Culpa, sobrecarga e prejuízos à carreira marcam realidade de mães em home office

Pesquisa apontou que enquanto 50% dos homens considera fácil conciliar filhos e carreira, apenas 33% das mulheres afirma o mesmo

Ao longo de cinco meses, a pandemia do novo coronavírus, causador da Covid-19, mudou a vida das pessoas em diferentes aspectos. O distanciamento social provocou a alteração nas dinâmicas de trabalho e, como consequência, transformou a rotina das famílias.

Uma pesquisa realizada pela consultoria Filhos no Currículo, em parceria com o Movimento Mulher 360, apontou que a falta da rede de apoio é a principal barreira para um home office produtivo entre as mulheres que são mães.

Falta de rede de apoio tem impactado na vida profissional das mães durante a quarentena – Foto: Reprodução/Pixabay/NDFalta de rede de apoio tem impactado na vida profissional das mães durante a quarentena – Foto: Reprodução/Pixabay/ND

Disparidade de gênero e sobrecarga

A disparidade de gênero é evidente em um contexto no qual é preciso conciliar o trabalho com o cuidado das crianças. Enquanto 50% dos homens considera fácil conciliar filhos e carreira, apenas 33% das mulheres afirma o mesmo.

“Elas estão mais sobrecarregadas. Existe uma questão estrutural histórica de sobrepeso de tarefas domésticas e cuidados com os filhos que estão acumuladas nos ombros das mulheres. Elas têm mais que o dobro de horas de trabalho nessas funções do que os homens”, explica Michelle Levy Terni, mãe do Thomas, 2, e do Alex, 4, e CEO da Consultoria Filhos no Currículo.

O estudo mapeou, entre abril e junho, as expectativas e a experiência de profissionais ao conciliar carreira e filhos antes, durante e depois da pandemia.

Foram ouvidos 825 pais e mães (sendo 80,33% mães, por maior interesse delas em responder a pesquisa) de todos os estados e Distrito Federal, com filhos de 5 anos em média.

Para os entrevistados, além da falta da rede de apoio, as outras dificuldades de se trabalhar em home office são: dar atenção necessária aos filhos (para 56%), cuidar de si (53%) e manter a produtividade no trabalho (51%).

Esses pontos se tornam ainda mais complexos para pais e mães de filhos de até 3 anos, uma vez que, para 47% deles, o desempenho no trabalho piorou.

Rede de apoio dissolvida

Para Marina Barbieri, gestora do Programa Sebrae Delas Mulher de Negócios, a rede de apoio é valiosa quando se é mãe. “As mães contavam com as escolas e as avós para tomarem conta dos filhos. Agora, escolas estão fechadas e idosos são grupos de risco. A rede de apoio se desfez e as mães estão tendo que se desdobrar, muitas vezes, sozinhas”, diz.

O estudo da consultoria Filhos no Currículo indicou que 85% dos entrevistados tinham algum tipo de rede de apoio durante o home office pré-Covid-19. É o caso da designer freelancer Carol Tirloni, 31, que chegou a cancelar trabalhos após o fechamento da escola frequentada pelo filho Mateus, de 4 anos.

Mesmo acostumada com o formato home office e dividindo a guarda com o pai de Mateus, sem a escola, Carol se viu sobrecarregada com o trabalho e os cuidados com o filho.

A representante de medicamentos Karolina Fernandes Pereira, de 37 anos, teve que fracionar as oito horas de expediente para conciliar o trabalho e a atenção dada ao filho Pedro, de 3 anos.

A desginer Carol Tirloni e o filho Mateus, de quatro anos – Foto: Arquivo pessoal/NDA desginer Carol Tirloni e o filho Mateus, de quatro anos – Foto: Arquivo pessoal/ND

Grávida de 36 semanas, ela conta que o trabalho foi afetado no sentido de que não foi mais possível visitar pessoalmente os clientes.

Além disso, horas extras e expedientes longos também entraram na rotina. Tanto Carol quando Karolina tiveram que se readaptar com os filhos em casa integralmente.

Sentimento de culpa

As mulheres estão se sentindo culpadas por não conseguirem dar conta de tudo. É assim que a psicóloga Vanessa Cardoso enxerga esse novo cenário.

Segundo ela, somos de uma geração de mulheres criadas para dar conta das atividades e lidar bem com a sobrecarga. Quando isso não acontece, vem o sentimento de culpa.

Foi justamente esse sentimento que acompanhou Carol nos primeiros meses de quarentena. Sem o estímulo e a socialização proporcionada pela escola, ela se sentia na obrigação de dar atenção constante ao filho.

“Eu tentava me desdobrar em duas e não conseguia fazer nada direito, nem ficar com ele, nem trabalhar. Depois percebi que essa situação não era saudável para nenhum dos dois”, relata.

O distanciamento social prolongado e a falta de perspectiva que aponte para o fim da pandemia têm aumentado o nível de estresse. Isso afeta a memorização e a capacidade de concentração.

Vanessa Cardoso revela que muitas pacientes têm relatado crises de raiva em casa. “Elas não conseguem se perdoar depois disso e se sentem culpadas. Esse sentimento está muito próximo da depressão”, explica.  A depressão afeta, inclusive, as crianças, uma vez que a quarentena as isolou dentro de casa.

Permita-se

Está tudo bem não dar conta de tudo. Aliviar a mente e deixar de lado a pressão de que tudo tem que ser perfeito é um dos conselhos da psicóloga Vanessa. Apesar das dificuldades, a pandemia pode ser uma oportunidade para fomentar as relações de parceria dentro de casa, revisitando as tarefas domésticas e o trabalho.

