudos de Economia Catarinense da Universidade Federal de Santa Catarina (Necat-UFSC), tem feito análises sobre o cenário da pandemia no Estado, que são publicadas em estudos semanais. No boletim número 13, a equipe de Mattei detectou um aumento de casos entre crianças e adolescentes. “Como o tempo inteiro falava-se muito mais sobre os idosos, eu olhava mais para as faixas etárias mais altas. No mês de julho, quando fui analisar, as faixas de 0 a 9 e 10 a 19 foram duas das taxas que mais cresceram”, contou o professor.    

Mattei destaca que a pouca testagem dificulta a exploração dos motivos. “Uma pesquisa da prefeitura de São Paulo ajuda a entender este processo. O nível de crianças assintomáticas é muito alto. Ela pesquisou seis mil crianças. Das contaminadas, 64% eram assintomáticas, que tiveram o vírus e ninguém soube. E tem anticorpos. Provavelmente acontece a mesma coisa aqui. Como não faz a testagem, não se sabe”, diz. 

“Como a prefeitura de São Paulo descobriu? Ela programava voltar às aulas em setembro, tomaram a precaução. É um problema seríssimo, porque elas viram um vetor. Ela (a criança) não fica doente, mas transmite. Esse achado foi muito importante porque cria um alerta. Outra pesquisa na Universidade Harvard detectou a mesma coisa, o nível de assintomático é muito alto. A gente não sabe lidar direito com isso. Deveria testar muito a população, mas como não fizemos, vamos viver com essa incerteza”.

Doenças preexistentes predominam no perfil das mortes

A maioria dos contaminados por Covid-19 na faixa de 0 a 29 anos se recuperou com facilidade (são 38.387 recuperados), mas em 25 casos os jovens não resistiram. No grupo de mortos, 13 tinham doenças preexistentes, sendo as cardiovasculares, hipertensão, diabetes, obesidade e imunodepressão as mais recorrentes. 

As mortes por Covid-19 são menos comuns entre os jovens. Dos 2.142 óbitos registrados em Santa Catarina, 1,16% são crianças, adolescentes e jovens entre 0 e 29 anos. Mas apesar de ser mais rara, ela acontece. O caso de Mateus Felippe de Souza, de 21 anos, faz parte dessa estatística. Conforme apurou o nd+, a morte dele passou a ser alvo de uma investigação do Ministério Público. De acordo com fontes ouvidas pela reportagem e nos registros de óbitos divulgados pelo Estado, não há informação de doença preexistente no caso de Mateus. 

No mês de julho, o mais crítico no combate à pandemia em Santa Catarina, e justamente quando se tinha relatos de baixos estoques de medicamentos para intubação e outros procedimentos, o número de mortes entre os jovens de 20 a 29 anos cresceu cinco vezes em relação ao mês anterior. Das 10 mortes desse grupo, seis apresentavam algum tipo de comorbidade.

Blumenau é a cidade que concentra o maior número de mortes de jovens entre 0 e 29 anos (3 registros) seguida de José Boiteux (2), Navegantes (2), São José (2) e Videira (2). Balneário Camboriú, Biguaçu, Bombinhas, Dionísio Cerqueira, Florianópolis, Fraiburgo, Gaspar, Grão-Pará, Guabiruba, Itajaí, Joinville, Orleans, Palhoça e Xanxerê registram cada cidade uma morte.

Especialistas alertam para síndrome em crianças

Segundo a pediatra Tatiana de Andrade Lemos, na hora de atender crianças e adolescentes, uma das preocupações é com as comorbidades. “Quando elas têm problemas cardíacos, asma, obesidade, diabetes, quando têm doenças que podem comprometer a imunidade das crianças ficamos mais atentos. E algumas crianças têm apresentado este quadro de síndrome inflamatória”, afirmou. 

A síndrome a que se refere é a SIM-P (Síndrome Inflamatória Multissistêmica), possivelmente associada ao coronavírus. Ocorre uma reação inflamatória exagerada do corpo que pode pôr em risco a vida de crianças e adolescentes. “Segundo os parâmetros da OMS (Organização Mundial da Saúde), um dos critérios para diagnosticar a síndrome é presença de febre persistente, por mais de três dias, em pacientes com idade entre 0 e 19 anos, e com dois órgãos envolvidos”, explicou o Rodrigo Vasconcelos Marzola, infectologista pediátrico do Hospital Infantil Joana de Gusmão (HIJG).

