Depoimentos de três testemunhas fornecem mais informações para a CPI dos Respiradores

Médico pneumologista Marcio Martins e empresários de Joinville Gustavo Steglich e Rafael Wekerlin, foram ouvidos pelos deputados estaduais que investigam a compra de 200 respiradores pulmonares

Dos quatro depoimentos marcados pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) dos Respiradores da Alesc (Assembleia Legislativa de Santa Catarina), três foram realizados nesta quarta-feira (17), de forma virtual.

As testemunhas trouxeram mais elementos para a investigação feita pelos deputados estaduais sobre a compra de 200 respiradores artificiais pela Secretaria de Estado da Saúde (SES).

CPI dos Respiradores teve mais uma sessão nesta quinta-feira. Foto: Bruno Collaço/AL

O único que não foi ouvido foi o empresário Samuel Brito Rodovalho, que poderia esclarecer quem pediu a comissão de R$ 3 milhões na negociação que envolveu uma importadora de Joinville, que teve a proposta substituída pela da Veigamed.

Ventiladores não seriam ideais para pacientes de Covid-19

O médico pneumologista Marcio Martins foi o primeiro a ser ouvido pelo deputados. Ele explicou inicialmente que existem dois tipos de ventiladores pulmonares: o invasivo e o não invasivo.

Mesmo sem saber qual respirador foi adquirido pelo governo do Estado, Martins destacou que existem os respiradores de transporte, que são portáteis e colocados nas ambulância,s ou para fazer algum procedimento fora da UTI.

“Esses ventiladores de transporte não são ideais para ventilar os pacientes com Covid-19”, declarou Martins. O pneumologista destacou que o novo coronavírus provoca uma síndrome respiratória grave, o que necessita ventiladores mais robustos, que possam ventilar e dar condições para o pulmão do paciente se recuperar.

“Se for ventiladores de transportes, não são adequados para ventilar os pacientes com doença pulmonar do Covid-19”, enfatizou.

Empresário Samuel Rodovalho (E) pretendia falar virtualmente na CPI. Reprodução TV AL

Sem conhecer nenhum dos dois modelos que fizeram parte da negociação com a Veigamed, Martins também salientou que os equipamentos precisam estar liberados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Além disso, os funcionários precisam ser capacitados para operar os respiradores.

Martins foi questionado sobre a avaliação feita por um engenheiro eletricista dos equipamentos adquiridos pelo governo do Estado. O médico salientou que o ideal seria que os aparelhos pudessem ser avaliados por um engenheiro biomédico, profissional que atua nos hospitais para garantir o funcionamento dos equipamentos de saúde.

“Talvez um engenheiro biomédico traria resultados mais satisfatórios”, completou.

Depoimento transferido para forma presencial

O empresário Samuel de Brito Rodovalho seria a segunda testemunha a ser ouvida de forma virtual. Residente em Florianópolis e com empresas com sede em Valinhos (SP), o empresário pretendia fazer o depoimento em um escritório de advocacia na Capital.

No entanto, o relator da CPI dos Respiradores, deputado Ivan Naatz (PL), ao saber que a testemunha estava em Florianópolis, solicitou a suspensão do depoimento e a transferência para a próxima terça-feira, de forma presencial.

De acordo com os deputados, não havia motivos para a oitiva ser virtual, uma vez que todos os cuidados estão sendo adotados pela CPI em relação à pandemia.

Empresário de Joinville fala sobre compra da Veigamed

A terceira oitiva foi realizada de forma virtual com o sócio da empresa Oltramed, Gustavo Bissacotti Steglich.

Gaúcho e residente em Joinville, o empresário comercializou kits de teste de Covid-19 com a Veigamed, em negócio frustrado pelas investigações da força-tarefa da Operação Oxigênio.

Steglich disse que não conhece Fabio Guasti e que a relação da empresa com a Veigamed se restringe a um único negócio: a tentativa de compra de testes de Covid-19 importados pela Oltramed.