Grávida de 36 semanas e mãe de um menino de 3 anos, Karolina Fernandes Pereira trabalha em casa durante a pandemia – Foto: Arquivo pessoal/Karolina Fernandes Pereira/NDGrávida de 36 semanas e mãe de um menino de 3 anos, Karolina Fernandes Pereira trabalha em casa durante a pandemia – Foto: Arquivo pessoal/Karolina Fernandes Pereira/ND

A gestora do Sebrae Marina Barbieri revela que as mulheres, por mais que enfrentem maiores dificuldades do que os homens quando se trata do campo profissional, estão mais aptas a repensar a profissão, se reorganizar, buscar conhecimento e capacitação.

Além disso, a consultoria Filhos no Currículo destaca que o puro exercício da parentalidade ajuda pais e mães a desenvolverem habilidades que agregam aos seus currículos. O home office com filhos seria um laboratório de inovação.

Segundo o estudo, 98% dos entrevistados desenvolveram alguma habilidade/soft skill profissional a partir do contato com os filhos – com destaque para paciência, tolerância, priorização, empatia e criatividade.

Comunicação clara

Michelle Levy Terni, da Filhos no Currículo, acredita que a comunicação clara é a ferramenta que mais precisa ser desenvolvida pelas mães em trabalho remoto. É fundamental trabalhar uma comunicação assertiva e ter consciência das necessidades dela enquanto mãe para que possa, eventualmente, expor ao gestor.

“Se a equipe está tentando marcar uma reunião ao meio-dia, e essa mãe precisa fazer o almoço do filho, isso precisa ser comunicado de uma maneira construtiva. Ela precisar expor as suas necessidades para que juntos, a equipe e os gestores possam lidar com a situação e pensar em alternativas viáveis”, detalha Terni.

Além da comunicação, é necessário também que a própria família crie um plano de bem-estar – uma rede de apoio –, e colabore para que o trabalho não seja prejudicado. A mãe deve explicar à família quais são as “tarefas invisíveis”, por que e em quais momentos elas deverão ser feitas.

Michelle Levy Terni, CEO da Consultoria Filhos no Currículo – Foto: Arquivo pessoal/NDMichelle Levy Terni, CEO da Consultoria Filhos no Currículo – Foto: Arquivo pessoal/ND

Amparo legal para mães em home office

Com relação a um possível amparo legal para as mães que trabalham em home office, a advogada Júlia Melin Borges Eleutério diz que vivemos uma situação atípica, portanto, há uma lacuna nesse sentido.

Na visão da advogada, falta regulamentação e apoio legal a essas mães, mas é possível que a funcionária busque um acordo com o seu empregador.

“Penso que está faltando um olhar do Direito para resguardar o interesse dessas mulheres que são mães”, observa a advogada.

Michelle Levy Terni defende que, para mudar a percepção de que filhos atrapalham e são obstáculos na profissão, é essencial envolver a alta gestão e desenvolver um trabalho de transformação cultural, em que a empresa vai viver os seus valores na prática.

Para a consultora, não adianta oferecer os benefícios de uma licença estendida ou sala de extração de leite dentro do escritório, se não há uma liderança que permite que esses benefícios sejam usados na prática.

Estudo internacional

Não são somente as mães brasileiras que enfrentam dificuldades no home office com filhos. Um estudo britânico produzido pela ONG Pregnant Then Screwed, criado com o objetivo de reduzir a discriminação materna, ouviu cerca de 20 mil mães inglesas.

A pesquisa revelou que 81% delas precisavam que alguém cuidasse das crianças durante a quarentena para desempenhar todas as funções no trabalho. No entanto, apenas 49% tiveram condições financeiras ou o suporte da família necessários para cuidar dos filhos depois do fechamento das creches e escola.

As demais mães tiveram o desempenho no trabalho prejudicado por precisar dedicar muitas horas diárias – além do normal – ao cuidado dos os pequenos.

Dicas da Filhos no Currículo para pais e mães em home office:

  • Faça uma reunião familiar: explique sobre a situação do vírus e sobre os desafios dessa fase. Seja honesto(a) com as crianças e as convide a assumir as responsabilidades da casa e das tarefas do dia. Uma rotina definida garante previsibilidade e segurança para a família;
  • Reveja e estabeleça novos combinados: isso fortalece os vínculos familiares já que todos estão no mesmo barco. As crianças adoram se envolver de maneira útil e isso desperta o senso de pertencimento delas;
  • Mantenha a empatia e paciência: comece o dia respirando e entenda que faremos o que for possível, mas que as coisas não serão como se estivéssemos vivendo a normalidade. É completamente normal e aceitável pedir um minuto da call para atender uma criança, basta ser honesto e sincero com quem está do outro lado;
  • Considere breaks de conexão: convide a criança a participar na construção de uma nova rotina da casa nessa fase. Divida as tarefas e coloque intervalos para que todos fiquem juntos por alguns instantes;
  • Cuide do espaço de trabalho: é preciso deixar claro para todos que você estará trabalhando naquele espaço. Faça o mesmo com as crianças e defina o local das atividades escolares e brincadeiras;
  • Cuide das suas emoções: impossível acolher as emoções de alguém sem antes cuidar de si mesmo (a) e colocar a máscara de oxigênio primeiro em você.
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