Dia do Cardiologista: Médicos de SC explicam relação da Covid-19 com doenças cardíacas

Pacientes com cardiopatias podem apresentar sintomas mais graves da infecção causada pelo novo coronavírus

Há meses, a população mundial tem convivido com a Covid-19, causada pelo novo coronavírus. Transmitida pelo contato próximo com pessoas infectadas, a doença pode ter sintomas parecidos com um resfriado e evoluir para casos graves de insuficiência respiratória aguda.

Cardiologistas explicam os impactos da Covid-19 em pacientes com doenças cardiovasculares – Foto: Reprodução/Pixabay/ND

Pessoas com doenças cardiovasculares podem apresentar sintomas mais graves da Covid-19. Além disso, pessoas acima de 60 anos ou que tenham doenças respiratórias ou diabetes, também fazem parte do grupo de risco.

No dia do médico cardiologista, o nd+ conversou com os doutores Cristiano Alexandre Ferreira, que atua no Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Tubarão e André Luiz Büchele d’Ávila, do SOS Cárdio, em Florianópolis, para entender melhor os impactos da Covid-19 em pessoas com doenças cardiovasculares.

Eles explicam que a infecção viral pode desequilibrar o quadro de pacientes cardíacos, antes controlado, sobrecarregando o coração e desestabilizando a cardiopatia.

Impactos da Covid-19

O doutor Cristiano detalha que o paciente com insuficiência cardíaca, quando contrai uma infecção, apresenta aumento no metabolismo, na frequência cardíaca e na liberação de substâncias inflamatórias.

Isso pode levar à retenção de líquido, à constrição de vasos sanguíneos e à instabilidade de placas de gordura nas artérias, causando infartos. A Covid-19, na sua forma mais grave, pode ainda causar trombose, não só nas pernas, mas também nas artérias coronárias.

A infecção pela Covid-19 também pode levar à miocardite – inflamação no músculo do coração. A condição causa o aumento no tamanho do órgão, a redução na força de contração do músculo e insuficiência cardíaca grave. O médico destaca que a miocardite pode acontecer tanto no período em que o paciente está infectado pela Covid-19, como depois, em forma de sequela.

Outro impacto levantado pelo cardiologista está relacionado ao medo das pessoas em contrair a Covid-19, causando ansiedade e depressão.

“Os pacientes que já têm doenças cardíacas estão infartando mais, ficando mais hipertensos. O estresse e o isolamento social promovem uma descarga de hormônios que causam aumento na pressão arterial”, explica.

Sintomas mascarados

A Covid-19 pode mascarar sintomas que estão, na verdade, relacionados a condições cardíacas. Segundo o doutor Cristiano, fica mais difícil diagnosticar um paciente com doenças cardiovasculares, como insuficiência cardíaca, angina ou infarto do miocárdio, quando ele contrai Covid-19.

O médico André d’Ávila explica que a infecção viral pode inflamar o músculo do coração e a membrana do pericárdio, que fica em volta do órgão. Isso pode causar uma dor semelhante a do infarto.

Além disso, a Covid-19 também pode causar o aumento dos batimentos cardíacos, tal qual uma arritmia. A recomendação é que os médicos façam exames e avaliem se o paciente está com sintomas causados pela Covid-19 ou outra doença cardiovascular, ou ainda se a doença no coração está entrando em desequilíbrio por causa do vírus.

Doutor Cristiano Alexandre Ferreira – Foto: HNSC/Divulgação/ND

O diagnóstico precoce pode ajudar a evitar que a doença progrida para uma forma mais complicada.

“Quanto mais cedo é confirmado o diagnóstico, mais atento o médico fica para poder prescrever medicações que têm efeito comprovado na mudança do prognóstico”, diz o doutor André.

O médico Cristiano Ferreira reforça que as pessoas cardíacas não devem ter medo de procurar os hospitais. “Muita gente está morrendo em casa por medo de contrair Covid-19. Não tenha medo de ir na emergência em busca de atendimento rápido focado na parte cardiológica”, defende.

Vacinação e cuidados  

Ambos os cardiologistas recomendam que portadores de doenças cardíacas vacinem-se contra a gripe. Pacientes com sintomas de gripe podem estar infectados por três tipos de vírus: Covid-19, vírus influenza e H1N1. Se o paciente for vacinado contra H1N1, por exemplo, o médico já descarta essa possibilidade, o que acelera o diagnóstico.

Pacientes cardíacos podem ter mesmo tratamento contra Covid-19 que pacientes que não possuem doenças no coração – Foto: Pixabay/Reprodução/ND

Os cardiopatas devem redobrar os cuidados para evitar o contágio pelo novo coronavírus. Evitar aglomerações, garantir a higiene pessoal, lavar bem as mãos com álcool em gel 70% ou sabão comum e usar a máscara. O item deve ser utilizado, inclusive, quando o cardiopata divide o mesmo ambiente com pessoas mais jovens.

Tratamentos

No tratamento da Covid-19, os cardiologistas reforçam que a pessoa cardíaca pode usar os mesmos medicamentos recomendados a pacientes que não tenham problemas no coração.

Adrenalina para manter a pressão, corticóides, antibióticos, ventilação mecânica, anticoagulantes podem ser administrados a pacientes cardíacos. A hidroxicloroquina também pode ser usada sob orientação médica.

Médico cardiologista André d’Ávila é diretor do serviço de arritmia e marcapasso do SOS Cardio desde 2013 – Foto: Simpósio Arritmia/Divulgação/ND

Conexão Harvard

O cardiologista André d’Ávila, além de atuar no Hospital SOS Cárdio, em Florianópolis, também é diretor do serviço de arritmia cardíaca do Beth Israel Deaconess Medical Center em Boston, nos Estados Unidos, afiliado da Universidade de Harvard.

A universidade tem um projeto cujo objetivo é criar uma colaboração mútua entre hospitais brasileiros e o Beth Israel, onde pesquisadores trabalham no desenvolvimento de uma vacina contra a Covid-19.

“Isso é muito importante e se der certo, vai ajudar muita gente. O hospital possui ampla experiência com a Covid-19, por ter um número alto de pacientes internados. Essa troca de informações pode ser muito útil para ambos os lados”, conclui.

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