Das 20 vítimas de Covid-19 em SC abaixo dos 60 anos, 25% tinham sobrepeso

Médicos estudam relação entre excesso de peso e agravamento dos quadros da doença, mesmo em adultos jovens

Em Santa Catarina, das 58 mortes por Covid-19 contabilizadas até 5 de maio, 20 são de pessoas abaixo dos 60 anos de idade (34,5%). Segundo levantamento feito pela reportagem do nd+, dessas 20 vítimas, pelo menos cinco (ou 25%) apresentavam sobrepeso ou eram obesas.

Quase 20% da população brasileira está acima do peso, segundo Ministério da Saúde – Foto: Pixabay/Divulgação/NDQuase 20% da população brasileira está acima do peso, segundo Ministério da Saúde – Foto: Pixabay/Divulgação/ND

Mas qual a relação entre estar acima do peso e uma piora no quadro da infecção respiratória provocada pelo novo coronavírus?

De acordo com o cardiologista e diretor técnico do Hospital SOS Cárdio, em Florianópolis, Fernando Graça Aranha, pessoas com sobrepeso têm o metabolismo alterado e um ‘desarranjo imunológico’. “A obesidade funciona como marcador de um estado inflamatório crônico, que pode desencadear uma resposta exagerada de proteção do organismo a uma infecção pelo vírus, causando danos bem maiores que nas pessoas com peso controlado, inclusive podendo levar ao óbito”, afirma.

E isso pode acontecer inclusive em adultos jovens. Conforme o cardiologista, estudos realizados pelo Ministério da Saúde e pesquisas divulgadas nos Estados Unidos e na China têm revelado que pessoas com sobrepeso podem ter maior dificuldade em lidar com algumas infecções e mais facilidade em ter alguns tipos de infecções.

Maior vulnerabilidade

“A ligação da obesidade com as doenças crônicas é bem conhecida, mas os perigos se acentuam com as experiências já vividas na gripe H1N1, em 2009, e agora com o novo coronavírus, que revelam de forma mais intensa o fato das pessoas com esse problema também serem mais vulneráveis a doenças infecciosas”, avalia o cardiologista catarinense.

Além disso, o sobrepeso compromete a função respiratória, o que impacta ainda mais na doença. No caso de obesidade abdominal, mais proeminente nos homens, pode haver compressão do diafragma e dos pulmões, alterando a capacidade torácica e respiratória. Também dificulta a introdução dos respiradores artificiais. Consequentemente, os resultados no tratamento da Covid-19 podem não ser satisfatórios.

Ao mesmo tempo, diz o médico, obesos exigem cuidados especiais diante de problemas respiratórios e cardiológicos, mesmo nos grupos com idade inferior a 60 anos. “Temos observado que a maioria dos jovens que apresentam casos graves da doença são obesos”, afirma.

Estudos científicos

Segundo o presidente da Sociedade Catarinense de Infectologia, Fábio Gaudenzi de Faria, alguns trabalhos científicos começam a mostrar a relação entre a obesidade e o aumento no risco de agravamento da Covid-19.

“Inicialmente, a obesidade não tinha sido descrita pela OMS como fator de risco para o novo coronavírus, mas agora está sendo incluída. Mas a questão é que não parece ser apenas a obesidade, mas também o sobrepeso, pois o que se tem visto são pacientes apenas com sobrepeso evoluírem de forma grave. Esta classificação ainda está em estudo”, explica Faria.

“Pacientes jovens que não tinham nenhuma das comorbidades descritas – hipertensão, diabetes, imunossupressão, doença oncológica – estavam evoluindo com gravidade e chegando à morte e muitos desses jovens não eram obesos, tinham apenas sobrepeso”, acrescenta.

De fato, estudos médicos evidenciam que o tecido adiposo nesses pacientes com sobrepeso causa um desequilíbrio no organismo, com aumento do processo inflamatório. E isso favoreceria o agravamento de outras doenças, incluindo a Covid-19.