A síndrome foi relatada primeiramente em abril, no Reino Unido. Depois observou-se diversos casos no mundo. Em Santa Catarina, foram registrados 2 casos (dados até 20 de agosto). De acordo Marzola, o paciente pode desenvolver a síndrome durante a infecção pelo coronavírus ou até quatro semanas depois. Além da febre alta e persistente, entre os sintomas estão manchas pelo corpo; conjuntivite; inchaço em mãos e pés; dor abdominal; vômitos e diarreia.

Os dois casos foram relatados no Hospital Infantil Joana de Gusmão. Morador da Palhoça, Abrahão Evangelista Barbosa, 10 anos, ficou sete dias internado, sendo quatro deles na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Detalhes sobre o outro paciente não foram divulgados.

Gravidade dos casos depende de carga viral, diz especialista

Os primeiros estudos sobre a Covid-19 identificaram que os pacientes que apresentaram sintomas graves da doença tinham mais de 62 anos e doenças preexistentes. As deficiências do sistema imunológico passaram a ser consideradas determinantes para a identificação de grupos de risco para a doença. “Porém, isso não é regra. A gente vê, inclusive, doenças mais graves acontecendo em pessoas mais jovens, aparentemente saudáveis e que fogem então a essa regra preestabelecida”, diz o médico infectologista Amaury Mielle.

“Uma das condições que mais predispõem o paciente a ter uma forma mais séria com comprometimento pulmonar é a quantia do vírus que ele entra em contato. Parece que essa chamada ‘carga viral’ tem um papel muito importante e ela poderia desencadear um desfecho desfavorável mesmo em pessoas então como eu disse previamente saudáveis”.

No caso das crianças, elas crianças têm poucos receptores ACE2, onde o vírus se liga. “Como elas têm poucos receptores, ao serem infectadas, o vírus vai encontrar menos células para se multiplicar e consequentemente a infecção ou não ocorre, ou ocorrerá de forma mais leve,” diz Mielle.

Imunidade baixa exige atenção

Após 5 dias desacordado e respirando com a ajuda de aparelhos, Thomas, o menino que ficou entre a vida e a morte, apresentou melhora, mas ainda seguiu debilitado. Com perda de massa corporal, o peso dele caiu de 22 para 15 quilos. “A Covid deixa mais suscetível a outras doenças”, diz Fabiana. 

O menino seguiu internado após ser curado da Covid, pois sofreu uma infecção hospitalar causada por uma bactéria. “O médico disse que essa bactéria não é comum e que fazia tempo que ele não atendia um caso desses. E ele também ficou com pneumonia. Daí comprometeu 50% do pulmão dele”, diz.

O local da contaminação pela bactéria é desconhecido. Antes de chegar no Hospital Infantil Joana de Gusmão, Fabiana passou pela UPA de Forquilhinha e por uma UPA, um posto de saúde e um laboratório particular em Palhoça. 

Segundo a informação repassada pelo médico à Fabiana, a bactéria foi a responsável pelo agravamento do quadro do menino. “A gente teve que ficar no hospital por catorze dias porque tinha que terminar o ciclo de antibiótico para combater essa bactéria”. 

Mais de um mês após a internação, quando questionado sobre como foi a luta para vencer o coronavírus, Thomas sorri e brinca: “Eu não me lembro, só me lembro da batalha da carne – e quem venceu foi a minha mãe”, conta. Referia-se aos talheres do hospital que eram de plástico, o que dificultava o corte das proteínas e rendeu boas risadas depois que o pior já tinha passado.

Em isolamento, jovens enfrentam incerteza, ansiedade e preocupação com o futuro

Apesar da Covid ser menos agressiva nos mais novos, a faixa etária que vai do 0 aos 29 anos tem se contaminado e é vista com atenção por especialistas: além do risco de contrair a doença, sofre as consequências das medidas de isolamento social e pode ser um vetor de carregamento do vírus. Entre as crianças, há a dificuldade de limitar o contato com os objetos e pessoas numa fase de descobertas e aprendizado. Para os adolescentes e jovens na faixa dos 20, há a ansiedade de uma geração que quer viver intensamente, mas precisa cumprir o isolamento social. 

Um estudo da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Federação das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) com 1.525 profissionais constatou que 9 em cada 10 pediatras relataram que as crianças e adolescentes mudaram de comportamento neste período. Oscilação de humor, como passar de felizes e ativas para taciturnas e retraídas, foram descrito por 75% dos médicos. Ansiedade, irritabilidade, depressão, agitação, insônia, tristeza, agressividade, aumento de apetite foram outras condições apontadas. 