Empresário Gustavo Steglich (E) relatou detalhes da venda feita a Veigamed. Foto: Reprodução TV AL

“Essa venda estava em andamento, eu recebi os valores. Foi pago inclusive os impostos (R$ 3 milhões), o caminhão foi carregado e a venda seria concluída com a entrega. Porém, após a saída da entrega na sexta-feira, estourou esse escândalo”, relatou o empresário, que teve um prejuízo de fluxo de caixa. Até o momento, ele não recebeu os impostos pagos para esta venda junto ao estado do Rio de Janeiro.

Questionado sobre a existência de “canibalismo comercial” pelo deputado estadual Kennedy Nunes (PSD), Steglich explicou que o mercado é regido pela lei de oferta e procura, e que houve também muita especulação naquela época.

“Recebi mais de mil ligações por dia. Cheguei a receber um orçamento de um distribuidor que venderia 7 milhões de unidades para o Acre, que tem 700 mil pessoas. O que é sabido é que existiu uma escassez de produto absurda”, declarou.

Ainda segundo Steglich, a negociação de venda dos 100 mil testes da Covid-19 foi fechada com a Veigamed, pois a empresa tinha autorização da Anvisa para comercializar os testes. E até então, parecia ser uma empresa sem problemas.

Importadora esclarece “comissão”

O empresário Rafael Wekerlin, da empresa de importação Brazilian Trading, foi o último a ser ouvido pela CPI dos Respiradores.

O interesse, segundo o relator Ivan Naatz, era saber como se deu a oferta de “comissão” recebida pela empresa e tornada pública durante a negociação de compra dos 200 respiradores pulmonares.

Werlekin relatou que soube do interesse do governo de Estado por um representante comercial da empresa, e que não sabia da existência da Veigamed.

Empresário Rafael Wekerlin esclareceu alguns pontos da negociação feita com a importadora. Reprodução TV AL

O empresário disse que foi contatado para fazer a importação de equipamentos da CIMA Industries, de Samuel de Brito Rodovalho, com sede no Panamá. O que parecia, segundo ele, ser um negócio como outro qualquer. Porém, os R$ 33 milhões eram insuficientes.

“Para fazer a venda daria R$ 40 milhões, aí começou uma discussão”, relatou Wekerlin, sobre um debate sobre valores em um grupo de mensagens formado para a negociação.

Sobre o pedido de comissão feito por aplicativo de mensagem por Samuel, Wekerlin disse que não aceitou e também não quis saber para quem seria, pois a negociação já não atendia ao “compliance” da empresa.

“Já não estava ganhando nada, não quis nem saber para quem era”, declarou.

O empresário também relatou detalhes sobre a substituição da proposta da Brazilian Trading pela Veigamed. Ele disse que a empresa já está adotando providências em relação a utilização das informações.

Indagado pelos deputados de que a ex-superintendente Marcia Pauli já sabia da proposta da Veigamed no dia 23 de março, Wekerlin disse acreditar então que a proposta da Brazilian Trading tenha sido utilizada para melhorar a proposta da Veigamed.

Ao final do depoimento de Wekerlin, o deputado Kennedy Nunes apresentou áudio da “live” realizada pelo governo do Estado no dia 26 de março. Na ocasião, o então secretário de Estado da Saúde, Helton Zeferino, afirma que o governo de Santa Catarina está buscando equipamentos fora do país, pois as indústrias nacionais estavam comprometidas com o Ministério da Saúde.

Para Nunes, é uma prova de que o governo do Estado sabia da negociação aberta com a Brazilian Trading, que importaria os 100 equipamentos disponíveis da Cima Industries, de Samuel de Brito Rodovalho, do Panamá. O áudio foi anexado aos autos da investigação a pedido do presidente da CPI, Sargento Getúlio (PSL).

+

Saúde