Da morte à vida nova: a luta contra o relógio até o transplante de órgão

SC registrou recordes em doações e transplantes de órgãos em 2019; foram 332 doações e 1.507 transplantes; veja como funciona essa cadeia que salva vidas todos os dias

São algumas horas entre a retirada do órgão até o transplante, mas a expectativa de quem está na fila de espera é uma só: ganhar a chance de uma nova vida. É isto que move as equipes médicas e as Comissões Hospitalares de Transplante em todas as unidades de saúde de Santa Catarina. O Estado, aliás, teve o melhor desempenho da história nos transplantes em 2019: foram 1.507 procedimentos, um novo recorde para a saúde pública se orgulhar.

Estado teve o melhor desempenho da história nos transplantes: 1.507 procedimentos – Foto: Mauricio Vieira/Arquivo/Secom/Divulgação NDEstado teve o melhor desempenho da história nos transplantes: 1.507 procedimentos – Foto: Mauricio Vieira/Arquivo/Secom/Divulgação ND

A Secretaria de Estado da Saúde (SES), por meio da SC Transplantes, registrou 332 doadores efetivos em 2019, 45 a mais em relação a 2018, um aumento de 33%. O Estado também teve o melhor desempenho da história nos transplantes: foram 1.507 procedimentos contra 1217 registrados em 2018 e 2017, um aumento de 23.8%. A melhor marca até então era de 2014, quando Santa Catarina havia contabilizado 1386.

Em uma década, as doações saltaram de 120, em 2009, para 332, em 2019. O estado ainda obteve outras conquistas, como os recordes mensais de doações em fevereiro (24), julho (34), setembro (43) – considerado o melhor mês da série histórica – e dezembro (38).

Esse resultado garantiu a Santa Catarina 47,4 doadores efetivos por milhão de população (pmp). Para que se tenha ideia do que representa esse número, a Espanha registrou 48,9 doadores pmp em 201, sendo que o país europeu é líder mundial em doação de órgãos há 30 anos.

“Contamos com uma cadeia especial de colaboradores que fizeram com que Santa Catarina recuperasse a primeira colocação do País em doação de órgãos”, destaca o secretário da Saúde, Helton de Souza Zeferino, elogiando o desempenho das equipes profissionais envolvidas em todo o processo.

Uma das medidas citadas pelo secretário e que impactaram neste resultado foi a decisão do governador Carlos Moisés, no início de 2019, de ceder a aeronave, até então de uso exclusivo do chefe do Executivo, para transporte de órgãos. A ação tornou mais ágil e facilitou o processo de doações e transplantes.

O coordenador estadual da SC Transplantes, Joel de Andrade, destacou a redução da recusa dos familiares em doar os órgãos. Em 2007, a taxa de negativa era de 70% e em 2019 caiu para 25,2%.

“A queda da não autorização representa um avanço histórico. Hoje, nossa taxa é excelente e equivalente às melhores do mundo. Os processos de treinamento e comunicação adequada foram essenciais para esse desempenho e consolida a postura solidária da população catarinense”, disse.

Nas duas décadas de atuação da SC Transplantes, foram realizados mais de 16,3 mil transplantes. Importante destacar que, para que haja a doação, os familiares precisam autorizar. Anteriormente, a pessoa que não quisesse doar seus órgãos precisava registrar a expressão “Não Doador de Órgãos e Tecidos” no RG ou na Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Assim, todo brasileiro que não registrasse sua vontade, em vida, era presumidamente um potencial doador. O modelo não deu certo. Por isso, hoje, é obrigatória a consulta familiar.

Passo a passo: a corrida pela vida

  1. A partir do diagnóstico da morte encefálica, a equipe da UTI informa o óbito para a família e uma Comissão Hospital de Transplante oferece a possibilidade de doação de órgãos.
  2. Se a família aceita a doação, a Central de Transplantes de SC é informada e, de acordo com o doador, gera uma lista técnica de receptores dos diversos órgãos que podem ser aproveitados daquele doador. A lista segue, principalmente, três critérios: tipagem sanguínea, compatibilidade genética e gravidade da doença.
  3. A Central de Transplantes entra em contato com a equipe médica do paciente que está lista, que diz se aceita ou não aquele (s) órgão (s). Se sim, a equipe liga para o paciente e pergunta se aceita fazer o transplante. Esse processo tem de durar, no máximo, 30 minutos.
  4. Se a equipe médica, embasada na ficha técnica do paciente, negar o órgão, a Central de Transplantes vai para o segundo da lista. E o processo é o mesmo.
  5. Mas, se aceitar, bem como o paciente, o órgão captado será transportado até o hospital onde será realizado o transplante. Para cada órgão, há um prazo: coração e pulmão, por exemplo, são quatro horas da retirada até o transplante, por isso, quase sempre são transportados por via aérea. Fígado são 12 horas; rins, até 36 horas e córneas até 14 dias.

Segundo Rafael Lisboa de Souza, médico intensivista e coordenador adjunto da SC Transplantes, às vezes, um doador consegue doar para oito receptores, isto, claro, na condição ideal de todos os órgãos.

Sobre o tempo de espera de fila, Rafael explica que depende muito do tipo de órgão, mas como SC é líder em doações no País esse tempo é mais curto do que em outros Estados com menos doações.

“Aqui, não temos registro de óbito na lista de espera e isto é mérito dos catarinenses”, reforça, lembrando que já houve casos em que o paciente entrou na fila e no dia seguinte recebeu oferta de um órgão. Outros pacientes, conta ele, tiveram de esperar apenas uma semana; alguns, um mês, não há como fazer uma média. O fato é que SC tem um índice tão positivo de doações que 1/3 dos órgãos são ofertados para outros Estados, beneficiando pessoas do Brasil inteiro.

Em SC, há uma lista de hospitais referência em transplantes. São 49 unidades divididas por tipo de transplante. O Hospital São José, de Joinville, por exemplo, está credenciado para fazer os seguintes tipos de transplantes: tecido ocular humano, enxerto ósseo, conjugado de rins e pâncreas, córnea, fígado e rim. A instituição também é referência quando o assunto é doação: só no ano passado, 155 órgãos foram captados, por meio da intermediação da Comissão Hospitalar de Transplantes (CHT), fazendo com que Joinville se destacasse, pela terceira vez consecutiva, na doação de órgãos.

Para captar um órgão, basta que o hospital  tenha UTI ou leito com ventilação mecânica. Quem faz a retirada são os cirurgiões dos hospitais transplantadores, que se deslocam até o hospital em que o doador está internado pra realizar o procedimento.

Lista de espera em SC (2019)
Rim: 483
Medula Óssea: 91
Córnea: 69
Fígado: 26
Rim/Pâncreas: 13
Coração: 3
Pâncreas: 1
Total: 686

Transplantes realizados em SC (2019)
Córnea: 607
Rim (doador falecido): 301
Esclera: 198
Fígado: 137
Medula óssea: 103
Osso: 75
Válvula cardíaca: 30
Medula óssea autogênico: 24
Rim/pâncreas: 16
Rim (doador vivo): 8

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