De acordo com Tatiana de Andrade Lemos, médica pediatra do Sistema Único de Saúde (SUS) em São José e Diretoria de Ações Comunitárias e Sociais da Sociedade Catarinense de Pediatria (SCP), é preciso levar em consideração as diferentes realidades. “Tem a criança e o adolescente que vive em uma família protetiva, com recursos, com acesso à escola online, com a possibilidade tem de isolar um familiar doente em casa. E tem as que moram numa família vulnerável, onde os pais saem para trabalhar. Onde ficam estas crianças? Às vezes elas ficam em um cubículo com mais 10 pessoas. Hoje, o impacto maior da pandemia tem sido sobre o ponto de vista educacional e emocional. Aumentou o sedentarismo, a obesidade, o acesso às telas, que deveria ter uma limitação”, avaliou. 

Para a pediatra, as famílias devem fazer o melhor possível. Evitar o contato com outras crianças, sobretudo as mais novas, que não conseguem manter as medidas de higiene e distanciamento social, ainda é a recomendação. Procurar atividades físicas em ambientes seguros, levá-las para tomar sol, manter a rotina, ter uma alimentação saudável são outras medidas sugeridas. “E procurar ajuda psicológica e médica se entender se as coisas estão muito fora do controle”, sugeriu a pediatra.  

“Está tudo muito incerto e para o ansioso isso é horrível né?”, diz Amanda Júlia Vieira de Sousa, de 18 anos. Amanda concluiu o Ensino Médio no ano passado e começou 2020 empolgada para o primeiro semestre da faculdade no curso de Engenharia de Pesca da Udesc. No isolamento, a empolgação virou frustração. “Eu fico nervosa com este EAD. Eles começaram a passar muito mais trabalhos que o presencial. Também não posso afirmar com toda a certeza porque nunca estive em uma faculdade antes né, mas pelo que os meus amigos me relatam é que agora eles aumentaram muito mais,” diz.

Amanda diz que isolamento aflorou incertezas – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Para Amanda Júlia, a quarentena aflorou a ansiedade que ela já sentia. A gente está o tempo todo pensando lá na frente. A gente nunca está vivendo o presente. A gente está sempre com a cabeça lá pra frente, pensando nos problemas lá da frente”, diz. 

O início da pandemia foi marcado pela incerteza. “Eu já pensei de tudo. Já pensei no pior. Minha mãe também. Quando começou tudo isso (ela) chorou e falou que a gente não ia ter o que comer. Ela estava muito, muito, muito nervosa. Mas eu tive mais força para a gente se centrar e falar ‘não mãe, não é assim, o vírus não vai acabar com tudo, vai ser ruim vai mas a gente vai conseguir passar por isso juntas”.

Isolamento impõe desafios

Mesmo com o isolamento, Camile Moura, de 20 anos, foi contaminada. “Eu me contaminei através do meu tio. como ele trabalha em fábrica, esse serviço essencial, ele acabou testando positivo, e como ele é o único que está trabalhando aqui em casa, ele trouxe para casa né. Aqui somos 7”, diz. 

Com a contaminação do tio, a preocupação foi para proteger as crianças da casa. “A gente isolou ele no quarto, e aí minha tia que ficava levando as coisas para ele também testou positivo. Como ela tem o nenê e tem outro menininho de 3 anos, não tem como a gente isolar ela. Ficamos muito preocupados”. Camile foi a terceira da casa a testar positivo para Covid e relata ter sentido sintomas fortes. “Eu senti mais dificuldade em respirar por conta das minhas outras doenças respiratórias, tive muita dor de cabeça, enxaqueca, mal-estar e cansaço físico”.

Recuperada da Covid, a jovem diz que o isolamento imposto pela pandemia causou mudanças drásticas na rotina. “Antes eu tinha uma vida mais ativa, trabalhava, estudava, fazia faculdade. Agora, quando eu saí de férias e vim para Jaraguá de novo mudou tudo. Eu praticamente fiquei encerrada em casa e não consegui ir atrás de emprego”.  

Mesmo com o isolamento, Camile Moura, de 20 anos, foi contaminada. – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Apesar dos desafios encarados na quarentena, a jovem diz que a pandemia irá deixar lições na forma como ela encara a vida. “A visão que mudou agora é o outro. Aqui a gente tem o privilégio de poder ter o dinheiro para trazer o mercado para gente, mas têm as pessoas que não têm isso. A minha visão ficou mais no geral assim, sabe. Não só o que aconteceu comigo mas o que aconteceu com outras pessoas e com os pais de famílias trabalhadores que não podem estar isolados, tem que trabalhar. Tem muitas pessoas morrendo também né”. 

Volta às aulas presenciais esbarra no risco de contaminação

O retorno à escola é uma das grandes questões a serem enfrentadas. Segundo a pediatra, ainda não há um consenso. “Nós temos prestado esclarecimentos sobre protocolos no possível retorno das aulas à população e aos setores públicos. Mas ainda não tem consenso sobre o retorno de volta à escola.”

