Descarte de máscaras contra Covid-19 pode ser tornar problema ambiental e de saúde pública

Além dos impactos no meio ambiente, descarte incorreto representa risco para os profissionais de limpeza, que ficam ainda mais expostos à contaminação pelo coronavírus, apontam especialistas

“É o novo normal achar esse tipo de resíduo no meio ambiente”, relata Leonardo Quint, referindo-se às máscaras faciais descartadas incorretamente no chão. O jovem participa do grupo Palhoça Menos Lixo, que realiza ações de coleta de resíduos na Grande Florianópolis, e afirma que o hábito tem se tornado cada vez mais recorrente durante a pandemia.

Máscara jogada no chãoMáscaras feitas de material sintético podem levar até 400 anos para se decompor – Foto: Gustavo Bruning/Divulgação/ND

A prática, no entanto, esconde consequências danosas para o meio ambiente, ao mesmo tempo em que coloca em risco profissionais que atuam na limpeza das ruas, os deixando ainda mais sujeitos à contaminação pela Covid-19.

De acordo com Quint, o problema estava evidente no último mutirão realizado pelo grupo, nesta quarta-feira (3), na praia da Guarda do Embaú, em Palhoça.

“[Isso] é bem perceptível em diversos ambientes em que a gente realiza ações: áreas urbanas, intocadas, em meio a natureza, de visitação, trilhas, parques”, revelou o colaborador. “No cotidiano são muitas e muitas por onde passo”, garante.

O descarte incorreto, no entanto, é extremamente prejudicial à natureza. A professora Luciane Rocha, especialista em educação ambiental, alerta que os protetores faciais não biodegradáveis, por exemplo, podem levar de 100 até 400 anos para se decompor.

Entram nessa leva, segundo Rocha, as máscaras cirúrgicas: embora elas sejam comprovadamente mais eficientes na filtragem das partículas de ar, são formadas por tecidos sintéticos, como lycra, neoprene e poliéster, todos de difícil transformação.

Ação de coleta de lixo na Guarda do EmbaúAção do Palhoça Menos Lixo mobilizou voluntários, na Guarda do Embaú, nesta quarta-feira (3) – Foto: Instagram/Reprodução/ND

Enquanto a natureza trabalha no processo de decomposição, a fauna também acaba sofrendo as consequências. “No ambiente aquático, as máscaras cirúrgicas podem ser ingeridas pelos animais, especialmente pelas tartarugas e pinguins”, lembra a professora. Os resíduos interagem com bactérias e fungos, que promovem a decomposição dos materiais.

“Existe todo um protocolo de descarte, não devendo, em hipótese alguma, descartar no lixo comum. Isso contaminaria os catadores e os profissionais de limpeza pública, tornando-se um grave problema”, explica a bióloga.

Por serem recicláveis, as máscaras feitas 100% de algodão são menos nocivas ao meio ambiente – o que não não significa, contudo, que elas não devam ser descartadas corretamente. “Elas duram, em média, 30 lavagens. Entretanto, se forem descartadas sujas, além de contaminação, se juntarão aos resíduos têxteis. O ideal é lavar e reciclar, se possível”, afirma. Nesses casos, o processo de decomposição pode levar de um a dois anos.

Contaminação

Conforme a médica infectologista Carine Kolling, a situação acende um alerta para a contaminação dos profissionais responsáveis pela limpeza das ruas. Isso porque as máscaras estão em contato direto com o nariz e a boca das pessoas, se tornando focos potenciais e importantes do novo coronavírus.

“O vírus pode teoricamente permanecer por até sete dias nas máscaras”, explica Kolling. O tempo de contaminação, no entanto, depende de alguns fatores, como a temperatura ambiente. “Mas poderia ser um vetor, assim como outras superfícies contaminadas”, contextualiza a médica.

Como descartar

Enquanto as máscaras de pano precisam ser lavadas e, se possível, recicladas após o limite de 30 dias de uso, existe um protocolo diferenciado para os protetores faciais cirúrgicos, publicado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no início da pandemia.

Máscara facial cirúrgicaMáscaras não biodegradáveis não devem ser encaminhadas para a coleta seletiva – Foto: Ri Butov/Pixabay/Reprodução/ND

De acordo com nota técnica da agência, as máscaras devem ser separadas e acondicionadas em um saco de lixo resistente até atingir  aproximadamente 2/3 da sua capacidade. Depois, a orientação é fechar com um lacre ou um nó apertado.

O material, então, deve ser inserido em outro saco plástico limpo, e fechado da mesma forma, resultando em uma embalagem dupla. A orientação é identificar como material contaminado, justamente para que os trabalhadores da limpeza não se contaminem, e encaminhar para o serviço de coleta urbana comum.

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