“São teorias que estão sendo postuladas, com estudos que tentam comprová-las. Mas temos esse pensamento de que o aumento do peso corporal causa um processo inflamatório exacerbado e uma predisposição para uma doença mais grave pelo novo coronavírus”, reforça.

Sobrepeso e obesidade

Esses dados são ainda mais preocupantes tendo em vista um estudo divulgado pelo Ministério da Saúde, demonstrando que os brasileiros atingiram, em 2019, o maior índice de obesidade nos últimos 13 anos. A Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) mostra um aumento de 67,8% na taxa de obesidade nesse período, saindo de 11,8% em 2006 para 19,8% em 2019.

Segundo OMS, é considerada obesa a pessoa cujo IMC (Índice de massa corporal) é superior a 30 kg/m². O resultado é calculado dividindo o peso corporal pela altura ao quadrado. Foto: Divulgação/NDSegundo OMS, é considerada obesa a pessoa cujo IMC (Índice de massa corporal) é superior a 30 kg/m². O resultado é calculado dividindo o peso corporal pela altura ao quadrado. Foto: Divulgação/ND

Seguindo a classificação da OMS (Organização Mundial de Saúde), é considerado obeso quem apresenta IMC (Índice de Massa Corporal) igual ou superior a 30 kg/m². Já as pessoas com sobrepeso têm IMC entre 25 e 30 kg/m². Esses valores são válidos para adultos entre 20 e 59 anos. Para chegar ao resultado, basta dividir o peso corporal pela altura ao quadrado.

Mudança nutricional

Diante desse cenário, há pelo menos uma boa notícia. “A mudança nutricional parece melhorar a resposta imunológica do organismo mesmo antes do emagrecimento do corpo”, diz Aranha.

Assim, uma alimentação com menos alimentos multiprocessados e menos carboidratos poderia apresentar benefícios que vão além da perda de peso. Alterar os hábitos alimentares, pode ser uma forma rápida e saudável para reforçar a imunidade.

Vitaminas e alimentos para a imunidade

Para o nutricionista funcional Takeo Kimoto, adotar uma alimentação saudável todos os dias é um bom caminho para melhorar as defesas do corpo. Além da  vitamina C, estudos mostram que concentrações mais altas de vitamina D no sangue podem favorecer a imunidade, protegendo contra doenças virais e bacterianas.

“A vitamina D ajuda na saúde dos ossos, mas também tem efeito antioxidante, neuroprotetor e anti-inflamatório, sendo essencial no bom funcionamento do organismo”, diz o nutricionista. Mas a suplementação depende de exames prévios e deve ser feita sob recomendação médica ou do nutricionista. “Quem se expõe muito ao sol, pode precisar de uma baixa dosagem e quem não toma sol pode precisar maior quantidade, então não dá para se auto suplementar”, diz.

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Embora esteja presente em peixes e ovos, a concentração dessa vitamina é muito baixa nos alimentos, por isso o sol e a suplementação são mais eficientes. “Meia hora de sol por dia, sem uso de protetor solar, ajuda a produzir a vitamina D”, explica.

Takeo também indica o consumo de alguns alimentos durante a quarentena. Veja as dicas:

  • saladas, verduras e legumes, no almoço e no jantar;
  • metade do prato deve conter vegetais, com três cores diferentes;
  • consumir de 3 a 4 porções de frutas ao dia, em especial as ricas em vitamina C (laranja, kiwi, abacaxi, bergamota, manga, goiaba vermelha, limão)
  • temperos como alho (picado ou amassado), açafrão, pimenta, cebola e gengibre
  • própolis de abelha (20 gotas/dia)
  • manter o consumo de proteínas (carne, frango, peixe, ovos, cogumelos, iogurtes) para evitar a perda de massa magra durante a fase sem exercícios
  • abacate, azeite de oliva e oleaginosas (fontes de vitamina E)
  • cenoura, manga, gema de ovo e abóbora (fontes de vitamina A).

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