Algumas questões devem ser levadas em conta. Primeiro, especialistas apontam que a epidemia deveria estar controlada, como fizeram os países europeus. “Há argumentos a favor e contra”, avalia o Rodrigo Vasconcelos Marzola, infectologista pediátrico do Hospital Infantil Joana de Gusmão (HIJG). 

“Eu tenho duas crianças e sei como foi ruim para as crianças ficarem em casa. Por outro, há um medo dos pais de mandar os filhos para a escola. As crianças geralmente não tem sintomas tão graves, mas não se sabe o que vai fazer uma doença mais grave ou não. O Brasil não conseguiu controlar a pandemia. Na Europa, os países que voltaram controlaram a pandemia e tiveram regras claras sobre como fazer o distanciamento e o uso de máscaras. O problema é mandar as crianças pra aula sem controlar a doença”.

Em SC, modelo de retomada está indefinido

A pedagoga e consultora educacional Gilmara da Silva, que integra o Arranjo de Desenvolvimento da Educação da Grande Florianópolis (ADE Granfpolis) e o Colegiado de Gestão em Educação dos Municípios da Foz do Rio Itajaí (CoGemfri), acredita que muito dificilmente os mais novos voltarão às aulas em outubro, data que foi previamente estabelecida pelo Comitê de Retomada das Aulas Presenciais, formado por 15 entidades incluindo o Estado e Ministério Público. 

“Para antecipar, não existe a menor possibilidade em Santa Catarina para a volta às aulas em outubro. Quando chegar próximo o grupo vai avaliar novamente e se houver a mínima possibilidade de colocar alguém em risco, não faremos”, afirmou Gilmara, que representa a ADE Granfpolis no Comitê. 

Ela ainda explica, que já ficou estabelecido que quando houver o retorno às aulas, isso ainda deverá ocorrer de forma escalonada e por meio de rodízios. Os mais velhos voltam primeiro e os mais novos depois.

“Do pedagógico nós vamos dar conta. O que não podemos é colocar pessoas em risco. Se a Saúde e a Defesa Civil indicam que não há segurança nós não vamos voltar. Nenhum de nós está disposto a colocar a vida de uma criança em risco”, emenda. 

Gilmara defende que mesmo sem aulas presenciais, o vínculo com a escola não pode ser perdido. “São cinco meses de isolamento, as famílias e estudantes estão cansados, e os professores estão cheios de incertezas sobre a própria profissão”, diz. “O contato mesmo que virtual ou por demandas entregues nas escolas se revela como grande importância para manter também a saúde mental dos alunos”, explica. “Isso é algo que estamos trabalhando bastante nisso, até para valorizar o compromisso das crianças com o estudo, para que elas se sintam úteis e ativas”.

A atual previsão para retorno às aulas definida pelo comitê é a partir de 13 de outubro, quando vence a Portaria  que suspendeu as atividades. Uma avaliação para definição da data será feita dias antes do dias 12 outubro. O grupo preparou um Plano de Contingência que será apresentado em setembro e também será encaminhado aos municípios para elaboração de planos municipais.

O desafio dos jovens da EJA para o estudo remoto 

Maria Eduarda às vezes se perde em meio a tantos textos, áudios e vídeos trocados no Whatsapp e não consegue acompanhar todas as atividades escolares. – Foto: Anderson Coelho/ND

Maria Eduarda Feitoza Braga, 17 anos, usa o celular para estudar remotamente. Às vezes o aparelho trava, às vezes o sinal da internet fica fraco. Os professores estão presentes virtualmente e se colocam à disposição para sanar dúvidas e dar explicações. “Eles respondem rápido, geralmente por áudio”, contou a adolescente, que é aluna da Educação de Jovens e Adultos (EJA), em Florianópolis. “Mas é diferente do ensino presencial. Às vezes fico com receio de incomodar e acabo não fazendo perguntas.” 

A educação remota tem sido um desafio na pandemia. Na EJA, a situação se agrava devido à vulnerabilidade de muitos estudantes. “É uma população mais pobre, que não está podendo fazer isolamento. Muitos são motoristas de aplicativos, outros trabalham no comércio, muitos são pais de família com filhos em idade escolar”, explicou o professor Daniel Godinho Berger, coordenador do Fórum de Educação de Jovens e Adultos de Santa Catarina (FEJA-SC).

Pesquisa da UNICEF mostrou que 21% dos brasileiros relataram que os alimentos acabaram e que não tinham dinheiro para comprar mais – o percentual sobre para 27% com famílias com crianças e adolescentes. O levantamento mostra também que 6% disseram passaram fome e deixaram de comer por falta de dinheiro para comprar comida – a porcentagem sobe para 9 entre quem vive com crianças e adolescentes. As famílias com crianças e adolescentes também passaram a consumir mais produtos industrializados. Feita pelo Ibope,  a amostra da pesquisa contou com  1.516 entrevistas, representativas da população do País. As entrevistas foram realizadas por telefone, de 3 a 18 de julho de 2020.

Maria Eduarda está conseguindo manter o isolamento porque perdeu o emprego que tinha em uma lavanderia, onde trabalhava das 8h às 16h. Geralmente, só sai de casa para ir ao mercado e à farmácia e, de vez em quando, para andar de bicicleta. O pai é vigilante, e a mãe trabalha com limpeza em um banco. A adolescente não passa por necessidades, mas sente falta de ter seu próprio dinheiro. 

Em junho e julho, o FEJA-SC fez uma pesquisa com professores, gestores e estudantes para refletir sobre o ensino e aprendizagem no contexto da pandemia. Os dados mostram o tamanho do desafio dessa modalidade de ensino. Ao todo, 95,7% das 369 respostas apontaram que as atividades estão chegando aos alunos. “Porém, cerca de 50% dos estudantes não conseguem acompanhar as atividades”, apontou o estudo.  

Douglas Igor Freitas dos Santos, 16 anos, tem se esforçado para acompanhar as atividades. Deu uma “relaxada nas últimas semanas”, mas foi cobrado pelos professores. Também conversou com a mãe, que mora em Rondônia, sobre a importância de se formar no Ensino Fundamental e entrar no Ensino Médio. “Preciso ter o certificado. Vou me puxar de novo para o ano que vem estar no Ensino Médio e ficar de bem com o clube”, disse o garoto. 

Depois de passar pelas categorias de base do Coritiba e Avaí, Douglas começaria a atuar no Figueirense neste ano. Com a pandemia, tudo parou. Pensou que a situação passaria logo e permaneceu em Florianópolis, na pousada de uma amiga da mãe. Ele tem frequentado uma escolinha para manter a forma física, jogado video game, conversado com amigos e estudado na EJA. “Quando preciso de ajuda é só pedir para os professores. Quando não entendo alguma coisa eu falo, eles mandam mensagens, áudio explicando tudo.” 

Maria Eduarda às vezes se perde em meio a tantos textos, áudios e vídeos trocados no Whatsapp e não consegue acompanhar todas as atividades escolares. Desanima, sobretudo, quando trava o celular – aparelho que a maioria dos estudantes usam para estudar. “Mas os professores estão o tempo inteiro perguntando se temos dúvidas, se precisamos de alguma coisa.” 

Segundo o coordenador do FEJA, os fóruns de todo o Brasil estão analisando a situação e apontando a necessidade de levar em conta os diversos contextos dos alunos. “Tem estudantes que estão fazendo o último ano do Ensino Médio, que pretendem fazer vestibular. Temos que dar essa oportunidade”, analisou . 

Por outro lado, muitos estudantes não têm condição de fazer ensino remoto porque moram em casas com muitas pessoas, o celular é dividido com família, trabalham ou precisam cuidar dos filhos ou dos pais. “A EJA nesse momento pode levar conhecimento, propor atividade, mas o aluno faz se ele puder”, disse Daniel Godinho Berger.   

Segundo dados da Secretaria de Educação, há 21.740 estudantes matriculados na modalidade EJA – não há informações sobre quantos são jovens. Em Florianópolis, dos 1,5 mil estudantes, cerca de 55% têm idade entre 15 e 29 anos. A idade mínima para ingresso na modalidade é 15 para o Ensino Fundamental e 18 anos para o Ensino Médio. Há também educação quilombola, no campo e prisional – essa última é a única que não está sendo atendida. 

Maria Eduarda está conseguindo manter o isolamento porque perdeu o emprego que tinha em uma lavanderia, onde trabalhava das 8h às 16h. O celular, atualmente, é o seu meio de acessar os conteúdos de ensino – Foto: Anderson Coelho/ND

Maria Eduarda está na EJA porque se atrasou devido a reprovações. Espera terminar o Ensino o Fundamental neste ano para, ano que vem, voltar ao ensino regular. Apesar dos desafios enfrentados, da dificuldade em estudar e do isolamento social, tem considerado uma boa experiência estudar nesta modalidade. “Os professores são muito presentes comigo. Procuram saber se estou bem, se preciso de algo. Isso nunca aconteceu. Eles querem que a gente entenda, eles ajudam a gente a entender.”